Aprendendo com os erros | Fundações preparam diversificação, para...

Edição 292

 

Juros em queda, diversificação dos investimentos, mudança súbita de cenário, perdas contábeis das aplicações. Este foi o enredo para os fundos de pensão e outros tantos investidores naquele fatídico ano de 2013, em que foi quase impossível bater a meta atuarial dos planos de previdência fechados. O cenário que se desenha agora, de Selic novamente em queda e necessidade de mudanças nas aplicações, relembra esse passado não muito distante e as fundações terão a chance de mostrar as lições que aprenderam dele. “As entidades aprenderam que não dá para contar apenas com o cenário em que tudo dá certo para o Brasil”, diz Guilherme Benites, sócio da assessoria de investimentos Aditus. Segundo ele, na época não estava claro que as coisas poderiam dar tão errado.
Lauro Araújo, diretor da consultoria Lockton Brasil, avalia que houveram erros e as fundações não se prepararam, na época, para mudanças de cenário. Segundo ele, o contexto atual exige que o gestor se preocupe com a alocação dinâmica dos recursos, ou seja, que busque a melhor relação entre o risco e o retorno dentro de um determinado cenário previsto. “A alocação precisa ser em função do cenário: se acertá-lo, ganha e se errar, perde. Então o foco tem que ser monitorar de perto o cenário”, diz Araújo. Em 2013, o maior estrago foi na renda fixa, uma vez que os títulos públicos que recheavam boa parte das carteiras registraram perda de seu valor de face com uma mudança brusca na política monetária do Banco Central.
O desempenho de 2016 das fundações parece mostrar que algumas lições foram aprendidas: a rentabilidade média do setor foi de 14,56%, ante uma Taxa de Juros Padrão (TJP) de 13,44%, após três anos seguidos sem atingir suas metas, segundo dados da Abrapp. As carteiras de renda fixa estavam bem posicionadas para aproveitar a queda dos juros. Já o bom desempenho da bolsa de valores (Ibovespa subiu 39% em 2016) passou ao largo dos portfólios. Segundo Araújo, há uma explicação técnica para isso: a relação entre risco e retorno da renda fixa estava melhor do que o da bolsa. “2016 mostra que as fundações aprenderam com os erros de 2013”, afirma.
Os gestores, porém, se encontram novamente em uma encruzilhada: os juros voltaram a cair e eles precisam se posicionar para o que vai acontecer daqui para frente. O problema é que ainda há muitas incertezas macroeconômicas no cenário de curto e médio prazos ligadas ao risco político. As perspectivas do mercado são melhores desde a troca de governo no ano passado, mas as reformas necessárias para conter o endividamento público e colocar a economia de volta nos trilhos ainda não são certas. “É muito difícil saber para onde vão as coisas. Estamos discutindo alocação, mas se de repente as reformas não passarem no Congresso, tudo muda”, diz Benites, da Aditus.
O mercado espera que a Selic termine o ano em 8,5% ao ano, segundo o último Relatório Focus, equivalente a uma queda de 2,75 pontos percentuais (p.p.) em relação aos atuais 11,25% e um recuo de 5,75 p.p. se comparado ao pico de 14,25% do segundo semestre do ano passado. A inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPCA) é de 4,5% no acumulado dos últimos 12 meses até março, próximo da meta do Banco Central. Já para o crescimento, espera-se que o Produto Interno Bruto (PIB) do país avance perto de 0,5% neste ano, ante queda de 3,6% no ano passado.
Frente a este cenário, as fundações pretendem diversificar suas aplicações, indica levantamento feito pela Aditus com 110 fundos de pensão, que possuem patrimônio de cerca de R$ 200 bilhões. O estudo mostra que há uma disposição em aumentar a alocação média em renda variável de 4,9% do portfólio em 2016 para 6% neste ano. Os estruturados devem ter sua fatia elevada de 5% para 5,8% e as aplicações no exterior, de 0,35% para 0,57%. Em contraparte, a alocação em renda fixa deve ser reduzida de 89,9% para 84,4% do ano passado para este. “A medida que os juros caem e não se encontrar título público com taxa suficiente para bater a meta, as fundações terão que procurar outros tipos de ativos”, diz Benites.

Exterior – Nesta linha, a política de investimentos da Volkswagen Previdência Privada (VWPP) abriu a possibilidade de aplicação dos ativos no exterior no limite de até 5% do patrimônio, que hoje é de R$ 2,6 bilhões. Uma primeira rodada de aplicação foi feita, no valor de R$ 10 milhões, em um fundo de renda fixa. Para evitar a volatilidade do câmbio, os investimentos têm hedge. Além disso, o limite de investimento em estruturados foi elevado de 10% para 15%. “Com a queda dos juros e a melhora da bolsa, as entidades vão ter que fazer mudanças. Algumas vão fazer isso mais devagar, como nós, e outras de forma mais rápida”, diz Luiz Paulo Brasizza, diretor de investimentos da VWPP.
O ritmo mais cauteloso também é a estratégia adotada pela Previ-Ericsson. A gestão da fundação está trabalhando neste ano para ampliar a parcela de renda variável do patrimônio, dos atuais 3,2% para o alvo da política de investimentos, de 8%. “Vamos alocando devagar, avaliando o cenário, a medida que ele for ficando mais claro e favorável”, afirma Rogério Tatulli, diretor superintendente da Previ-Ericsson, que tem patrimônio de R$ 1,3 bilhão. Ele destaca que em 2018 há eleições presidenciais e que, devido ao risco político, as mudanças no portfólio serão feitas de forma gradual e sem pressa. “Nossos planos estão superavitários, o que nos dá uma condição tranquila para fazermos alocações estruturais de longo prazo”, diz.
No ano passado, a fundação preferiu não agregar mais risco e volatilidade ao portfólio e, por isso, não ampliou as aplicações em ações mesmo com a bolsa em alta. “Fizemos essa opção de não ampliar a posição em bolsa, que estava subindo apenas com base em expectativas”, afirma Tatulli. Ele explica que devido a isso, o desempenho de 2016 ficou um pouco abaixo do visto na média do setor, mas ainda assim a fundação bateu sua meta atuarial: retorno de 12,75% versus um objetivo de 11,6%. “Preferimos ficar no CDI”, conta. Neste ano, além de ampliar a parcela em ações, a gestão fará um mix entre gestão passiva, com aplicação em ETFs (fundos de índices negociados em bolsa), e ativa, com alocação em fundos de valor, de dividendos e small caps.

Diferenças – Benites, da Aditus, chama a atenção para algumas diferenças importantes entre o cenário de 2013 e o atual. Umas delas é a forma como os fundos de pensão contabilizam os títulos públicos em suas carteiras. O ano de 2013 foi marcado pelo fato da renda fixa ter perdido até para o ruim desempenho da bolsa de valores. No ano anterior, os títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs) haviam batido recordes de valorização e figuraram no topo do ranking de investimentos do ano. A NTN-B Principal com vencimento em 2035, por exemplo, valorizou perto de 50%. No ano seguinte, porém, foi uma das aplicações que mais perdeu valor: o mesmo papel recuou 23% em 2013, mais do que a perda de 13,8% do Ibovespa naquele ano.
“Em 2012, não só os fundos de pensão, mas outros tipo de investidores entraram no fim da festa, com as taxas de juros ainda caindo. Na época, eles assumiram que o cenário de longo prazo seria aquele, de Selic em queda. Quando as taxas voltaram a subir, eles foram pegos no contrapé e tiveram perdas”, lembra Araújo. A Selic caiu de forma continua dos 12,50% em julho de 2011 até 7,25% em março de 2013. No mês seguinte, mudou de direção e começou a subir. Como na época a maior parte dos títulos públicos nas carteiras das fundações era marcado a mercado, a elevação das taxas de juros fez com que os títulos públicos indexados à inflação registrassem perdas de seu valor de face quando trazidos a valor presente. Hoje, no entanto, a maior parte das carteiras tem esses papéis marcados na curva, as protegendo assim de solavancos do mercado.
Outra diferença entre os dois períodos é a forma como o passivo dos fundos de pensão são precificados. Em 2013, o passivo era descontado a uma taxa fixa que iria cair ano após ano até chegar nos 4,5%. Agora, a taxa flutua de acordo com movimentos de mercado e se adequa ao perfil de cada plano. “Agora, com uma regra mais adequada para o passivo, a tomada de risco pode ser feita de maneira mais tranquila pelos fundos de pensão”, diz Benites, que não vê uma corrida para a tomada de risco, como em 2012 e 2013 por conta da queda da Selic.