Edição 386

Para o CEO da Investo, Cauê Mançanares, “não tem nada estrutural que realmente impeça o mercado de ETFs de crescer e de decolar por aqui”
Em 2021, o mercado brasileiro ainda falava pouco sobre ETFs – os fundos de índice negociados em bolsa – quando a Investo lançou seu primeiro produto na B3, um fundo que replicava um índice da Vanguard voltado a empresas norte-americanas do setor de tecnologia. Cinco anos depois, a gestora tem uma carteira de 28 ETFs listados, além de dois fundos de ações e um fundo previdenciário, ostentando R$ 10 bilhões em ativos sob gestão. E não pretende parar por aí. “Nós batemos R$ 10 bilhões sob gestão e continuamos acelerando”, afirma o fundador e CEO da casa, Cauê Mançanares.
A aposta da Investo é que esse crescimento não seja apenas um fenômeno da gestora, mas parte de uma transformação mais ampla da indústria brasileira de fundos. Segundo Mançanares, o mercado local de ETFs dobrou de 2024 para 2025, saindo de cerca de R$ 50 bilhões no final de 2024 para perto de R$ 100 bilhões no mesmo período do ano passado. Mesmo assim, ainda representa apenas 1% da indústria brasileira de fundos, estimada em torno de R$ 10 trilhões. “Apesar de ter crescido bastante do ano passado para cá, a gente ainda é somente a ponta do iceberg do tamanho que esse mercado tem de potencial”, diz.
A régua de comparação é o mercado norte-americano, onde os ETFs já representam mais de 30% da indústria de fundos. Para Mançanares, o Brasil repete, com atraso de dez a quinze anos, as trajetórias do mercado financeiro norte-americano. Foi assim, diz ele, com as plataformas de investimento, com o crescimento dos fundos imobiliários e agora deve acontecer o mesmo com o segmento de ETFs. “Não tem nada estrutural que realmente impeça o mercado de ETFs de crescer e de decolar por aqui”, afirma.
A distância em relação aos Estados Unidos ajuda a dimensionar o tamanho da oportunidade. Pelas contas do executivo, se os ETFs passarem de 1% para 5% da indústria brasileira de fundos, isso significaria saltar para algo como R$ 500 bilhões nessa estratégia, considerando o tamanho atual do mercado. Em uma hipótese de 10% da indústria alocada em ETFs, o que no entendimento de Mançanares não é algo fora de propósito, essa projeção poderia dobrar. “A gente está falando de um mercado com potencial de R$ 1 trilhão”, afirma.
Esse potencial começa a aparecer também na composição da base de investidores. Embora os ETFs tenham ganhado tração inicialmente entre pessoas físicas, assessores e consultores de investimento, os institucionais já representam cerca de 35% do total sob gestão da Investo. Há dois anos, essa participação era de aproximadamente 10%, sobre um volume muito menor. “Hoje, no nosso AuM, 35% aproximadamente é institucional. Há dois anos, era 10% institucional num PL muito menor”, diz o executivo.
Nesse público institucional estão incluídas assets, fundos de pensão e RPPS. As assets ainda têm o maior peso, em parte porque usam ETFs como componentes de suas próprias carteiras ou produtos, mas a presença de Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) e Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) também começa a crescer. “Pelo que a gente mapeia, grande parte disso são as assets, mas já temos pelo menos uma dezena de EFPC e alguns RPPS que alocam nos nossos ETFs”, afirma.
Para Mançanares, a tendência é que esse percentual continue subindo. O paralelo, novamente, é com os Estados Unidos, onde os institucionais respondem por cerca de 60% do AuM em ETFs. A diferença é que, no mercado americano, a virada institucional só ganhou força depois de anos de consolidação do produto, especialmente após a crise de 2008, quando a gestão ativa mostrou dificuldade para proteger carteiras em um ambiente de queda generalizada. “Talvez por aqui, em algum momento, a gente chegue nesse nível de mais da metade dos boletos serem de institucionais”, diz.
O que é isso? – A Investo nasceu justamente da leitura de que faltava no Brasil uma casa dedicada a acelerar o mercado de ETFs. A gestora foi criada em 2020 e iniciou suas operações em 2021, em meio a um ambiente ainda marcado pelo ceticismo em relação aos fundos de índices. “Eu fundei a Investo em 2020, e quando eu falava de ETFs as pessoas perguntavam: o que é isso?”, lembra Mançanares. Segundo ele, alguns investidores que conheciam um pouco mais associavam o produto apenas ao BOVA11, sem enxergar a possibilidade de construir carteiras diversificadas por classes de ativos, geografias e temas.
A estratégia inicial foi atacar uma lacuna clara: o acesso do investidor brasileiro ao mercado internacional. Por isso, a primeira leva de produtos concentrou-se em índices de ações globais, ações de Estados Unidos, ações de tecnologia e ações de estratégias temáticas. A grade cresceu e passou a incluir ETFs de economia global, ouro, mercado imobiliário americano, private equity, semicondutores e crédito privado Hoje inclui urânio, energia nuclear, games e esportes, small caps de valor, mercados emergentes, Argentina e Bitcoin.
Mais recentemente, a gestora passou a reforçar a prateleira local, especialmente em renda fixa. A Investo já tem ETFs ligados a Tesouro Selic, Tesouro IPCA, uma combinação de Selic e IPCA, além de letra financeira bancária. Outros produtos de crédito estão no pipeline. “Onde mais estamos crescendo é na renda fixa brasileira, é onde o PL tem aumentado mais”, afirma Mançanares.
Apesar da variedade temática, o princípio é o mesmo: gestão indexada a índices. A Investo também possui fundos não listados, incluindo fundos de ações e previdência, mas eles seguem uma lógica sistemática, com metodologia definida e uso de ETFs na composição das carteiras. “Eles compram nossos ETFs. Nosso foco é ETF”, diz. “O ETF é o ápice da gestão indexada.”
Na criação dos ETFs a gestora trabalha tanto com índices disponíveis no mercado quanto com índices desenvolvidos sob demanda por provedores externos. Quando há um benchmark consolidado, a Investo licencia esse índice. Quando não há, participa da construção da metodologia junto a provedores especializados, definindo critérios como liquidez, tamanho, lucratividade, endividamento, negociabilidade, rebalanceamento, limites de concentração, etc. “A Investo dá muito input, porque é um índice criado sob demanda para nós”, diz.
A expansão da prateleira, porém, é apenas uma parte da estratégia. A outra é educação do investidor. “Educação é a peça central em tudo”, afirma Mançanares. A gestora produz conteúdo, participa de eventos, promove reuniões e cafés da manhã e usa o time comercial como frente de orientação ao investidor. “Eu tenho um time de vendas que, na verdade, é um time de educadores.”
Esse trabalho vale tanto para o investidor de varejo quanto para o institucional. Segundo Mançanares, os ETFs podem ser usados em diferentes níveis de alocação, desde posições pontuais até carteiras montadas quase inteiramente com fundos indexados.
Ambição de crescimento – A entrada da gestora norte-americana VanEck no capital da Investo ocorreu em 2022, reforçou sua ambição de crescimento. Com cerca de 70 anos de história nos Estados Unidos, a VanEck era originalmente apenas parceira da Investo em produtos globais, mas em 2022 tornou-se acionista minoritária numa captação secundária e em novas chamadas tornou-se acionista controladora, mas mantém o time brasileiro à frente da operação. “Eles têm mais de 50% da empresa, mas o número exato da participação a gente não abre”, afirma Mançanares.
A decisão de montar a Investo foi construída ao longo da sua trajetória profissional. Ele trabalhou no Banco Central, na supervisão de instituições não bancárias onde integrou um time voltado a inovações tecnológicas, e mais tarde atuou na área de venture capital, no Vale do Silício. Inspirado pela experiência norte-americana com gestão indexada, decidiu estruturar o plano de negócios da Investo quando fazia um MBA em Harvard.
A decisão de criar a Investo nasceu da percepção de que o mercado brasileiro de ETFs não avançaria apenas pela inércia natural da indústria. A experiência nos Estados Unidos havia mostrado a Mançanares o potencial da gestão indexada e dos fundos negociados em bolsa, mas também deixou claro que a consolidação desse mercado exigia uma gestora especializada, dedicada a desenvolver produtos, educar investidores e construir uma infraestrutura de distribuição e conhecimento em torno dos ETFs. “Arregaçamos as mangas e montamos a gestora”, relembra.