Edição 41
Um esquema de fraudes montado por ex-funcionários da fundação Ceres,
patrocinada pela Embrapa, conseguiu desviar quase R$ 1,8 milhão da
entidade entre 1990 e 1996
Um esquema de fraudes montado por ex-funcionários da fundação Ceres,
patrocinada pela Embrapa, conseguiu desviar quase R$ 1,8 milhão da
entidade entre 1990 e 1996. A quadrilha, composta por sete ex-
funcionários e outras vinte pessoas de fora da fundação, tinha montado
um processo de falsificação e descontos de cheques duplicados da
fundação, retenção de pagamentos de dívidas de participantes e desvio
de dividendos de ações, depositando os recursos obtidos em contas
de “laranjas”, como são conhecidos no jargão policial aqueles que
emprestam seus nomes aos verdadeiros estelionatários.
O processo, contando em detalhes a forma de operação da quadrilha,
está arquivado na 8º Vara Criminal de Brasília. Segundo o delegado
Evandil Arboléia, da Delegacia de Defraudações e Falsificações de Brasília
e responsável pelo caso, os envolvidos foram indiciados por furto
qualificado, e podem pegar de 1 a 5 anos de prisão, por furto, mais dois
terços desse tempo, por ser um crime qualificado. Eles aguardam o
julgamento em liberdade, embora existam provas concretas contra eles.
Eles vão responder a quatro ações movidas pela fundação Ceres. A
primeira deve deve ser julgada nos próximos 30 dias. “Foi uma estratégia
dos nossos advogados, para que eles não fossem enquadrados como
réus primários e se livrassem da pena. Se forem condenados na primeira
ação, na segunda já não são mais primários”, explica Eduardo Paulo de
Moraes Sarmento, diretor superintendente da Ceres.
Descoberta – A descoberta do esquema começou por acaso, no dia 18 de
setembro de 1996, quando o gerente da agência do Banco do Brasil, na
qual a fundação tem conta, em Brasília, telefonou para Sarmento para
questionar o volume dos saques naquele mês. Acostumado aos
pagamentos rotineiros da fundação, o gerente achava que naquele mês o
volume havia subido muito, sem razões aparentes. Intrigado, e sem
saber explicar o porque do crescimento dos saques, Sarmento mandou
suspender as operações da conta corrente.
Imediatamente dirigiu-se à agência. Lá, enquanto conversava com o
gerente do banco, o telefone tocou. Do outro lado da linha uma senhora
nervosa exigia explicações sobre um cheque que havia depositado em
sua conta e tinha sido devolvido. Ela estava certa que deveria ser um erro
do banco, uma vez que o sacado era a Fundação Ceres.
O gerente convidou-a a vir até a agência, para resolver o problema. Ali
chegando, ela foi encaminhada à delegacia, onde acabou denunciando os
outros envolvidos. Ela era uma das 20 laranjas.
O chefe da quadrilha era o auxiliar do tesoureiro da fundação, um dos
funcionários mais antigos. Ele foi preso no dia seguinte e, diante das
provas apresentadas pelos diretores da Ceres, coletadas em uma
investigação feita na noite anterior, acabou confessando e delatando entre
outros o seu chefe, o tesoureiro da Ceres.
O esquema, que mais tarde se soube que era apenas o primeiro,
representou um rombo de R$ 1.048.710,38 na conta da entidade.
Funcionava da seguinte forma: a dupla de tesoureiro e auxiliar
apresentavam aos diretores responsáveis pela área financeira da entidade
um cheque igual ao que eles já tinham assinado, sob o argumento do que
o primeiro tinha tido algum tipo de problema e havia sido inutilizado. “É
normal que, às vezes, problemas desse tipo aconteçam”, afirma
Sarmento. “Mas era tudo golpe”.
No final, a dupla de estelionatários ficava com dois cheques assinados
pela diretoria. Com um deles, pagava as contas da fundação e depositava
o outro na conta bancária de um dos “laranjas”. Para apagar vestígios, a
dupla falsificava todos os extratos bancários emitidos pelo Banco do
Brasil. Neles, só constavam os cheques “bons”. “A falsificação era perfeita,
e só foi comprovada com as análises dos peritos do Banco do Brasil e
depois, pela polícia técnica.