Edição 33
Uma combinação de juros altos e valorização das bolsas de valores está
permitindo que as fundações recuperem os prejuízos que amargaram no
final do ano passado, durante a crise da Ásia
Uma combinação de juros altos e valorização das bolsas de valores está
permitindo que as fundações recuperem os prejuízos que amargaram no
final do ano passado, durante a crise da Ásia. Algumas fundações,
inclusive, já estão com patrimônios maiores do que tinham antes da crise.
É o caso da Fundação Real Grandeza, de Furnas, que antes da crise tinha
um patrimônio de R$ 917 milhão e hoje possui R$ 1.050 milhões, um
crescimento de 14,5% no período. Essa valorização foi possível porque as
perdas da fundação em renda variável, no ano passado, foram pequenas,
da ordem de 5%, graças ao uso de mecanismos de hedge, explica Benito
Siciliano, gerente de análise da fundação.
De acordo com ele, a queda de 5% no patrimônio da carteira de renda
variável pode ser considerada baixa, já que a média do mercado teria sido
algo em torno de menos 20%. “No ano passado, todos perderam.”
Com uma queda pequena na renda variável, a fundação tratou de se
recuperar apostando nas altas taxas de juros da renda fixa. Assim como
outras entidades, a Real Grandeza aumentou o carregamento de títulos
pré-fixados, com juros altos. No total, a fundação tem hoje 60% de seu
patrimônio investido em renda fixa.
A subida das bolsas desde o início do ano também ajudou a fundação. Ela
manteve um quarto dos seus ativos em renda variável, os quais estavam
totalmente protegidos por mecanismos de hedge, sendo 70% no futuro de
índices, 20% em opções e 10% em outras operações estruturadas. Com
isso, com o mercado em alta, a carteira da fundação podia ganhar do
Ibovespa via opções e com o mercado em queda ela não perdia nada,
estando travada no índice.
Essa operação, contratada por seis meses, custou à Real Grandeza 5% ao
ano. Vencida recentemente, foi renovada. “Consideramos que, para o
tamanho de nosso patrimônio, o custo de 5% ao ano da operação acaba
ficando baixo e a segurança compensa bastante”, afirma Siciliano.
Outra que está conseguindo superar as perdas do ano passado é a
Eletros, da Eletrobrás, apostando nas altas taxas de juros. Segundo o
chefe da área de investimentos da fundação, Luís Guilherme Nobre, as
aplicações em renda fixa trouxeram quase R$ 30 milhões em ganhos
desde a crise de outubro, tendo sido responsável pela recuperação do
patrimônio. A fundação perdeu 5% do patrimônio – que hoje está em R$
611 milhões – com a crise, que era justamente o superávit que
acumulava. “Ainda não voltamos ao topo, mas estamos perto disso, já
estamos com um superávit de 3% a 4%”, conta Nobre.
Na crise, a Eletros reduziu sua carteira de ações de 35% para 21% do
patrimônio, usando os recursos para investir em renda fixa – modalidade
que hoje representa quase 50% dos recursos da fundação. Segundo
Nobre, as aplicações em renda variável estão hoje em 24% e não devem
ultrapassar esse limite, especialmente porque a Eletros está com superávit
e não quer se arriscar. “Nosso ganho é suficiente para a reserva. Não
podemos correr risco maior, até porque estamos aqui para pagar
aposentadorias e precisamos ter segurança na hora de investir”, afirma.
A adoção de uma política conservadora de investimentos, depois da crise
asiática, também foi a responsável pela recuperação da fundação Aços, da
Acesita. De acordo com o presidente da fundação, Maurici José Mansur, a
perda foi pequena na crise, em torno de 2% do patrimônio. “Mas os
meses seguintes, de investimentos conservadores, já neutralizaram a
queda.”
As carteiras da fundação Acesita são totalmente administradas por
terceiros, que têm um limite para trabalhar: até 75% em renda fixa e até
25% em renda variável. “Assim, ficou mais fácil a recuperação”, explica
Mansur.
A Ceres, fundação da Embrapa, também está ganhando com a alta das
bolsas. Suas perdas na renda variável, no ano passado, chegaram a
representar 10% da sua carteira. Mas, segundo o analista de
investimentos da fundação, João Batista Dias, a rentabilidade das ações
de 2ª linha neste ano já permitiu amortizar as perdas do ano
passado. “Março foi um mês muito bom, daqui para frente é só lucro”,
garante Dias.
A Ceres tinha, antes da crise do ano passado, 40% da sua carteira de R$
400 milhões em renda variável. Com a crise, ela reduziu a carteira para
35%. Atualmente, já voltou aos antigos 40% e, segundo Dias, está
planejando aumentar seus investimentos no mercado acionário. “Bolsa é
assim mesmo”, diz o analista.
A Previnorte, fundação da Eletronorte, é outra que se deu bem apostando
no mercado acionário. Em fevereiro, com o início da recuperação das
bolsas, a fundação passou a fazer operações de compra e venda de
papéis, vendendo primeira linha e concentrando-se em ações mais
baratas da segunda linha nobre. Com isso, conseguiu repor as perdas do
ano passado. “Reduzimos o custo da carteira e aproveitamos para
diversificá-la”, explica a gerente de investimentos da fundação, Ana Odete
Barreto Dias.
As operações com ações giraram cerca de 30% dos ativos, de uma carteira
de R$ 50 milhões. Como resultado, a carteira da Previnorte está mais
pulverizada do que no ano passado. Até então, tinha 75% de sua carteira
de ações concentrada na primeira linha e papéis ligados aos setores em
privatização. Agora, essa concentração caiu para 60%.