Edição 24
O painel sobre o tema trouxe munição tanto aos defensores irrestritos do
mundo globalizado quanto aos partidários de controles à abertura de
mercado e à integração com os outros países
A globalização da economia é benéfica ou traz mais desigualdade social?
O painel sobre o tema, realizado durante o Congresso da Abrapp, trouxe
munição tanto aos defensores irrestritos do mundo globalizado quanto
aos partidários de controles à abertura de mercado e à integração com os
outros países.
Do lado dos inimigos da globalização, Hans-Peter Martin, jornalista com
doutorado em Ciência Política, apresentou dados para mostrar que “o
desenvolvimento econômico sem regras leva à desigualdade”, gerando
problemas sociais e reações políticas (surgimento de movimentos
nacionalistas).
De acordo com Martin, na Áustria, por exemplo, a cada ano 10 mil postos
de trabalho na indústria são eliminados. A previsão é de que a taxa de
desemprego alcance 8% em 1997, duas vezes mais de 1994.
Como principal razão para a queda nos postos de trabalho estaria a
globalização: alta tecnologia nas telecomunicações, transporte barato e
comércio livre sem limites, em que as empresas buscam se instalar em
países onde a mão-de-obra é barata. Ainda segundo ele, cresce a
competitividade mundial ao mesmo tempo em que o desemprego vai a
níveis estratosféricos e é desmontado o Estado de Bem-Estar social, para
conter déficits públicos.
Mas será que o Estado de Bem-Estar social está sendo mesmo
desmontado? Surgindo como contraponto a Martin, o economista José
Scheinckman, que se apresentou a seguir na mesa de debates, rebate
este e outros mitos que envolveriam a globalização.
Estatísticas apresentadas por ele indicam que, pelo contrário, há um
aumento constante dos gastos públicos no mundo. Nos Estados Unidos,
por exemplo, em 1937, o governo gastava 27% do PIB, em 1980, passou
a gastar 31,8% e em 1996, chegou a 33,3% do PIB.
Outro mito, segundo ele, é a afirmação de que a desigualdade salarial
está aumentando por culpa do comércio internacional. Scheinckman
revelou dados que mostram que o salário do trabalhador dos Estados
Unidos pouco qualificado caiu, até 1971, em relação ao do trabalhador
com nível superior. Mas não por culpa do comércio internacional.
“O aumento da desigualdade salarial pode ser atribuído às importações
apenas em 10%”. Outros aspectos, “como o desenvolvimento tecnológico
e condições próprias do mercado americano influíram bem mais nesse
crescimento”. E, por estudos mais recentes, essa desigualdade teria
parado de crescer. Já no Brasil, a lenta expansão do sistema educacional
seria responsável pelo crescimento da desigualdade salarial, colocando de
um lado uma população de pouca escolaridade e baixíssimos salários e
de outra uma faixa elitizada de alta escolaridade e altos salários.
Um terceiro mito que ele apresenta é de que as novas tecnologias estão
trazendo um aumento excessivo de produtividade, gerando desemprego.
Ele buscou desmontar essa afirmação ao mostrar que o crescimento da
produtividade nos países industrializados tem sido de apenas 2% ao ano
desde 1970.
Ao mesmo tempo em que desfaz esses mitos, Scheickman é um
entusiasta da maior integração do Brasil com os outros países. Para
ele, “a integração vai representar um aumento na transferência de idéias
e tecnologias desenvolvidas no exterior”.
Mas ressalta que, sozinha, a integração não resolve nossos problemas de
crescimento e má distribuição de riqueza. Defende as reformas, o
aumento dos investimentos de longo prazo e o redirecionamento dos
gastos públicos em educação.