Mais emissões no mercado | Segmento de crédito privado projeta ma...

Edição 223

 

Apesar do reinício do ciclo de aumento da taxa Selic a partir da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), realizada em janeiro, os gestores de recursos apontam que os fundos de pensão e institutos de previdência estão cada mais conscientes de que não dá mais para concentrar toda a carteira apenas em título públicos federais ou fundos DI. Além do aumento da exposição a renda variável, uma tendência que vem se consolidando é o crescimento das aplicações em fundos e papéis de crédito privado. O mercado de títulos privados passou por dificuldades com a crise de 2008, que trouxe consequências negativas ao segmento ainda no ano seguinte, mas em 2010 as emissões voltaram a movimentar a indústria de fundos.
A perspectiva é que em 2011 o mercado vá ganhando cada vez maior dinamismo com a diversificação e o aumento do volume de emissões, passando a oferecer melhores oportunidades de posicionamento dos investidores institucionais. A diversificação esperada pelos investidores passa pelo alongamento dos prazos, com taxas e benchmarks mais adequados ao cumprimento das metas atuariais das fundações e institutos de previdência. “Em 2010 houve uma transição para as carteiras que alocam recursos em crédito privado. Mantivemos a exposição, mas fomos trocando CDBs por debêntures, com a diversificação de setores como varejo e concessões”, diz Eduardo Castro, superintendente executivo de renda fixa do Santander.
O mercado em 2010 começou a oferecer oportunidades em debêntures de setores além dos tradicionais de telecomunicações e energia elétrica. “Em 2009 ainda havia reflexos no mercado de crédito privado, sobretudo com problemas de precificação. A saída foi direcionar os recursos para CDBs de um a dois anos de bancos de primeira linha”, explica o superintendente do Santander. À medida que esses CDBs foram vencendo em 2010, eram substituídos por debêntures. “Procuramos reduzir a concentração de papéis nos setores mais tradicionais, como telecomunicações e energia que, apesar de continuarem como as principais opções das carteiras, já dividem espaço com papéis de empresas de outras áreas com boas perspectivas”, aponta Castro. O executivo acredita que a tônica de 2011 será a ampliação desse processo de diversificação.
“Estamos vendo a entrada de empresas que não participavam do mercado anteriormente. Acredito que 2011 será um ano positivo para reforçar a tendência de emissões de empresas que podem estrear no mercado de crédito privado, de setores como construção civil e shoppings, além de concessões e varejo”, reforça. Outra tendência ressaltada pelo executivo é o aumento das emissões no exterior de empresas brasileiras, sobretudo dos bancos de porte médio. “Existe uma demanda crescente por ativos de empresas brasileiras no exterior e a tendência é que as emissões lá fora se multipliquem”, afirma.
Mais importante que a diversificação dos setores é o surgimento de maior quantidade de papéis com benchmarks adequados às metas das fundações e aos regimes próprios de previdência (RPPS). “As fundações e institutos tendem a desatrelar suas carteiras do CDI, tanto com papéis públicos quanto privados. Acredito que os emissores devem aproveitar cada vez mais essa demanda dos investidores institucionais para oferecer papéis indexados à inflação”, diz Sandra Petrovsky, superintendente de investimentos da Votorantim Asset Management. Ela informa que no ano passado já apareceu maior quantidade de títulos privados com taxas de inflação (IPCA) mais juros, mas que em 2011 o movimento deve se acentuar.
“É bom para os institucionais uma vez que garante o cumprimento de suas metas atuariais, realizando o casamento com o passivo, ao mesmo tempo que atende às necessidades das empresas”, diz a superintendente da Votorantim. A executiva explica ainda que outra tendência é o alongamento dos prazos dos títulos privados, movimento que também começou no ano passado e que tende a ser ampliado em 2011.
“Percebemos que os clientes private e institucionais estão procurando alongar os prazos, e isso também deve incentivar o aumento das emissões com tempo mais longo. Já em 2010 percebemos essa tendência com algumas emissões entre quatro e sete anos”, lembra Sandra.
Apesar das tendências de alongamento e do aumento da demanda pelos papéis, a superintendente da Votorantim não prevê a continuidade do fechamento de taxas dos títulos privados. “O novo ciclo de aumento da Selic deve ajudar a manter as taxas dos papéis privados em patamares ainda atraentes para as fundações e institutos de previdência”, prevê. Ela revela que o segredo será aliar uma criteriosa análise de crédito, não apenas em relação à capacidade de pagamento, mas também no que se refere ao retorno dos ativos.
“Estamos reforçando nossa tradição de análise de crédito corporativo. É fundamental avaliar bem a relação entre risco e retorno no crédito privado”, explica Sandra. Quanto ao desempenho dos fundos da Votorantim, a superintendente ressalta a rentabilidade do FII Institucional Renda Fixa, que alcançou 105,67% do CDI em 2010, fechando o ano com patrimônio líquido de R$ 441 milhões. A diversificação das emissões e das empresas participantes do mercado passam a exigir uma gestão cada vez mais ativa das principais assets que concorrem nesse segmento.
Arturo Profili, diretor de finanças estruturadas da Capitânia, endossa a tese de que, com a diversificação das emissões, o papel dos gestores vai se tornando cada vez mais complexo. “A gestão está ficando cada vez mais sofisticada, pois as emissões tendem a se multiplicar, principalmente as de menor porte, permitidas pela nova regulamentação da CVM”, diz. O diretor da asset se refere à instrução 476, que apesar de ser de 2009, começou a exercer efeito com o reaquecimento do mercado de crédito privado no ano passado. Ele explica que a nova norma permite a realização de emissões de papéis privados com valores menores e com menos tempo de aprovação, de um a três meses.
“O ritmo do mercado mais que dobrou. Se antes analisávamos uma ou duas emissões por mês, agora chegamos a avaliar duas ou três por semana”, calcula Profili. Por outro lado, essas emissões demandam uma análise mais criteriosa da qualidade creditícia, das garantias e das características das transações. Por isso, a gestão de renda fixa tende a exigir um trabalho mais especializado tanto das assets quanto dos institucionais.

Infraestrutura – Os gestores de fundos acreditam que as emissões para financiar os setores de infraestrutura devem oferecer oportunidades cada vez mais interessantes aos produtos voltados para os investidores institucionais. “Estamos aguardando um aumento das emissões de papéis para financiar as empresas que atuam nos setores de infraestrutura. Essas emissões devem ampliar as alternativas de títulos privados atrelados à inflação, que são bastante adequados ao cumprimento das metas atuariais das fundações”, indica Luiz Roberto Zaratin, superintendente executivo de renda fixa e multimercados da Bram.
Já em 2010 apareceram emissões desse tipo, geralmente ligadas ao setor de concessões de rodovias. “Em geral são emissões com baixo risco de crédito, com prazos mais longos, bastante confortáveis para os fundos de pensão e institutos de previdência”, detalha Zaratin. Apesar disso, o mercado ainda foi tímido em termos de emissões indexadas à inflação no ano passado, pois a maioria dos papéis ainda vinha atrelada ao CDI com prazos de até dois anos. “Acredito que ocorrerá um alongamento em 2011”, estima.
Zaratin prevê ainda que podem aparecer Letras Financeiras (LFs) de bancos de primeira linha com indexador de inflação mais juros. “Vamos ver até onde vão as medidas de restrição de crédito impostas pelo Banco Central. Como o custo do capital ficou mais apertado, existe a possibilidade de os bancos começarem a emitir LFs atreladas à inflação”, opina o superintendente da Bram.
A questão importante é a análise das taxas, que não raro podem variar entre 7,5% e 8,5% acima da inflação. “A demanda está aumentando por parte dos institucionais, pois os juros reais estão caindo. Apesar da conjuntura de aumento da Selic, os juros reais devem retomar a trajetória de queda e os institucionais já estão se posicionando para o novo momento”, diz Zaratin. Ele revela ainda que a Bram está ampliando o foco nos regimes próprios de previdência e que deve lançar em breve novos fundos voltados para esse tipo de cliente. “Com a nova resolução de investimentos dos regimes próprios, estamos preparando novos fundos de crédito privado para o segmento”, adianta o superintendente da Bram, em referência à resolução 3.922, que foi publicada em dezembro do ano passado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
O gerente nacional de investidores corporativos da Caixa Econômica Federal, Sérgio Henrique Bini, concorda com a previsão de que ocorrerá aumento das emissões para financiar as empresas dos setores ligados a infraestrutura. “O País tem uma forte necessidade de financiar obras de infraestrutura, e apenas os bancos e o BNDES não darão conta de cobrir a totalidade dos recursos”, observa. Por isso, as empresas devem recorrer cada vez mais às emissões de debêntures, ao mesmo tempo em que os próprios bancos, principalmente de pequeno e médio porte, vão ampliar as emissões de LFs Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGEs).
O mercado está trabalhando com uma previsão de aumento de pelo menos 20% nas emissões de papéis de crédito privado em 2011 na comparação com o ano anterior. Se depender do ritmo do começo de janeiro, o ano promete – o mês soma emissão de R$ 3,6 bilhões em ofertas concluídas ou anunciadas. Adicionados os R$ 660 milhões que estavam na fila desde o final do ano passado, o mercado de títulos privados começa o ano superando a marca de R$ 4,2 bilhões, o dobro dos R$ 2,1 bilhões registrados nos meses de janeiro e fevereiro de 2010. Uma novidade do começo de 2011 é a volta das emissões em notas promissórias, com prazo mais curto, de até um ano, que passaram em branco no ano passado.
“Qualquer previsão de taxa de expansão do mercado de crédito privado é um chute. Alguns falam em 20%, ou até um pouco mais, mas o que ninguém duvida é que vai crescer”, diz Sérgio Bini. O executivo da Caixa revela que a instituição aproveitou o aquecimento do mercado para lançar cinco novos fundos de crédito privado voltados para regimes próprios de previdência (leia mais no quadro). “São fundos voltados para os institutos de previdência que oferecem indexador atrelado à inflação e mais um prêmio, já adaptados à nova resolução de investimentos”, detalha o gerente nacional da Caixa. Para o decorrer do ano, o executivo da Caixa prevê o lançamento de novos produtos no segmento de crédito privado.
“Estamos atentos às oportunidades e devemos lançar novos fundos com debêntures, CDBs e Letras Financeiras, além de FIDCs e fundos imobiliários voltados para os clientes institucionais”, revela Bini.

Aumento da demanda – Os fundos de pensão e institutos de previdência estão demonstrando que possuem apetite para aplicar em fundos e papéis de crédito privado. “Aumentou muito a demanda por fundos com crédito privado. A principal vantagem para os institucionais ao investir nesses produtos é a alta liquidez aliada ao baixo risco”, diz Marcelo Marques Pacheco, gerente executivo da BB DTVM. Ele cita o exemplo do fundo BB Amplo, que começou o ano passado com patrimônio líquido de R$ 170 milhões e fechou o ano com R$ 560 milhões.
“Tivemos que nos esforçar para conseguir ativos para o fundo. A captação foi forte e constante durante o ano, e houve momentos em que ficamos abaixo dos 80% de crédito privado previstos pelo fundo por falta de papéis no mercado”, ilustra Pacheco. O fundo encerrou 2010 com uma rentabilidade de 102,5% do CDI, considerada boa para um produto com ativos de baixo risco de crédito. “A rentabilidade poderia até ter sido melhor, mas preferimos adotar uma postura mais conservadora para proteger os institutos de previdência”, explica o executivo.
Atualmente, a BB TVM é a maior gestora de fundos de renda fixa do mercado, com volume de recursos em R$ 118,9 bilhões, quase o dobro do segundo colocado, a Bram, com R$ 68,8 bilhões. Em seguida vem a Caixa, com R$ 62,3 bilhões, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais – Anbima (veja tabela).
Para o gerente da BB DTVM, o mercado deve continuar com forte dinâmica em 2011, ampliando as oportunidades para os investidores institucionais, apesar da conjuntura de subida de juros. “As fundações e institutos devem aumentar gradualmente a participação em crédito privado, em detrimento da dívida pública. Acredito que vão direcionar volumes cada vez maiores de recursos não apenas para esses fundos, como também para FIDCs e fundos imobiliários, além de operações estruturadas e de capital protegido, com ouro e petróleo”, prevê Pacheco.
Segundo o gerente da BB DTVM, o mercado terá condições de atender melhor a demanda dos institucionais quando as emissões para financiar os projetos de infraestrutura começarem a se multiplicar. “Os grandes eventos da Copa do Mundo e das Olimpíadas vão alavancar a quantidade de emissões de crédito privado, pois existe uma grande necessidade de financiamento para infraestrutura no País”, aponta.

Casamento com as metas atuariais Maior gestor de recursos de regimes próprios de previdência (RPPS), segundo dados do Top Asset, a Caixa aproveitou a mudança das regras de investimentos, com a publicação da Resolução CMN 3.922 em dezembro, para lançar uma família de fundos de crédito privado para esse tipo de cliente. Entre o final de dezembro e começo de janeiro, o gestor lançou cinco fundos de renda fixa (FI Caixa Brasil IPCA) compostos por DPGEs que totalizam patrimônio líquido de R$ 250 milhões. O principal atrativo dos fundos, cada um com PL ao redor de R$ 50 milhões, é a rentabilidade indexada ao IPCA mais juros. “O objetivo dos fundos é permitir uma aplicação que supere a meta atuarial dos regimes próprios com um prazo de pelo menos cinco anos”, explica Sérgio Henrique Bini, gerente nacional de investidores corporativos da Caixa Econômica Federal.
A estratégia do fundo é adquirir DPGEs que paguem IPCA mais 7,3% a 7,4% ao ano. Os papéis são emitidos por bancos pequenos e médios e contam com a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) até o limite de R$ 20 milhões. “Os papéis oferecem taxas adequadas, mais interessantes que os ativos de bancos tradicionais, e o risco é minimizado pela garantia do FGC”, diz o gerente nacional da Caixa. Os DPGEs foram criados no mercado após a crise de 2008 como forma de financiamento para bancos de menor porte e, por causa da garantia, também são chamados de “CDB com garantia”.
Com isso, a Caixa aproveita os novos limites definidos pela Resolução 3.922 do CMN, que abriu um novo segmento de até 5% de aplicações do patrimônio dos regimes próprios em fundos de crédito privado. “A demada foi bastante alta e já temos pré-acordo para completar toda a captação dos cinco fundos”, comemora Sérgio Bini. Outro limite definido pela resolução é que o investimento do RPPS não pode ser superior a 25% do patrimônio líquido do produto – ou seja, pode chegar até no máximo R$ 12,5 milhões em um fundo de R$ 50 milhões.
“Cada fundo tem um patrimônio líquido limitado, pois são poucos os bancos que estão emitindo papéis indexados ao IPCA”, revela o gerente nacional da Caixa. Ele prevê, no entanto, que a tendência é que as emissões atreladas à inflação se multipliquem ao longo do ano para atender à demanda dos institucionais. Quanto ao prazo, os cotistas não podem resgatar os recursos antes de cinco anos.
Além da indexação ao IPCA, os gestores esperam que apareçam emissões de prazo mais longo. “À medida que vão vencendo as carteiras de NTN-Bs dos institucionais, eles vão querer substituí-las por papéis de maior prazo.
O ideal é que surjam títulos privados indexados à inflação com prazos acima de sete anos”, diz Eduardo Castro, do Santander. Ele acredita que se as taxas forem atrativas, as fundações e institutos, além das assets, não pensarão duas vezes antes de colocar esses papéis em suas carteiras de renda fixa.