Serpros aumenta pressão | Fundação exige de gestores atuação mais...

Edição 204

A Fundação Serpros resolveu levar ao pé da letra o ditado que diz “quem não arrisca não petisca”. Apesar da aparente recuperação dos mercados nos últimos meses, a entidade percebeu que os próximos anos não serão marcados pela bonança que caracterizou o período de 2003 a 2007, com Bolsa e liquidez em alta. A previsão agora é de que a volatilidade dominará o cenário, que conta ainda com um agravante: juros em queda.
Pensando nisso, a fundação intensificou as pressões por resultados dos gestores, que terão de se esforçar para obter o chamado Alfa – ou seja, o bom desempenho independente do mercado.
Segundo Armando Frid, presidente da Serpros, com a inversão das taxas de juros, o gestor não poderá acomodar-se. “Se ficar só administrando letras do Tesouro não vai conseguir atingir nossas metas. Por isso, a pressão existe sim”, diz. A fundação tem uma política de liquidez garantida nos contratos. Portanto, se um gestor não tem um bom desempenho, poderá ser excluído. “Estamos agora em conversa com os nossos gestores. De forma que, com base no melhor desempenho, podemos fazer mudanças, tirar os ativos de um e jogar para o outro. É [a lei do] mercado”, completa.
De um lado, a fundação é pressionada pelos participantes, que querem o melhor investimento para os recursos do fundo, e de outro, as fundações pressionam os gestores. Analistas ouvidos por Investidor Institucional afirmam, no entanto, que a estratégia de mudar a gestão de seis em seis meses não é positiva. “Acaba sendo um tiro no pé, porque a fundação não dá tempo suficiente para o gestor mostrar o trabalho dele”, afirma Everaldo França, diretor da PPS Portfólio Performance. De qualquer forma, Lauro Araújo, diretor da consultoria de investimentos da Mercer, afirma que o Beta – ganhos seguindo o movimento de mercado – já não vai mais ocorrer. “Agora, o caminho é pressionar os gestores para gerar Alfa. Os fundos têm de confiar nessa capacidade dos gestores”, diz. Com patrimônio de R$ 2,2 bilhões, a Serpros conta com 86,4% do PL em Renda Fixa, sendo 7% dessa carteira terceirizada (R$ 155,1 milhões). Há 8,3% do patrimônio alocado em Renda Variável, o equivalente a R$ 183,3 milhões. A fundação tem investimentos em fundos multimercados abertos de Itaú, Bradesco e Unibanco, como resultado da terceirização recente da gestão, iniciada no final do ano passado. Frid lembra que a Serpros está na iminência de abrir uma consulta a mercado para também terceirizar a gestão de sua carteira de renda variável, hoje feita internamente. “Estamos criando um benchmark, um parâmetro, para compararmos nosso desempenho com o do mercado. O objetivo é sempre o resultado.” A Serpros ainda não decidiu se irá optar por um fundo exclusivo ou aberto no caso da RV. “Vai depender, porque temos uma carteira com algumas particularidades que deverão ser estudadas. Há ações que podem não interessar manter. Isso faz parte da negociação”, completa.

Rentabilidade – No ano, até abril, a rentabilidade do patrimônio da fundação atingiu 2,23%, sendo que a meta atuarial do período era de 0,69%. A Serpros tem a expectativa de atingir a meta este ano, de 6% mais inflação. “Estamos perseguindo. Da mesma forma que no ano passado conseguimos garantir pelo menos o patrimônio, e terminamos positivos, neste ano estamos perseguindo a meta e, mais do que isso, buscamos compensar a meta não atingida no ano passado”, salienta. A fundação encerrou 2008 com rentabilidade de 1%, só que a meta era de 11%. “Mudou muito o que almejamos em termos de rentabilidade do CDI.
Agora, 100% do CDI está longe da meta atuarial. Então, evidentemente, estamos chamando os gestores para renegociar nossos contratos”, diz.
Na opinião de Lauro Araújo, em declarações feitas durante o Congresso Mercer de Previdência, realizado em maio em São Paulo, os fundos devem refletir se o mercado do passado vai voltar a existir. “A resposta é não.
Não temos condições econômicas e políticas para ter um mercado igual ao período de 2002 a 2006”, disse. “O cenário é mais difícil porque haverá mais volatilidade e os juros permanecerão em queda. Agora, terão de buscar outras fontes de retorno. Haverá mais dificuldade em determinar as políticas de investimento”, completou. Segundo ele, daqui para frente, a gestão mais ativa vai ganhar espaço. “O fundo terá de dar mais liberdade ao gestor para identificar investimentos que vão ganhar mais.” Para Araújo, muitos gestores perderam no ano passado porque fizeram previsões em situações normais de mercado, sendo levados pela euforia pós-2002. “A gestão ativa será mais valorizada, porque, em momentos assim, os fundos querem garantir a segurança da carteira. (…) O Beta é responsabilidade da diretoria de investimentos da fundação, já o Alfa é responsabilidade do gestor”, concluiu.