Edição 196
A necessidade de diversificação das carteiras está levando os fundos de pensão a iniciar um processo de discussão e revisão das políticas de investimento para o ano que vem
Se por um lado as incertezas em relação ao comportamento do mercado trazem poucas mudanças às políticas que as fundações preparam para seus investimentos em 2009, por outro a necessidade de diversificação, a busca por janelas de oportunidade e a corrida atrás da meta atuarial colocam modificações pontuais sobre a mesa das discussões em torno de que rumo tomar no novo ano que se aproxima. Este mês de outubro é decisivo no que se refere às diretrizes que balizarão as aplicações dos fundos de pensão em 2009, e, segundo entidades ouvidas pela Investidor Institucional, o cenário não convida a grandes mudanças. O momento é de realização apenas de um ajuste fino, que vai desde o prolongamento dos vencimentos de títulos privados de crédito que podem ser comprados à consolidação dos Fundos de Investimento em Participações (FIPs) como integrantes importantes das carteiras.
Para não ficar de fora de uma nova janela de oportunidades de ganhos no ano que vem, a Supre – Fundação de Suplementação Previdenciária, patrocinada pela Sercomtel, pensa em reformular sua política de investimentos e dar mais flexibilidade ao limite e às regras para alocações em CDBs. “Estamos começando a trabalhar a nossa política de investimentos para 2009 e uma hipótese estudada é a ampliação dos limites para exposição em papéis privados, principalmente em CDBs”, conta Aguinaldo Moreira Cyrino, diretor financeiro da entidade.
O executivo explica que a iniciativa não quer dizer que a fundação necessariamente ampliará suas compras de CDBs no ano que vem, mas sim que, se os prêmios continuarem elevados, a entidade não deixará de ganhar por conta de barreiras impostas por sua própria política de investimentos. “É uma questão de estar apto a aproveitar a oportunidade.
Os prêmios pagos nos CDBs aumentaram muito e o limite colocado em nossa política não nos deixou ampliar as posições nestes papéis”, resume Cyrino. Hoje, a Supre conta com dois fundos exclusivos e, em cada um deles, a aplicação em CDBs pode ser de no máximo 20% do patrimônio líquido — sendo que há ainda um limite de 5% do PL para os papéis de um único emissor. O diretor da entidade conta que o possível aumento do limite ainda deve passar pelo comitê de investimentos e, entre as condições propostas, está a de compra somente de papéis de primeira linha. “A sugestão, em linhas gerais, é de ampliar o limite para exposição a papéis privados com rating AAA, valendo também para as debêntures.
Outra questão que levaremos à discussão é sobre o prazo de vencimento dos papéis que podemos comprar. Gostaríamos de alongá-los”, aponta Cyrino. No caso de CDBs, o prazo estipulado hoje é de no máximo um ano entre a aquisição e o vencimento dos papéis; para as debêntures, o prazo é de oito anos; e para os Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs), de quatro anos.
O consultor de investimentos da Mercer, Mário Amigo, afirma que o crédito privado está ganhando mais atenção das fundações não só em relação ao aumento deste tipo de investimento em suas carteiras, mas também no que se refere à qualidade dos papéis. “O mercado de crédito está sendo olhado com mais carinho, no sentido de se apurar melhor os emissores, de haver uma preocupação com os ratings das emissões, e não só de se abrir a alocação para o crédito”, comenta ele.
A Supre encerrou o mês de julho com patrimônio líquido total de R$ 100,864 milhões, com alocação de 12,36% em renda variável, 85,55% em renda fixa, 0,35% em imóveis e 1,74% em empréstimos aos participantes. Segundo Cyrino, os investimentos da fundação até julho apresentaram rendimento líquido de 6,35%, contra uma meta atuarial de 8,49%. Este, aliás, é outro ponto em discussão dentro da entidade. Hoje, a fundação tem a meta atuarial fixada em INPC+6%, e está pensando em reduzir para algo como INPC+5,5%. “Estamos aguardando o trabalho do atuário para depois definir a proposta com o conselho”, diz o executivo.
Abrindo o leque – Preocupada em diversificar suas aplicações para além de títulos públicos, crédito privado e ações, a Fundação Celos já preparou este ano seus aportes em Fundos de Investimento em Participações (FIPs). O que deve ser incluído na política de investimentos para 2009, a ser colocada em discussão neste mês de outubro, é apenas uma “formalização do aumento das posições da entidade em renda variável por meio da aquisição de cotas de FIPs”, de acordo com Sary Reny Köche Alves, diretor administrativo-financeiro da entidade. Ele explica que a fundação já ingressou, em 2008, em “oito ou nove” FIPs, mas será entre 2009 e 2011 que a maior parte dos recursos será aplicada nos fundos. “Já começamos a montar posições nos FIPs em 2008, porque nesse tipo de investimento é costume se fazer o compromisso de subscrição com bastante antecedência”, afirma o executivo.
Ele indica que os investimentos da Celos foram passando por diversas fases, desde 2003: primeiro a carteira era bastante concentrada em renda fixa, com alocações em títulos públicos; com o “fechamento da caixa” dos títulos públicos, vieram os aportes em crédito privado; o aumento do risco dessas operações fez a entidade voltar seus interesses para a Bolsa; e este ano, por conta da forte volatilidade do mercado acionário, chegou a vez dos FIPs. De acordo com dados referentes a 31 de agosto de 2008, o patrimônio da entidade soma R$ 2,022 bilhões e a carteira de investimentos está dividida da seguinte forma: 76,34% em renda fixa, 19,81% em renda variável, 2,32% em empréstimos a participantes e 1,53% em imóveis. No caso da renda variável, R$ 250 milhões estão em fundos de ações, R$ 56,8 milhões estão alocados em papéis da Celesc – Alves explica que se trata de uma posição estratégica para que o fundo de pensão tenha presença no conselho de administração de sua patrocinadora – e R$ 92,8 milhões estão nos FIPs. “Esse volume dos FIPs é o que já foi contabilizado, mas o montante tende a triplicar em 2009.
Isso é típico do comportamento destes fundos. O gestor vai prospectando investimentos, forma o pipeline, o comitê de investimentos decide as empresas que receberão os aportes e existe um cronograma para o pagamento a ser feito pelos investidores. Conforme o investimento vai sendo definido, os gestores vão passando para os investidores as cotas que devem ser integralizadas”, explica.
Em 2003, a entidade já havia feito experimentos em FIPs. A Celos ingressou em fundo destinado a aportes em energia elétrica, mais especificamente PCHs. De acordo com o executivo, a idéia inicial era voltar os recursos para a construção de PCHs em Santa Catarina mas, no fim das contas, receberam aportes cinco pequenas centrais hidrelétricas no Mato Grosso do Sul. “Todos os recursos estão aportados. No ano que vem começamos a inaugurar as unidades para depois dar início ao desinvestimento”, afirma. Entre os setores dos FIPs que receberão recursos da Celos estão energia, alimentos, imobiliário, infra-estrutura, inovação tecnológica e gestão – neste último caso, trata-se de um fundo que investe em diversas outras empresas, que vão desde os ramos de logística, indústria gráfica e não-tecidos até redes de supermercado, por exemplo.
“Além de serem um investimento de médio e longo prazo e estar mais relacionado à economia real, os FIPs apresentam taxas de retorno adequadas à necessidade da fundação”, justifica Alves. A meta atuarial da Celos está fixada em IGPM+6%. No acumulado do ano até 31 de agosto, a meta atuarial da fundação estava em 14,99%, contra um índice de correção patrimonial (ICP) de 11,51%. Nos primeiros seis meses do ano, no entanto, a meta estava em 9,34%, abaixo do ICP, de 10,09%. “No primeiro semestre deste ano, fechamos acima da meta, mas em julho, agosto e setembro estamos apanhando um pouco. Tudo isso por conta de todo esse problema na renda variável”, comenta o executivo, referindo-se às turbulências no mercado de ações.
Mesmo com toda a incerteza, as alocações da fundação em ações devem permanecer, porque, segundo Alves, a entidade conta com posições “muito boas, o mercado é que está volátil”. “Não vamos realizar posições, é preciso esperar uma estabilidade maior do mercado”, defende o executivo. A opção pela diversificação dos investimentos via participações também partiu, parte, do fato de a fundação já ter bem perto de 20% de sua carteira alocada em ações. O diretor da Celos conta que a fundação faz o ALM todos os anos e, a cada seis meses, uma revisão é realizada. “No final do ano passado, vimos que já estávamos posicionados em ações no limite indicado pelo ALM. Pensamos qual seria então o caminho, e foi assim que o mercado de FIPs bateu à nossa porta”, conta.
E de onde virão os recursos que migrarão para aplicações em FIPs? Alves explica que serão provenientes dos rendimentos dos aportes em renda fixa. “A rentabilidade da renda fixa gera um fluxo que será responsável por integralizar, aos poucos, nossos investimentos nos fundos de participações”, resume.
Perfis, benchmarks e 3% – Entre os assuntos levantados e estudados pelos fundos de pensão também estão a adoção de perfis de investimento e de benchmarks mais adequados, de acordo com Mário Amigo, consultor da Mercer. “Nos planos de Contribuição Definida, a implementação de planos multiportfólio tem sido cada vez mais discutida, principalmente no caso daqueles em que existe uma única estratégia para participantes com perfis diferentes”, afirma ele. Em relação aos benchmarks, as dúvidas são em relação a qual é o mais indicado para balizar os investimentos de longo prazo das fundações, porque muitos deles podem apresentar descolamentos ou distorções em relação ao comportamento do mercado por conta de questões pontuais – como o efeito da disparada das commodities sobre o valor das bluechips no início do ano, por exemplo. Além disso, segundo o consultor, a adoção de benchmarks híbridos também está em pauta.
Já em relação aos multimercados, parece que ainda não é desta vez que os chamados não-institucionais, enquadrados no limite de 3% dos recursos garantidores das fundações segundo a Resolução nº 3.456 do Conselho Monetário Nacional (CMN), vão decolar. De acordo com Amigo, estes fundos estão em pauta desde o ano passado, mas existe um receio em relação à categoria. “As fundações esperam um amadurecimento maior deste mercado, para inclusive entenderem melhor o conceito. Estão analisando, mas não temos recebido solicitações de estudos específicos sobre o ingresso nesses fundos”, diz o consultor. As fundações engrossam o coro. “Os resultados destes fundos não estão satisfatórios. O horizonte é muito incerto”, diz Alves, da Celos. “Nossa política já permite o investimento nestes multimercados, mas ainda não utilizamos. O ano está complicado”, completa Cyrino, da Supre. Vamos ver como será em 2009.
Promon separa políticas e ativos dos planos CD e BD O ano que vem será o primeiro exercício completo em que os planos de Benefício Definido (BD) e de Contribuição Definida (CD) da Fundação Promon terão políticas de investimento distintas. Em 1º de julho de 2008, a entidade promoveu a segregação dos ativos entre os dois planos e, desde então, vem adotando políticas diferentes estabelecidas no ano passado para cada um deles. Mario Ribeiro, diretor da Fundação Promon, conta que a idéia de adotar políticas diferentes para os planos nasceu quando o CD foi criado, em julho de 2005, uma vez que os participantes de cada um dos planos têm perfis e expectativas diferentes.
“Esperamos o CD ganhar músculo e, no aniversário de três anos do plano, fizemos uma separação longitudinal dos ativos”, diz o executivo. Antes disso, era feita apenas uma segregação virtual e, apesar de cada plano ter sua política, as duas eram iguais. Após a separação efetiva, a fundação encontra-se agora em fase de realocação dos ativos do plano CD. Uma mudança já feita foi a saída dos imóveis do plano. “Depois da segregação, o plano CD vendeu a parte que lhe coube na carteira de imóveis ao BD”, explica Ribeiro. Entre as diferenças dos planos está o objetivo de que 100% dos ativos do plano CD sejam marcados a mercado, enquanto o plano BD conta com uma carteira de títulos públicos marcados na curva, utilizada para hedge atuarial; e uma exposição um pouco maior do CD ao risco. Exemplo disso é que a fundação pretende utilizar o limite de 3% dos recursos para alocações em fundos multimercados não- institucionais, segundo regra definida pela Resolução nº 3.456 do Conselho Monetário Nacional (CMN). “No caso do CD, a idéia é usar estes 3% por completo. Já no BD, até podemos fazer alguma alocação nos multimercados não-institucionais, mas vai ser mais devagar, e em percentuais menores”, afirma. Esta intenção, no entanto, ainda está no campo das idéias, porque a entidade não conta com investimentos nestes multimercados – apenas “andou olhando” alguns fundos, mas não realizou aplicações.
Ainda em relação à renda variável, estima-se que o plano CD venha a ter um limite maior para alocações do que o BD. Em 31 de agosto deste ano, o plano BD somava recursos garantidores de R$ R$ 622,1 milhões (80,4% em renda fixa, 15,7% em renda variável, 3,1% em imóveis e 0,8% em empréstimos aos participantes), enquanto o CD contava com R$ 103,8 milhões – 71,3% em renda fixa, 13,7% em renda variável e 15% em empréstimos aos participantes.
Por fim, segundo Ribeiro, o plano BD poderá assumir um pouco mais de risco de crédito nos investimentos. Outra idéia da fundação é de ingressar ou montar um fundo exclusivo com benchmark híbrido – parte em Selic e parte em IMA. “Podemos entrar em um fundo aberto ou, dependendo da musculatura do plano CD, montar um fundo nosso. Também não descartamos que o BD entre nesse fundo, para termos um exclusivo”, comenta Ribeiro. A entidade também estuda sua estréia em Fundos de Investimento em Participações (FIPs), mas, neste caso, somente em relação ao plano BD. “Talvez incluamos os aportes em private equity no plano BD. Faz mais sentido, para nós, porque é complicado marcar estes investimentos a mercado”, explica o executivo.