Este ano não tem mais jeito

Edição 195

Cenário de incerteza nas bolsas mundiais e na inflação empurra fundos
para longe da meta atuarial pela primeira vez desde 2002, ano em que
eleição de Lula era temida pelos mercados

Após pelo menos cinco exercícios consecutivos de balanços superavitários,
chegou a hora das fundações encararem de frente o fantasma de fechar o
ano com rentabilidade abaixo da meta atuarial. “A gordura é acumulada
justamente para ser queimada”, diz José de Souza Mendonça, presidente
da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência
Complementar (Abrapp). Dados da entidade dão conta de que os seus
263 sócios obtiveram, em média, uma rentabilidade de 4,71% em seus
investimentos no primeiro semestre deste ano, contra uma meta atuarial
de 7,35% no período, com base no INPC+6%. É a primeira vez desde
2002 (ano em que as expectativas em relação à eleição do presidente
Lula abalaram o mercado) que os fundos de pensão ficam assim tão
longe de seus objetivos. Apenas para se ter uma idéia, de acordo com os
dados da Abrapp, em 2007 a rentabilidade média dos fundos de pensão
ficou em 25,88%, diante de um INPC+6% de 11,47% para o período (veja
quadro).
“A situação está feia”, diz Lauro Araújo, diretor da consultoria de
investimentos da Mercer. Segundo ele, os clientes da consultoria têm em
média 20% das alocações de recursos em Bolsa e o desempenho ruim do
mercado acabou comprometendo a rentabilidade total. As altas da inflação
acima do esperado também trouxeram mais dificuldades para as
fundações, uma vez que a Mercer atende a dois grupos de entidades: um,
que tem uma parcela de seus investimentos em títulos indexados à
inflação (as NTNs longas) e sofre um pouco menos, e outro que não tem
investimentos atrelados a índices de preços – para este último grupo,
segundo Araújo, a situação é ainda mais difícil. “Outro ponto é que os
gestores apresentaram performances ruins no primeiro semestre. Só 18%
dos nossos clientes bateram seus benchmarks. A gestão de recursos foi
complicada também em renda fixa, com a curva de juros volátil trazendo
oscilação aos títulos pré-fixados, que flutuaram muito. E vários gestores
tomaram a posição errada nestes títulos”, explica.
Raphael Santoro, consultor da Towers Perrin, também destaca o impacto
negativo que os títulos pré-fixados exerceram na rentabilidade das
carteiras de renda fixa das fundações nos primeiros seis meses de
2008. “Os títulos pré-fixados sofreram bastante no primeiro semestre e as
fundações costumam ter de 20% a 40% das carteiras nestes papéis. O
IRF-M (Índice de Renda Fixa de Mercado) mostrou uma rentabilidade de
3,39% nos primeiros seis meses do ano, ficando abaixo do CDI (5,39%) e
do IGP-M puro (6,82%)”, aponta ele.
No caso da Fundação Real Grandeza, no entanto, a situação é diferente.
Ao alongar boa parte de sua carteira de títulos públicos, a entidade
conquistou rentabilidade de 7,74% em seus investimentos de renda fixa
referentes ao plano de Benefício Definido, taxa superior ao seu
benchmark, o IMA, que bateu 5,05% no primeiro semestre deste ano. De
acordo com Sérgio Wilson Fontes, presidente da fundação, 43% dos títulos
públicos que a entidade tem em carteira são longos, contra uma média de
10% do mercado em geral. Ele acrescenta que a vantagem do
alongamento é que houve um casamento entre o passivo de longo prazo
e o ativo, gerando liquidez e solvência, e, além disso, em meio às
recentes altas da Selic as taxas dos títulos longos não caíram tanto
quanto as dos curtos, porque o consenso do mercado é de tendência de
queda do juro básico mais para a frente.
“Se tivéssemos todos os nossos investimentos só em renda fixa teríamos
ultrapassado a meta atuarial de janeiro a junho de 2008”, conta Fontes. A
meta do plano BD da Real Grandeza está baseada em INPC+6%. O plano,
no entanto, teve rentabilidade de 6,14% no período, muito por conta do
fraco desempenho da Bolsa. “O retorno da renda variável no nosso plano
BD foi de 0,63% no primeiro semestre. Mesmo assim, está acima do
nosso benchmark, o IBrX-50 (que teve retorno de 0,41% no período)”, diz
o executivo.
O fato é que a fundação já consumiu recursos de sua reserva para pagar
benefícios este ano. “Nós acumulamos um superávit na casa de R$ 1,5
bilhão até março deste ano. Em maio, chegou a R$ 1,6 bilhão, mas
encerramos junho com R$ 1,47 bilhão. Ou seja, já tive que queimar um
pouco de gordura. E terei de gastar mais uma parte disso até o final do
ano”, indica Fontes. Ele sinaliza que, mantida a expectativa de uma Selic
de 15% ao ano no final de 2008, a Bolsa teria de bater os 70 mil pontos
para que a meta atuarial fosse atingida. “Por isso, a chance maior é de
não atingirmos a meta do BD”, aponta o presidente da entidade.

Sem esperanças – O não cumprimento da meta atuarial não é uma
condição exclusiva da Real Grandeza. Pelo contrário. Santoro, da Towers,
afirma que a Bolsa ainda vem muito volátil neste segundo semestre e é
difícil que ela traga um resultado fortemente positivo a ponto de salvar o
ano. Além disso, a inflação, apesar de já estar dando sinais de que vem
mais baixa, ainda está sob forte pressão. “Vai ser preciso usar gordura
acumulada para arcar com as responsabilidades nos planos de Benefício
Definido”, reforça o analista. “As fundações já estão consumindo parte dos
ganhos acumulados em outros exercícios. Pelo menos de 2004 em diante,
praticamente todos os nossos clientes bateram as metas atuariais todos
os anos. Nenhum ano tinha sido tão complicado como este desde então.
Seguindo as tendências atuais, mais de 50% dos nossos clientes não vão
bater a meta atuarial em 2008”, completa Araújo, da Mercer.
Na Fundação Cosipa de Seguridade Social (Femco), é quase certo que
parte das reservas terá de ser utilizada para o pagamento de
compromissos em 2008. De acordo com Luiz Hisao, diretor financeiro da
entidade, o plano BD da Femco (fechado desde o ano 2000 para novos
participantes) acumulou rentabilidade de 6,6% de janeiro a junho deste
ano, abaixo da meta estabelecida em INPC+6%. “A Bolsa vem caindo
muito e o cenário está bastante volátil. Provavelmente não vamos bater a
meta atuarial e teremos que utilizar parte das reservas este ano”, indica
ele.
Hisao destaca, no entanto, que a Femco aproveitou oportunidades de
alocações em renda fixa no primeiro semestre deste ano com o aumento
dos prêmios pagos nos CDBs. “Vendemos imóveis e, com os recursos que
entraram, foram feitas posições em CDBs. A remuneração destes papéis
melhorou consideravelmente este ano. Até os bancos de primeira linha
aumentaram os prêmios. No caso do plano BD, temos 23% da carteira
nestes títulos”, indica Hisao. O plano BD da fundação encerrou junho com
patrimônio de R$ 1 bilhão aproximadamente. O executivo reforça que,
mesmo assim, em 2008 tem sido bem mais difícil atingir retornos altos
nos investimentos. “Tranqüilamente posso dizer que nos últimos quatro
anos não tivemos problemas para atingir a meta atuarial no plano BD,
mas 2008 está mais complicado”, afirma ele.

Zero a zero – A maioria dos planos da Fundação Itaubanco está “atingindo
a meta sem extrapolar”, de acordo com Reginaldo Camilo, diretor-gerente
da entidade. “No ano passado fechamos bem acima, mas para 2008
considero que vamos conseguir atingir a meta batendo algo entre 0,5
ponto para cima ou para baixo”, estima o executivo. O conservadorismo
tanto na carteira de renda fixa, que responde por mais de 70% dos
investimentos da fundação, quanto na de renda variável, na qual não são
feitas grandes mudanças, é o comportamento que Camilo aponta como
favorável para se conseguir bater metas mesmo em um cenário adverso
de inflação em alta e forte oscilação na Bolsa.
A tendência, de acordo com o executivo, é de não mexer na proporção
entre renda fixa e variável na carteira, pelo menos por enquanto. Os
recursos garantidores da Fundação Itaubanco somavam R$ 9,65 bilhões
em 30 de junho deste ano, dos quais 20% estavam alocados em renda
variável, em torno de 7% ou 8% em imóveis e, o restante, em renda
fixa. “Se nós fomos bastante prudentes durante a alta da Bolsa, seremos
mais conservadores ainda agora”, comenta Camilo. Segundo ele, a
entidade conta com uma estratégia montada há cerca de quatro ou cinco
anos para estruturação da carteira, utilizando um ALM e um alongamento
dos ativos adequados ao passivo. “E é a estrutura da nossa carteira que
resulta nessa relativa tranqüilidade. Sofremos um pouco em renda
variável por conta das oscilações da Bolsa, mas isso foi compensado pelo
bom equilíbrio que temos em renda fixa”, assinala.
Camilo afirma que a Fundação Itaubanco não terá de utilizar sobras
acumuladas em anos anteriores para pagar benefícios em 2008. No
entanto, o executivo assume que o resultado deste exercício também não
engordará as reservas da fundação. “Nosso resultado neste exercício
estará perto do equilíbrio, da linha d’água. Devemos manter o mesmo
superávit acumulado do ano passado, havendo apenas uma redução no
percentual em relação ao passivo atuarial. Fechamos 2007 com um
superávit próximo de R$ 1 bilhão, equivalente a 14% do passivo. Como o
passivo aumenta e o superávit acumulado tende a permanecer o mesmo,
esse percentual hoje deve estar em 13%”, indica Camilo.

Luz no fim do túnel – Se olhando apenas para 2008 o cenário não é muito
positivo, o desempenho das fundações nos últimos anos e a tendência de
médio e longo prazo são mais animadores. “Se olharmos os últimos 24
meses encerrados em junho deste ano, podemos ver que as fundações
conseguiram bater suas metas, superando em 15 pontos percentuais o
INPC+5%”, exemplifica Santoro, da Towers. “O cenário para o segundo
semestre é preocupante, mas no médio e longo prazo estamos otimistas.
Acredito que este comportamento do mercado seja uma fase, porque o
País vai bem”, reforça Araújo, da Mercer.
Ele ressalta, ainda, que um momento como o vivido hoje pelo mercado
também pode se configurar em uma janela de oportunidades para os
investidores. Segundo Araújo, esta pode ser uma fase que vai ajudar as
fundações a montar estratégias de longo prazo, porque é nas horas de
crise que também surgem oportunidades no mercado.

Mudanças à vista na Odeprev
Em meados de outubro, o conselho deliberativo da Odeprev – Odebrecht
Previdência deve avaliar uma série de mudanças na política de
investimentos e nos parâmetros de rentabilidade da fundação. De acordo
com Paulo Tolentino, diretor superintendente da entidade, a Odeprev
conta hoje com uma previsão atuarial de IPC-Fipe+6%, mas este
parâmetro deve ser substituído por um índice “mais conservador” – ou
seja, que exija um rendimento menor da carteira.
“Provavelmente esta previsão atuarial será revista para baixo. Nós
constatamos que, apesar de hoje em dia haver oportunidades no
mercado, no longo prazo este parâmetro utilizado atualmente se torna
impossível de cumprir”, afirma o executivo. De acordo com dados da
fundação, no acumulado dos seis primeiros meses de 2008 o retorno dos
investimentos da entidade ficou em 4,17%, contra uma previsão atuarial
de 6,87% no mesmo período. A mudança está sendo estudada pela
entidade com a ajuda da RiskOffice.
Além do novo parâmetro de rendimento, está sendo levantada também
uma possível reformulação da política de investimentos da Odeprev. Hoje
em dia, as alocações da fundação estão distribuídas da seguinte forma:
10% em renda variável, 5% em multimercados adequados à Resolução
3.121 do Conselho Monetário Nacional (CMN) e o restante (85%) em
renda fixa. Em 30 de junho deste ano, os recursos da entidade somavam
R$ 468 milhões. “Estamos há 17 anos com a mesma política de
investimentos e os prêmios pagos nos títulos públicos diminuíram
bastante recentemente. Ficou mais difícil e desafiador alcançar a previsão
de rentabilidade”, justifica Tolentino. As mudanças podem entrar em vigor
ainda este ano, valendo já para o último trimestre de 2008.
Entre as alternativas estudadas, está a aplicação em ativos de mais longo
prazo na renda fixa, que paguem prêmios maiores e estejam mais
adequados aos prazos da carteira de benefícios da entidade. Outra idéia é
melhorar a performance em crédito privado, “olhando de forma mais
focada”. Hoje a entidade trabalha apenas com carteiras abertas e a
intenção é ou criar uma carteira própria dedicada ao segmento ou investir
em carteiras abertas mas bastante focadas neste tipo de ativo.
Atualmente, 20% do total dos recursos da fundação está em crédito
privado. Outra questão levantada é também a de selecionar melhor os
veículos e os tomadores de crédito, com base em um critério mais
adequado ao perfil de investimentos da fundação. Na renda variável, o
objetivo é começar a investir nos multimercados enquadrados no limite de
3% dos recursos garantidores das entidades segundo a Resolução 3.456
do CMN. A fundação ainda não faz uso deste percentual e a idéia é
começar a utilizá-lo a partir desta reestruturação dos investimentos. “Isso
não vai fazer muita diferença em termos de comportamento da carteira
porque 3% é muito pouco, mas vamos começar a usar para entender as
oportunidades e como funcionam esses ativos”, afirma o superintendente
da Odeprev. Outra novidade é que, como é possível que a fundação passe
a ter uma parte dos investimentos em carteira própria, há a chance de
que a nova política de investimentos trate também da contratação de um
agente custodiante. “Hoje, como todos os fundos nos quais investimos
são abertos, é o gestor destes fundos que escolhe o responsável pela
custódia”, explica Tolentino.