Western de cara nova

Edição 191

Maior asset independente no País está de mudança para uma nova sede,
onde ficará integrada às unidades internacionais, passando a oferecer
soluções mais sofisticadas de investimento

Da sua sala de trabalho, Robert Apelfeld tem uma visão privilegiada do
tradicional bairro paulista do Brooklin Novo, com suas casas de classe
média e muito verde ainda predominando em relação aos poucos prédios
de escritório da região. A Hípica, um arborizado clube de equitação, fica a
apenas três quarteirões do escritório da Western/Legg Mason, localizado
no 5° andar de um edifício da Av. Luis Carlos Berrini, de onde Apelfeld
comanda uma equipe de 90 pessoas responsáveis por R$ 26 bilhões sob
gestão. O cenário bucólico, no entanto, em breve deve deixar de fazer
parte da vida da Western/Legg Mason.
Até setembro, a asset estará se mudando para um novo endereço, na
movimentada esquina das avenidas Faria Lima com Juscelino Kubitschek,
num prédio que deve ser inaugurado em agosto. Num espaço mais
amplo, mais moderno e mais adequado aos seus planos de crescimento,
a maior gestora independente de recursos de terceiros com operações no
País pretende implementar sistemas totalmente integrados às suas
principais unidades no mundo, passando a oferecer aos investidores locais
os mesmos instrumentos de análise e controle de riscos já disponíveis aos
investidores externos. “O Brasil está entrando em uma nova fase da
gestão de recursos de terceiros, hoje o mercado brasileiro está muito mais
imerso no mercado global”, diz Apelfeld. “Nossos sistemas, na nova sede,
irão refletir essa realidade”.
Por trás dessas mudanças há uma aposta clara da direção internacional do
grupo de que as atividades no Brasil estão se sofisticando e exigindo
maior integração e globalização na área de gestão de ativos. No ano
passado, a gestora local recebeu nada menos de 25 visitas de executivos
internacionais do grupo, interessados em conhecer de perto as mudanças
da economia brasileira e as perspectivas que se abririam com o
investment grade, desde o ano passado no radar da direção global da
asset. Neste ano, até meados de abril, já aconteceram 10 visitas. “Tem
sido até difícil encontrar vôos, tão grande é o interesse deles em visitar o
Brasil”, conta Apelfeld.
O interesse deles está focado principalmente nas operações de renda fixa,
que representam 90% dos mandatos da asset no Brasil, embora sejam os
10% de renda variável que gerem as melhores taxas. Até alguns anos
atrás, falar em renda fixa era falar basicamente em fundos DI, uma vez
que os investidores locais contavam com o apetite do governo em tomar
recursos do mercado a taxas de juros extremamente generosas. Para os
institucionais, isso significava bater a meta atuarial com facilidade. Para a
asset, devido à commoditização do produto, representava taxas de
administração muito baixas. Ainda não mudou, mas de algum tempo para
cá esse cenário tem dado sinais de mudança e é nisso que aposta a
Western/Legg Mason. Segundo Apelfeld, do total de mandatos em renda
fixa cerca da metade já usam o IMA como benchmark atualmente, contra
pouco menos de 20% há uma ano. Além disso, muitas fundações estão
buscando outros benchmarks para fundos indexados à inflação. A busca
por fundos com crédito privado também está em alta. “Daqui para a
frente, o mercado de renda fixa irá se sofisticar cada vez mais, novos
benchmarks serão demandados e o segmento de títulos privados vai se
impor”, avalia Apelfeld.
É aí que entra a importância da nova sede do grupo, estruturada para
contar com sistemas que permitirão aos gestores analisar minuciosamente
o mercado de créditos corporativos, assim como as curvas dos títulos do
Tesouro, dos títulos privados e também dos títulos hipotecários, uma
modalidade que deve se desenvolver daqui para a frente. Para Apelfeld,
será importante acompanhar a liquidez dos títulos corporativos ao longo
da sua duração, assim como fazer a rotação entre setores para dar aos
fundos de crédito privado maior ou menor dose de agressividade, de
acordo com o apetite do investidor. Os novos sistemas também
pesquisarão e selecionarão os melhores títulos do mercado, dentro das
condições adequadas às carteiras, para otimizar sua performance. “Isso
tudo já é feito lá fora, onde existe um mercado mais maduro de títulos
corporativos, e com os novos sistemas vamos poder fazer também aqui”,
diz o executivo. “Os sistemas darão a base para nosso trabalho de
pesquisa com os títulos privados”.
A equipe brasileira já está se familiarizando há algum tempo com essas
novas ferramentas de análise de crédito corporativo e de controle de risco
que começam a ser implementadas. Desde o começo do ano convivem
com a presença do norte-americano Vernon Budinger, um especialista no
assunto e que já fala razoavelmente o português. Ele trabalha na Western
dos Estados Unidos há 10 anos e veio para o Brasil para ajudar a equipe
brasileira a operar no novo ambiente. “Ele é um craque, é uma das
pessoas mais seniores nessa área de operações com renda fixa”, elogia
Apelfeld. De acordo com ele, as mudanças de foco dos fundos de renda
fixa, passando de DI para fundos mais sofisticados, deve representar no
médio prazo também uma evolução das taxas de
administração. “Acreditamos que a era do curtoprazismo acabou. Agora é
preciso ter produtos especializados para atuar na renda fixa”.
Para o consultor Marcelo Rabbat, do escritório Risk Office, a avaliação de
Apelfeld está correta. “As assets vão ser obrigadas a sofisticar a sua
prateleira de renda fixa”, diz Rabbat. Segundo ele, isso não será uma
transição simples, até porque muitas delas não contam com
especialização nessa área e tem pouca vivência com crédito privado. Na
sua opinião, elas terão que precificar melhor e constantemente os títulos
das suas carteiras, além diversificá-las incluindo papéis de várias
empresas e setores. O objetivo é evitar a concentração do risco. “Não dá
para entrar em risco de crédito sem diversificar, pois o risco não é
proporcional”, diz. “Concentrado, se tudo der certo você ganha 105% do
CDI, mas se der errado você perde tudo”.

Mais atrativo – Segundo Apelfeld, as perdas que muitos investidores
tiveram nas carteiras com títulos sub-prime nos Estados Unidos, de
alguma forma podem até ajudar o Brasil que já tinha alcançado um status
de mercado atrativo mesmo antes do investment grade. Agora, com essa
nota, o interesse aumenta. “Os retornos dos investimentos no Brasil
podem ser maiores do que lá fora, mesmo sem usar alavancagem ou
aquelas estruturas de crédito dos sub-primes”, analisa. “Hoje, entre os
mercados emergentes, o Brasil é um dos mais atrativos, se não o mais
atrativo, do ponto de vista dos investidores”.
Isso consolida uma expectativa de que as carteiras locais devem começar
um processo de globalização. Apenas para comparar, Apelfeld lembra que
do total de recursos administrados pela asset da Western em Londres
apenas 20% são de clientes do Reino Unido. Nada menos de 80% são de
clientes internacionais. No Brasil, 100% dos recursos administrados pela
Western são de clientes locais, o que deve começar a evoluir para ter uma
pequena participação de clientes internacionais num primeiro momento. “E
também o contrário, queremos ter clientes locais aplicando lá fora é nisso
que o grupo aposta”, diz.
Hoje, o foco da asset está dividido entre pessoas físicas de alta renda,
que tem aumentando muito no Brasil, e clientes institucionais. Dos 157
fundos na prateleira do Western/Legg Mason nada menos de 80 são
voltados para os institucionais. “O segmento de institucionais está no
nosso DNA, sempre atendemos a esse tipo de cliente”, diz Apelfeld. No
ano passado a asset ganhou R$ 800 milhões em mandatos de
institucionais, de 10 novos fundos de pensão, e neste momento está
participando de 10 concorrências em fundações.

Pelo jornal – Há cerca de 3 anos, quando os jornais publicaram a notícia do
que a asset do Citi estava sendo comprada pela Western/Legg Mason,
muitos institucionais ficaram preocupados. Nunca tinham ouvido falar no
nome da casa compradora. “Senti, naquele momento, que muitos
estavam céticos quando a esse processo. Mas eu, pessoalmente, fiquei
tranquilo”.
Apelfeld conta que soube da notícia como todas as outras pessoas,
através dos jornais, “Um belo dia, ao ler os jornais, eu vi que nossa asset
estava sendo comprada pela Western/Legg Mason. Vim para cá sem saber
detalhes da operação, mas não senti nenhum medo, nenhum frio na
barriga. Eu conhecia a casa compradora, sabia das suas qualidades”,
relembra. Poucos dias depois ele recebeu a ligação de Jim Hirschmann,
CEO da Western, dizendo que conheciam a operação no Brasil e nada iria
mudar por aqui. Apelfeld repassou imediatamente a notícia à sua equipe,
que aguardava ansiosa por detalhes da operação.
Entre o momento em que a operação foi anunciada pelos jornais e sua
efetiva aprovação foram 6 meses, durante os quais as pessoas tiveram
que explicar ao mercado que nada mudaria, apenas o nome. Saía o
conhecido nome do Citi para começar a ser pronunciado o novo nome da
Wester/Legg Mason. Agora, com a mudança da sede, o último vínculo que
ligava a asset ao antigo Citi está deixando de existir. Segundo Apelfeld, a
nova sede será totalmente montada respeitando-se conceitos que
priorizam o que é ecologicamente correto, como já fazem as outras
unidades do grupo lá fora. Os materiais usados terão que ser certificados
do ponto de vista ambiental, o consumo de água e energia serão mais
eficientes e as emissões de poluentes serão eliminadas onde possível ou
muito baixas quando indispensáveis. Por causa dessa preocupação, a
mudança da Wester/Legg Mason só acontecerá em setembro embora o
prédio novo seja inaugurado em agosto. “É o tempo para fazer as
adaptações necessárias”, diz Apelfeld. “Para nós, isso não é um detalhe,
mas uma opção”.