Edição 186
Às voltas com rumores de que seria vendida, a NY Mellon local dá o troco
e adquire a gestora carioca Arx Capital, inaugurando uma nova tendência:
a compra de assets de menor porte
A Mellon, que já chegou a ser vista como caça pelo mercado, assumiu de
vez a postura de caçadora. Depois de ter convivido em 2004, por quase
um ano, com o boato nunca confirmado de que sua área de administração
fiduciária tinha sido vendida ao Itaú, a empresa começou a dar o troco ao
final do ano passado com o anúncio de que havia comprado a participação
de 30% que a Brascan detinha em seu capital. Mais ou menos na mesma
época a empresa era fortalecida pela fusão internacional com o Bank of
New York, passando a adotar o nome de NY Mellon.
Agora, ao final da primeira quinzena de novembro, a equipe local da NY
Mellon mostrou mais uma vez que está com apetite. Anunciou a aquisição
da Arx Capital, uma gestora de recursos de terceiros independente, que
tinha cerca de R$ 4,7 bilhões sob gestão. Somados aos R$ 3,5 bilhões
administrados pela NY Mellon localmente, a nova casa passa a contar com
uma carteira de R$ 8,2 bilhões em recursos de terceiros.
“Acho que foi um casamento perfeito”, analisa o diretor da empresa de
consultoria de investimentos PPS, Everaldo França. Segundo ele, enquanto
a NY Mellon tinha expertise em fundos multimercados a Arx era uma das
mais respeitadas casas de gestão de fundos de renda variável. Enquanto
a NY Mellon era uma asset mais voltada a clientes institucionais, a Arx
tinha seu foco em family offices e distribuidores. Além disso, a NY Mellon
contava com uma equipe comercial bem estruturada para oferecer os seus
produtos ao mercado, ao contrário da Arx que tinha uma equipe reduzida.
“Acreditamos que poderemos juntar os talentos de cada equipe para fazer
uma asset mais completa, capaz de oferecer soluções adequadas a um
conjunto maior de clientes”, afirma José Alberto Tovar, um dos sócios da
Arx e que agora assume o posto de principal executivo da NY Mellon.
Segundo ele, a negociação com a NY Mellon começou há cinco meses,
depois de anos de relacionamento comercial entre as duas, uma vez que
a Mellon já era a administradora fiduciária dos fundos da Arx. Ele não
conta os valores envolvidos no negócio, mas analistas do mercado
acreditam que pode ter ficado entre R$ 200 a R$ 300 milhões. Tovar criou
a Arx em 2001, junto com o Carlos Eduardo Ramos, que agora assume a
gestão da área de renda variável da NY Mellon, incluindo os seus fundos
long/short. A gestão dos fundos multimercados ficará sob a
responsabilidade de Delano Franco, que até então era o responsável pelo
conjunto das atividades da asset.
Segundo França, embora haja grande complementaridade entre as
operações das duas empresas, uma compra desse tipo sempre resulta em
áreas de superposição, seja na gestão ou no back-office. “Por enquanto
estamos analisando as operações, ainda é cedo para falar em
superposições ou mudanças”, analisa Tovar. Mas, segundo ele, as três
áreas de produtos, que incluem renda variável, long and short e
multimercados, serão mantidas.
Mais risco – A compra da Arx ocorre em um momento importante para a
NY Mellon, quando os investidores estão dispostos a alocar partes
crescentes de suas carteiras em operações de mais risco para obter
maiores retornos. É o caso dos fundos de pensão, que recentemente
foram liberados pela Secretaria de Previdência Complementar (SPC) para
aplicar até 3% das reservas em multimercados agressivos (ver pág. 26).
Também as pessoas físicas estão alocando mais em renda variável e
multimercados em busca de melhores retornos.
“A indústria de fundos no Brasil já é bastante desenvolvida, passando de
R$ 1 trilhão, mas a maioria desses recursos ainda está alocado em
produtos muito simples”, avalia Tovar. “Com a queda dos juros, o
investidor brasileiro vai se ajustar mais ao risco e vai passar a tolerar mais
a volatilidade da renda variável, além de alongar os prazos de aplicação”,
diz o executivo.
A aquisição da Arx dá à NY Mellon uma personalidade mais forte para
disputar os clientes que estão reposicionando seus ativos em renda
variável. “Os dois gestores tinham fundos com históricos de desempenho
muito positivo”, analisa o diretor da PPS. “Acho que a compra vai ser bem
recebida pelo mercado, com exceção de algumas fundações que querem
fazer fundos exclusivos e manter gestão e administração fiduciária
segregadas”.
A compra de assets independentes por grandes instituições, seja através
de participações relevantes ou integralmente, é algo que já vem ocorrendo
há tempos nos mercados mais desenvolvidos, principalmente o norte-
americano. No mercado brasileiro, tivemos recentemente a compra do
Pactual pelo UBS e da Hedging-Griffo pelo CSFB, mas ambas eram
instituições de porte grande. Com a compra da Arx, uma gestora de
menor porte especializada em renda variável, a Mellon inaugura entre nós
essa tendência de aquisição de assets menores. “Acho que é uma
tendência positiva, pois junta duas assets locais de porte médio para criar
uma asset maior e com muito mais poder de competição frente aos
grandes”, analisa França.
A compra da Arx não muda nem afeta em nada as outras operações da
NY Mellon no Brasil, que além da asset continuará atuando nas áreas de
controladoria e administração fiduciária. Cada uma dessas áreas mantém
equipes separadas, tanto para cuidar das operações como da
comercialização dos produtos. O comando de todas as áreas NY Mellon no
Brasil permanece com José Carlos de Oliveira, que responde diretamente
à matriz nos Estados Unidos.