Principal Global Investors com fome de Brasil

Edição 185

Dona de 46% da Brasilprev, a americana PFG agora quer expandir suas
atividades de gestão entre os fundos de pensão

O espanhol Ignacio Cerezo possui uma vasta experiência no mercado
financeiro mundial. Graduado em História pela Universidade de Oxford,
cobriu da Europa à Ásia a área de renda fixa e vendas institucionais do JP
Morgan. Passou pela asset management do Salomon Smith Barney, em
Londres, e, mais tarde, cruzou o Atlântico para trabalhar nos Estados
Unidos pelo Citibank. Em 2004, Cerezo aportou no Brasil pelo Citi para
comandar o braço de gestão de recursos do banco para a América Latina.
Após a aquisição da asset pela Legg Mason, em 2005, resolveu que era
hora de buscar novos desafios. O executivo não tinha em mente plano
algum, a não ser a firme convicção de permanecer no Brasil. Por
quê? “Aqui há uma diversidade cultural que me encanta”, diz, com um
largo sorriso no rosto. “Gosto da informalidade dos brasileiros. Este é o
lugar que escolhi para viver.”
Além da afeição pelo país, Cerezo sabe que tem pela frente uma
oportunidade ímpar de participar do crescimento da indústria doméstica de
investimentos. “Haverá uma grande movimentação de recursos no
mercado financeiro brasileiro dentro dos próximos cinco anos, e este é o
único país em que poderei contribuir, de fato, para as mudanças que
estão para acontecer.” Por isso, ele não pestanejou quando recebeu o
convite para capitanear o recém-inaugurado escritório brasileiro da
Principal Global Investors (PGI), asset management do grupo americano
Principal Financial. A missão de Cerezo é “ajudar a crescer o negócio
institucional”. Na mira estão os grandes fundos de pensão brasileiro, com
patrimônio superior a R$ 500 milhões. Em fevereiro, o executivo tem um
encontro agendado com a Previ, fundo de pensão dos funcionários do
Banco do Brasil. A Principal já tem uma parceria com o banco no segmento
de planos de previdência privada aberta – é dona de 46% do capital da
Brasilprev.
São três os focos de atuação da Principal: imóveis, renda fixa crédito e, na
renda variável, mercado global de derivativos. Num primeiro momento, a
idéia é atuar no Brasil por meio de consultores de investimento para
oferecer aplicações no exterior. Para tanto, a asset conta com a provável
abertura que os fundos de pensão brasileiros devem ganhar para investir
lá fora – hoje, isso só é possível através de fundos multimercados
agressivos, nos quais as fundações podem alocar até 3% do
patrimônio. “No Chile, os investimentos no exterior já somam 40% de
toda a indústria de fundos”, compara Cerezo, que também vai coordenar,
daqui, estratégias para os mercados chileno e mexicano, onde o grupo já
tem presença nas áreas de previdência e seguros.
Como depende de uma maior flexibilização da legislação, é fato que as
atividades da Principal no Brasil não vão se dar no curtíssimo prazo – até
porque, este também é o momento de os investidores (nacionais e
estrangeiros) aproveitar o boom do mercado de capitais brasileiro. “A taxa
de juro brasileira ainda é uma das mais altas do mundo. No México, por
exemplo, o juro real está entre 2% e 3%”, observa Cerezo. Esse
panorama, porém, está mudando. E a Principal se prepara, justamente,
para um novo cenário de juros mais modestos. “Em breve, vai haver um
problema de R$ 500 bilhões e, por enquanto, ninguém está fazendo nada
para resolvê-lo”, diz ele, referindo-se aos fundos de pensão.

Expansão – A captação de clientes para investimentos no exterior não
exclui, entretanto, a possibilidade de oferecer produtos também aqui
dentro. A asset já atua assim em outros mercados. Desde 2001, a PGI,
uma das principais assets em atividade nos Estados Unidos, com US$
221,4 bilhões sob administração, decidiu expandir sua área de gestão de
recursos para os mercados europeu, asiático e latino-americano. Mas não
seria uma estratégia eficiente sair à caça de clientes sem ter um produto
sólido em mãos. Logo, foi decidido aguardar por três anos até que seus
fundos tivessem um histórico consistente. Em 2005, começou o contato
com as instituições. Hoje, a Principal marca presença em 11 países.
A maior parte dos recursos sob o guarda-chuva da PGI está alocada na
renda fixa (cerca de US$ 110 bilhões). Esse não é, porém, um segmento
que a asset possa agregar muito valor em relação ao que já é feito por
aqui. “Há, no país, muitos gestores competentes nessa área”, admite
Cerezo. Na opinião do executivo, a Principal pode ter uma atuação
destacada em suas outras duas especialidades: renda variável e real
estate. Em imóveis, por exemplo, as operações da asset nos Estados
Unidos se concentram na compra e venda de edifícios comerciais. Trata-se
de um processo complexo e de grande porte (a carteira do fundo soma
US$ 40 bilhões), que envolve a análise de 100 a 200 propriedades todos
os meses para que sejam fechadas, nesse período, três ou quatro
transações. E alguém dúvida que o mercado brasileiro tenha capacidade
para abrigar investimentos desse naipe?