Edição 181
Antonio Cássio dos Santos, presidente da Fenaprevi (antiga Anapp), avalia que o mercado de previdência aberta precisa atingir um público menos abonado para permanecer em ascenção
Para que o mercado de previdência aberta continue ostentando um crescimento de dois dígitos, as operadoras deverão concentrar seus esforços de venda, daqui para frente, no segmento de médias empresas e de pessoas da classe C. Esta é a análise do presidente da Mapfre Seguros, Antonio Cássio dos Santos, que há dois meses assumiu o comando da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi).
Nesta entrevista, Santos fala também das tendências do setor e comenta sobre os projetos de criação de planos de poupança focados em saúde e educação.
Investidor Institucional – A previdência aberta fechou o primeiro trimestre do ano com um crescimento de 20% em relação a 2006. Há dois anos, esse número era o dobro. O mercado está começando a dar sinais de arrefecimento? Antonio Cássio dos Santos – À medida que mais pessoas entram no sistema, os índices de expansão tendem, naturalmente, a serem menores. No entanto, quando eu vejo um mercado que cresce dois dígitos mesmo sem um grande esforço de venda de planos coletivos para o middle market e de planos VGBL para a classe C, isso denota que ainda existe um universo muito grande a ser explorado.
II – Mas a previdência privada não está próxima de atingir o teto de potenciais participantes? ACS – Há controvérsias. Nós temos, hoje, cerca de seis milhões de pessoas que declaram Imposto de Renda pelo modelo completo. Só que a massa salarial brasileira passível de obter diferimento de IR é quatro vezes superior ao tamanho do mercado atual. Mas a previdência não cobre apenas aqueles indivíduos que fazem sua declaração pelo formulário azul. Ela abarca os outros 61 milhões de pessoas que formam a mão-de-obra ativa do País e que têm alguma capacidade de poupança.
Ainda não se sabe, de forma clara, qual o potencial do VGBL. Atualmente, contamos com seis milhões de participantes. Teoricamente, teríamos espaço para mais 55 milhões.
II – Quais são as projeções da Fenaprevi para o desempenho do setor? ACS – O mercado dever crescer, neste ano, cerca de 20%. É um supercrescimento para uma economia que deve evoluir 4%.
II – Para onde a indústria deve crescer? ACS – Nos planos individuais, a expectativa de crescimento dos VGBLs é brutal. Entre janeiro e abril, esses produtos captaram R$ 5,43 bilhões, uma expansão de 34,5% em relação a 2006. E olha que a participação dessa modalidade na indústria representa, hoje, entre 15% e 20% do potencial que pode ser abarcado. Nos planos coletivos, o foco será as pequenas e médias empresas, que faturam menos de R$ 200 milhões.
II – Como aumentar a participação de mercado dos planos corporativos? ACS – Se o mercado não partir para a conquista de novas empresas, o volume de arrecadação dependerá da evolução da folha de pagamento.
Como a tendência de evolução da folha é pequena, uma vez que a inflação vem caindo, a expansão é marginal. O desafio, portanto, é abranger as empresas médias, e para isso dependemos do crescimento econômico do País, que gera emprego e necessidade de retenção de mão- de-obra. O principal instrumento de retenção de profissionais nas grandes empresas, hoje, é a oferta de planos de previdência. O bom desempenho dos planos empresariais passa, portanto, pelo crescimento econômico e pela gestão de recursos humanos.
II – Mas pequenas e médias empresas não costumam ter política de recursos humanos.
ACS – Nós estamos falando, aqui, de empresas que faturam até R$ 200 milhões, que têm um certo porte, não daquelas muito pequenas. Essas empresas de médio porte dependem mais de profissionais-chave que as grandes. Por isso, elas serão arrastadas pelo mercado para oferecerem um pacote de benefícios semelhante ao que as grandes fornecem aos seus empregados. Com os planos de saúde aconteceu a mesma coisa. Se voltarmos 15, 20 anos atrás, quem oferecia plano de saúde aos funcionários? Somente as grandes companhias. E quem oferece hoje? Praticamente todas as empresas. Até as pequenas estão começando a oferecer plano de saúde. Basta verificar o boom das cooperativas médicas.
É uma tendência natural, portanto, que as pequenas e médias empresas sejam estimuladas a oferecer produtos de previdência.
II – O investidor de alta renda aplica em previdência? ACS – Sim, pois o PGBL oferece um benefício tributário fantástico. Um novo mercado que está sendo criado, aliás, é o de VGBLs para grandes fortunas. Os recursos que ultrapassam o limite de 12% de diferimento de IR estão sendo direcionados para os VGBLs. Uma das vantagens é que, por estar debaixo da legislação de vida, o VGBL prevê a inclusão de beneficiários de espólio, no caso de falecimento do titular, minimizando, assim, custos de transmissão de herança. É um movimento que já começa a ser observado entre os administradores de fortuna. Mas a principal vocação do VGBL é a inserção social, é a criação de um plano de poupança de longo prazo com viés previdenciário que possibilite, no futuro, desonerar a previdência pública.
II – Os planos de previdência apresentam mais custos que os fundos de investimento tradicionais, pois têm taxas de carregamento e de saída, que prejudicam o retorno. O mercado pretende reduzir esses custos? ACS – A taxa de saída existe para penalizar aquelas pessoas que aplicam e resgatam num curto espaço de tempo. Essa prática não faz sentido, já que o objetivo do investimento é garantir, no futuro, a aposentadoria.
II – Mas a tributação já não penaliza quem permanece por pouco tempo? ACS – Sim, porém é preciso cobrir os custos de captação. Se já é possível incluir no sistema pessoas dispostas a investir a partir de R$ 20, calcule o quanto isso não custa para o operador? A taxa de saída tem a função de evitar uma venda mal feita e, além disso, não gerar prejuízo para os demais investidores que permanecem no fundo. Acredito, no entanto, que à medida que a escala do setor de previdência privada aumente, os custos tendem a cair. Nós observamos isso, por exemplo, nos planos coletivos. Eles chegavam a cobrar, no passado, taxas de administração de 5%. Hoje, a tarifa está em torno de 1%.
II – Com a queda da Selic, vai ficar ainda mais difícil obter uma boa rentabilidade? ACS – As taxas de juro ainda serão elevadas nos próximos três anos.
Além disso, o grande instrumento de poupança de longo prazo não é a renda fixa, mas sim a renda variável. A tendência é que haja uma migração paulatina dos recursos da renda fixa para as ações.
II – De fato, a captação de planos com renda variável cresce rápido, e os fundos com uma parcela de ações superior a 30% da carteira são aqueles que mais recebem aportes. Isso não é preocupante, em se tratando de previdência? ACS – Depende da visão que tenhamos da economia brasileira. Ações são o principal instrumento de poupança de longo prazo numa economia desenvolvida. E se o Brasil caminha nessa direção, é porque temos um mercado de capitais forte. Muitas pessoas tendem a imaginar que bolsa é especulação quando, na realidade, é um investimento de longo prazo. É verdade que existe investidor com postura especulativa. Mas o investidor que quer exercer esse tipo de estratégia por meio de produtos de previdência vai perder tempo. É melhor procurar outros tipos de fundo ou operar com os próprios ativos. Risco não condiz com o perfil dos produtos previdenciários. É preciso ter um conservadorismo razoável para permitir que os planos cheguem no longo prazo. E isso implica, por exemplo, ter papéis de primeira linha no portfólio.
II – No episódio da bolha da Nasdaq, muitos americanos prestes a se aposentar tiveram de adiar o descanso por conta de perdas substanciais com a bolsa…
ACS – Está-se falando, aí, de uma economia distinta, com um nível de maturação grande, onde boa parte dos ativos está no mercado de capitais. Quem havia aplicado em papéis das e-companies e permaneceu com eles não perdeu nada. O problema é entrar e sair no momento errado. Além disso, uma pessoa de classe média precisa ter em mente que a diversificação de riscos é vital para os investimentos. Não se pode concentrar as aplicações num único ativo. De qualquer maneira, a postura do operador previdenciário é, eminentemente, conservadora. Não interessa a nenhuma seguradora ter taxas negativas de rentabilidade em seus fundos. Com o instrumento da portabilidade, isso significa entregar o cliente para o concorrente.
II – Os custos dos planos não são padronizados, as simulações feitas por muitas seguradoras utilizam taxas de retorno anual que não são factíveis, entre outros problemas. A previdência privada ainda carece de maior transparência? ACS – Nós, operadores, precisamos nos conscientizar que ou nos auto- regulamos, ou alguém vai fazer isso. Vou defender junto à federação a proposta de que tenhamos um padrão em relação aos simuladores, ou que deixemos o cliente determinar a própria taxa, sem induzi-lo.
Precisamos preservar, principalmente, o pequeno investidor.
II – Ao contrário dos fundos de pensão, a previdência cresce mais por conta de novos aportes do que em função da rentabilidade dos investimentos. O que precisa ser mudado? ACS – Não precisa ser mudado nada. Novos membros entrando no sistema vão fazer com que a captação seja maior que a rentabilidade. É diferente dos fundos de pensão, que criaram seu patrimônio ao longo dos últimos 40 anos de história e, por isso, têm um universo relativamente estático. Como as empresas não contratam na mesma velocidade da evolução das taxas de juro, é natural que as entidades fechadas cresçam mais em função do volume de reservas acumulado. São timings distintos.
No futuro, a tendência é que a previdência privada cresça de maneira semelhante.
II – Cerca de 70% do mercado de previdência privada é dominado por apenas três empresas. Como contornar essa concentração? ACS – Essa concentração está vinculada à concentração bancária no Brasil, e isso é inevitável. O que tende a acontecer, no futuro, é a existência de operadores focados em segmentos específicos. A saída será a diferenciação dos serviços prestados, com operadores especializados em determinados nichos de clientes e de produtos.
II – Quais os planos da Fenaprevi para o futuro? ACS – Vamos desenvolver, ao longo dos próximos dois anos, produtos focados em saúde e educação, voltados para o atendimento de necessidades específicas dos clientes. Os projetos já estão sendo encaminhados para a Susep. A idéia é termos uma poupança vinculada à manutenção de planos de saúde após os 65 anos de idade. Na educação, será algo nessa linha. Para ambos produtos, planejamos um diferencial tributário, já que estaríamos desonerando o Estado de gastos com educação e saúde. Em relação aos planos coletivos, estamos estudando a criação de programas que desonerem parte dos recursos que são destinados à previdência, de forma que eles sejam gastos com saúde quando o funcionário estiver aposentado. Todos as propostas carecem de avaliação junto ao governo.