Juros em queda e inflação controlada

Edição 176

Demósthenes Madureira de Pinho Neto – vice-presidente de
investimentos da UAM – Unibanco Asset Management

O desempenho da economia brasileira deverá ser muito favorável ao
longo de 2007, resultado da manutenção da coerência das políticas
macroeconômicas nos últimos quatro anos. A continuidade de um
ambiente externo de crescimento econômico e de liquidez elevada
juntamente com a manutenção do desenho das políticas macroeconômicas
atuais deverá permitir que a economia brasileira continue a crescer perto
do potencial, os juros continuarão a cair e a inflação ficará sob controle.
Ainda que o país não realize um conjunto de reformas fundamentais para
ampliar a capacidade de crescimento da economia num prazo mais longo,
os principais condicionantes indicam que a economia poderá atingir um
nível de crescimento mais alto sem comprometer as conquistas em
relação à estabilidade da inflação, o equilíbrio das contas externas e a
solvência da dívida pública, o que significa uma situação inédita nos
últimos anos.
O cenário internacional ainda deverá permanecer benigno durante 2007.
Os fatores de risco, que poderiam levar a economia norte-americana a
desacelerar de forma abrupta, ainda estão presentes, mas se mostram
menos intensos nos últimos meses. Os indicadores de atividade
econômica, apesar de ainda mostrarem sinais mistos, tendem a sinalizar
um quadro de desaquecimento gradual do PIB norte-americano nos
próximos trimestres. Os núcleos de inflação ainda em patamar elevado,
devem continuar cedendo na medida em que se incorporam efeitos de
queda de preços de energia e os defasados da política monetária
restritiva. Neste contexto de desaquecimento gradual da economia nos
EUA (o PIB deve passar de 3,5% em 2006 para 2,2% em 2007), com
inflação caminhando para zona de conforto (2%), o FED encontraria
espaço para retomar corte dos juros em meados de 2007, devendo a taxa
básica (Fed Funds) encerrar o ano em 4,75% aa.
No tocante ao crescimento mundial, a desaceleração gradual da economia
norte-americana deverá ser compensada pela boa dinâmica dos demais
blocos econômicos. Assim, o crescimento do mundo deverá desacelerar
marginalmente de 4,2% para 4,0% em 2007. O principal destaque
continua sendo o desempenho da economia chinesa, que apesar da
desaceleração de 11,0% para 9,5% em 2007, deverá manter um cenário
favorável para os preços internacionais das commodities, além de
impulsionar as demais economias asiáticas.
O maior risco deste cenário não se concretizar estaria no colapso do
mercado imobiliário. O fraco desempenho do mercado de imóveis nos EUA
continua representando um risco na medida em que o efeito riqueza dos
imóveis pode gerar desaceleração acentuada do consumo, conduzindo o
país para um quadro recessivo. Apesar de menos provável neste
momento, o risco ainda existe.
Outro risco para a economia mundial é de depreciação do dólar frente às
demais moedas do G-7. A elevação da aversão ao risco dos investidores
em relação aos ativos denominados em dólares frente ao risco de
desaceleração abrupta da economia norte-americana poderia deflagrar um
movimento de venda dos ativos em dólares com efeitos sobre a
percepção de continuidade do cenário de liquidez e crescimento econômico
mundial elevado dos últimos anos.
Em relação à economia brasileira as perspectivas são muito boas, e os
riscos parecem contidos. O cenário internacional benigno deverá assegurar
manutenção do fluxo de recursos externos para a economia em 2007, o
que contribuirá para manter a taxa de câmbio média no patamar de R$
2,25 por dólar, em nossa avaliação. Com patamar ligeiramente mais
depreciado da taxa de câmbio as perspectivas para a indústria nacional
são pouco melhores que as esperadas para 2006. Talvez não
suficientemente boas ainda para garantir contribuição da demanda
externa positiva para o crescimento do PIB já em 2007, pois as
importações deverão seguir se expandindo mais rapidamente do que as
exportações.
Acreditamos que a flexibilização monetária em curso desde setembro de
2005 garantirá crescimento da economia em torno de 4,0%. E o quadro de
mercado de trabalho favorável – com crescimento da massa salarial real
em torno de 6,0% – manutenção da expansão do crédito ajudará a
sustentar o crescimento da demanda doméstica. O que garantiria um
crescimento maior da economia em 2007 frente a 2006 seria não apenas
os efeitos defasados de todo o estímulo monetário, mas também uma
reação maior da indústria e dos investimentos.
Desafiante é fazer a economia crescer de maneira sustentada em 4,0%
nos próximos anos, sem um conjunto de reformas fiscal, previdenciária e
trabalhista juntamente com a melhora do marco regulatório dos setores
de infra-estrutura. Porém, trata-se de um entrave de horizonte de mais
longo prazo, que de forma limitada representaria obstáculo de
crescimento já em 2007. É bem verdade, que se encaminhadas já no curto
prazo tais reformas melhorariam a percepção de crescimento para os
próximos anos.
Com efeito praticamente neutro ou marginalmente positivo do câmbio
estável em termos reais e expectativa de alta modesta dos preços de
commodities agrícolas, a estimativa é de alta do IPCA em 2007 de 4,3%,
ainda abaixo do centro da meta de inflação, o que deverá garantir
redução da taxa Selic em 2007 para patamar de 12% e 12,25% aa.
A redução do esforço fiscal e o risco de aceleração do crescimento acima
do esperado são os principais riscos de deterioração desse cenário
doméstico benigno, quando se avalia a sua continuidade para um
horizonte além de 2007. O governo parece disposto a utilizar os Projetos
Piloto de Investimento (PPI) para liberar recursos do orçamento para
investimento – num montante de 0,5% PIB – em detrimento da redução
da meta atual de superávit primário de 4,25%. Em termos de solvência da
dívida pública, essa redução ainda permite esperar redução do nível de
endividamento em relação ao PIB ao longo dos próximos anos, porém o
ritmo dessa queda será inferior à trajetória obtida no caso de manutenção
da meta atual. As implicações dessa redução no curto prazo são
pequenas, mas para a avaliação das perspectivas num horizonte mais
longo, a expectativa de obtenção da classificação de grau de investimento
pelas agências de risco será provavelmente postergada para período
posterior ao segundo mandato do governo Lula.
Outro desafio que a economia brasileira enfrentará será crescer sem gerar
pressões inflacionárias num horizonte mais longo, na medida em que o
estímulo monetário dado até então terá sido substancial, e a demanda
interna terá reagido a tal comportamento dos juros. O risco deste cenário
está em se subestimar a capacidade de reação da demanda, e o Banco
Central ser obrigado a reagir a uma eventual pressão inflacionária ao
longo de 2008, na medida em que não está no radar choques positivos de
preços no patamar dos ocorridos em 2006 (como a apreciação do câmbio
e a queda das commodities agrícolas).
Em resumo, o quadro esperado para 2007 é positivo, com queda dos
juros, mais crescimento e inflação sob controle, mesmo num ambiente de
avanços tímidos nas reformas fundamentais para sustentar o crescimento
no longo prazo. O equilíbrio do balanço de pagamentos, a recomposição
de reservas internacionais, a melhora do perfil da dívida, a geração de
superávits primários, a redução da inflação e a diminuição do
endividamento externo fortaleceram os fundamentos da economia
brasileira e a tornou mais resistente a choques. O próximo passo dessa
estratégia passa por transformar esses avanços macroeconômicos em
crescimento econômico, o que parece seguro em 2007, mas exige mais
empenho na agenda de reformas para sua manutenção nos anos
seguintes para permitir que a economia brasileira inicie finalmente um
ciclo de crescimento sustentado.