“Somos compradores”

Edição 171

Presidente internacional da instituição portuguesa garante que área de
gestão de recursos deve crescer no Brasil e que, inclusive, a compra de
uma outra asset está sendo estudada

Entusiasmados com o bom desempenho da economia brasileira, que
exibe taxa de inflação sob controle, juros em queda, elevado superávit
comercial e PIB em alta, os portugueses do Banif estão decididos a
ampliar sua presença no País. O banco de investimentos, que desde o dia
30 de junho está separado do banco de varejo, está colocando em
movimento alguns planos ambiciosos, entre eles o de comprar uma nova
empresa de asset management para poder crescer mais rápido e
vigorosamente nessa área.
“Não posso dar nenhum detalhe dessa operação, só posso adiantar que
estamos estudando um negócio na área”, afirmou o presidente
internacional do Banif Investment Banking, Artur Fernandes. Ele esteve no
Brasil em meados de julho, para uma visita rápida de três dias, na qual
tratou de vários assuntos relacionados ao banco de investimentos.
Num terno cinza claro bem cortado, risca de giz, Fernandes está longe de
corresponder ao estereótipo de dono de padaria que costumamos associar
à essa nacionalidade. Ao contrário, ele veste-se e age como um típico
executivo europeu, deixando claro que a opção de Portugal de entrar no
Mercado Comum Europeu foi para valer. Ao celular, numa pausa durante
uma entrevista que concedeu a esta revista, ele conversa com o seu
interlocutor sobre as taxas a serem cobradas em uma operação. “Quanto
ele quer pagar?”, pergunta. “Olha, se for para baixar de 3,75% para
3,35% está bem, mas se for para baixar mais do que isso começa a ficar
complicado e talvez não valha a pena fazer…”
No mesmo celular, por outra linha, atende uma segunda ligação e informa
ao novo interlocutor que está no meio de uma reunião, prometendo ligar
mais tarde. A seguir desliga a primeira linha, mas não sem antes fazer
algumas recomendações sobre os próximos passos a dar naquele caso da
redução da remuneração. “Precisamos preservar a rentabilidade das
nossas operações”, explica.
O Banif é hoje um banco com forte atuação na área de investimentos,
com operações locais que somam cerca de US$ 40 bilhões, incluindo
emissões de ações, debêntures e notas promissórias, além de assessoria
em privatizações e processos de fusões e aquisições. Na área de asset, o
Banif Primus mantinha R$ 665 milhões sob gestão ao final do ano
passado, mas considera esse volume muito baixo. “Precisamos crescer”,
diz Fernandes.

Fundos – Em Portugal, o Banif opera vários fundos não tradicionais,
voltados a negócios com créditos de carbono, novas energias, arte,
cinema e mídia e infraestrutura. Boa parte deles deve aportar por aqui nos
próximos meses, garante Fernandes. Três deles, sendo um de
infraestrutura, um de meio ambiente e o terceiro de cinema já estão
desenhados e devem ser lançados em breve. Um fundo imobiliário, de R$
50 milhões, já está operando e inclusive comprou recentemente 12% da
construtora Lindemberg.
“Achamos que o setor imobiliário vai crescer muito no próximo período”,
afirma Fernandes. “Essa é uma tendência para os países que conseguem
baixar sua taxa de juros e abrir financiamentos imobiliários a custos mais
acessíveis, como está acontecendo no Brasil. As pessoas que não tinham
casa própria querem comprar sua casa, os shoppings crescem, os
negócios com imóveis deslancham”.
Na área de infraestrutura, o banco deve lançar um fundo de participações
em parceria com um banco de varejo, que possui uma rede mais ampla
para distribui-lo. O fundo de cinema pretende aproveitar as vantagens
fiscais da lei que permite às empresas aplicarem parte do seu imposto de
renda a pagar nessa área, enquanto o de meio ambiente ainda está
sendo desenhado.
Uma outra área na qual o Banif mostra interesse é a de turismo. Segundo
Fernandes, o turismo no Brasil deve dar um salto nos próximos anos, com
o aumento de visitantes estrangeiros, o que deve ampliar os
investimentos na hotelaria brasileira. “Antes, a hotelaria brasileira era
apenas de pousadas, depois veio a hotelaria de massificação que trouxe
os resorts como Sauipe, mas ainda há espaço para o crescimento da
hotelaria de luxo e há vários grupos portugueses interessados nesse nicho
no Brasil”, afirma. Ele cita, como exemplo, os grupos Dom Pedro, Pestana,
Teixeira Duarte e Vila Galé.

Espaço de trabalho – Com 120 pessoas no banco de investimentos, e
perspectivas de crescimento, o Banif está ampliando o espaço de trabalho
para essa equipe. Está comprando mais um andar do prédio onde está
instalado em São Paulo, na avenida Juscelino Kubitschek, que assim
passa de quatro para cinco andares. O banco de varejo continuará
ocupando três andares e o banco de investimentos passará de um para
dois andares. O Banif está nesse prédio desde meados do ano passado,
quando investiu cerca de R$ 15 milhões na compra dos primeiros três
andares.
O banco comercial pertence 100% ao grupo português enquanto o banco
de investimentos pertence 75% aos portugueses e 25% aos sócios locais,
que eram os antigos proprietários da Primus Asset, comprada pelo Banif.
O antigo controlador da Primus, Paulo Pinho da Silva, dirige as operações
do banco de investimentos no Brasil. Aliás, o nome Primus deve ser
eliminado em breve do nome da asset, ficando apenas Banif.
Em Portugual, o Banif é hoje o quarto maior grupo financeiro privado, com
12 bilhões de euros em ativos, 2,5 bilhões em recursos sob gestão e 6,2
bilhões em trading. Além disso, possui 3 mil empregados e 300 agências.