É hora de separar o joio do trigo

Edição 169

Bancos redobram as atenções para evitar que companhias despreparadas cheguem ao mercado acionário

Passadas 25 aberturas de capital na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) nos últimos dois anos e meio, os bancos de investimento viram que é chegado o momento de acender o alerta amarelo na hora de deci- direm se participam ou não de uma nova emissão. Infladas pela onda de um momento econômico favorável, algumas empresas planejam a abertura do capital sem se atentarem ao fato de que podem estar estrutural e financeiramente despreparadas, vindo a ocasionar prejuízos diversos aos bancos, entre eles o mais temido: de imagem.
Para o superintendente da Unibanco Corretora, Álvaro Maia, o sinal de que seria necessária uma maior cautela veio dos próprios clientes finais, especialmente os estrangeiros, que se mostraram um pouco assustados com a quantidade de novas emissões brasileiras. Segundo o executivo, os investidores externos deixaram claro que iriam filtrar as operações, até porque eles também olham aplicações em outros países. Com isso, os bancos tiveram que começar a fazer essa filtragem para não virem seu programa de distribuição frustrado. “O processo atinge a raiz e todos começam a ser mais seletivos”.
A grande maioria das empresas que não tem sido aceitas são colocadas de lado, pelo menos em um primeiro momento, por se mostrarem prematuras para o processo de listagem. Nesses casos, os bancos de investimento têm oferecido orientações para que elas caminhem, no tempo necessário, em direção à Bovespa. Entre os principais problemas identificados nessas companhias estão a falta de governança, de auditoria eficiente e de processos orçamentários.
Como os investidores exigem cada vez mais um grau de previsibilidade, as empresas devem ter um processo interno para cumprir essas exigências, o que nem sempre tem acontecido, inviabilizando as chances de ingressarem na Bolsa. Para alguns profissionais da área, a cautela será fundamental para manter o atual patamar de qualidade das empresas listadas no mercado. E o critério para ver se uma oferta vale ou não tem sido o de analisar se o que a instituição venderia é algo que ela compraria.
São recusadas imediatamente aquelas companhias nas quais o banco identifica logo de cara que o objetivo da consulta é apenas obter o lucro fácil, e não a construção de um relacionamento de longo prazo com o mercado. “Quando um grande banco faz uma emissão ele tem que ser responsável por ela, o que pressupõe, portanto, a busca por empresas sólidas. Temos sempre que tomar muito cuidado com o risco de imagem.
Então, esse processo (de declinar de algumas ofertas) é normal”, afirma o novo responsável pela corretora do Citibank no Brasil, Roberto Serwaczak.
Mas as recusas ou orientações nem sempre são a solução para evitar que oportunistas ou despreparados dêem as caras no mercado. “A gente ouve nos corredores que existem operações que não tem appeal (apelo) ou que não passaram pela due diligence”, diz Maia, da Unibanco Corretora, sem revelar se na própria instituição alguma emissão chegou a ser recusada. “Os bancos estão mesmo focados em verificar a idoneidade da empresa, já que agora o momento é de partir para o patamar de empresas menos conhecidas”.
Segundo uma fonte de um grande banco estrangeiro que preferiu não se identificar, há casos de ofertas recusadas na sua instituição que saíram à procura de outros bancos e acabaram até conseguindo atingir seus objetivos. Neste caso, diz a fonte, o desempenho bem abaixo da média de algumas companhias pode ser um indício das empresas sem preparo que possam ter concluído lançamentos. Os primeiros resultados divulgados pelas companhias também ajudam a averiguar se as empresas lançadas no mercado estavam realmente prontas. “Com a publicação dos números consegue-se ver se o que foi vendido no discurso está coerente com os fatos, ou seja, se houve uma boa preparação ou não”, afirma.
Não se pode negar que, em meio à agitação, também cresceu a quantidade de instituições querendo participar desse mercado. Essas, porém, nem sempre apresentam a experiência necessária e acabam absorvendo essas companhias. “Dada a atual atratividade passa-se a correr este risco”, diz o diretor da área de equities do UBS, Bruno Pena. A precaução deve ganhar mais fôlego com a constante chegada de setores novos e companhias de menor porte.
O volume de Ofertas Públicas Iniciais cresceu cerca de 21,5% de 2004 para 2005, que fechou com R$ 4,9 bilhões. Este ano, só nos primeiros quatro meses, o volume de emissões já quase se iguala ao de todo o ano de 2004 e se aproxima do volume de 2005 – embora há quem acredite que as empresas estejam antecipando a listagem devido às eleições presidenciais, em outubro. Já são R$ 4,9 bilhões em 2006, ante R$ 5,4 bilhões registrados no ano anterior.