25-03-2014 – 16:25:25
O rebaixamento do rating do Brasil pela Standard & Poor’s de BBB para BBB- não deve trazer impactos relevantes e imediatos para os investidores institucionais do país, até mesmo pela reação do mercado como um todo ao evento, que já era amplamente aguardado – o Ibovespa chegou a operar com alta próxima de 1% nesta tarde. Além disso, o histórico recente das agências de classificação de risco faz com que suas decisões não sejam seguidas a risca pelos agentes do mercado.
Para Francisco Cordeiro da Luz Filho, presidente do Instituto de Previdência do Município de Osasco (IPMO), o impacto do rebaixamento será limitado no mercado, pois a credibilidade das agências de classificação de risco está desgastada desde o estouro da crise financeira de 2008. “O desempenho da bolsa brasileira não foi afetado pelo rebaixamento, um sinal de que o mercado desconfia dos critérios de classificação de rating e da capacidade de análise das agências”, afirma. “As finanças brasileiras vão bem e não há risco de calote. Temos reservas e superávit suficiente. Para os investidores isso está claro”, complementa.
Já para Carlos Flory, presidente da SP-Prevcom, instituto de previdência complementar do estado de São Paulo, é a credibilidade do país que está em jogo. “O rebaixamento tem um impacto negativo do ponto de vista dos investidores institucionais estrangeiros. A perda de uma posição no rating do Brasil pode resultar na saída de recursos, além da cobrança de prêmios maiores, já que os riscos estariam mais elevados agora”, pondera.
Para o consultor Lauro Araújo, a alteração na classificação de risco do país serve como um recado de que, se 2013 foi um ano bastante complicado para que os fundos de pensão cumprissem suas metas atuariais, os próximos períodos tendem a ser ainda mais complicados caso a economia prossiga no caminho que trilhou nos últimos anos.
“Pela forma como o mercado está reagindo, essa mudança do rating já estava precificada. O impacto no médio e longo prazo é uma continuidade na dificuldade das fundações de baterem suas metas”, afirma o consultor. “Em 2013 vimos um aumento no número de planos BD deficitários, e esse déficit não é estrutural, é conjuntural”.
Mais do que a alteração do rating em si, a mudança na perspectiva da classificação, que passou de negativa para estável, reduz o risco de o país perder o nível de grau de investimento, ao menos no curto prazo, pondera o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno. Caso o país perca o grau de investimento, então uma deve ocorrer uma forte saída de recursos rapidamente, já que muitos fundos de investimento internacionais não podem aplicar em países que não tem tal classificação. Ainda que um novo rebaixamento não esteja no radar, Rostagno ressalta que, se mudanças na política econômica não acontecerem, esse fato pode se concretizar. “O rebaixamento é justamente para alertar o governo de que é necessário mudar o curso da política econômica, que está claramente na direção errada. Temos uma deterioração nas contas externas, uma piora na transparência da condução da política fiscal. O Banco Central (BC) tem de voltar a buscar o centro da meta, não simplesmente evitar que a inflação rompa o teto”, diz o especialista.
“Logicamente os investidores vão olhar com mais cuidado para o Brasil, vão exigir um prêmio um pouco maior, mas não tão maior assim, exatamente pela questão do status grau de investimento, que seria uma alteração mais importante”, diz Jankiel Santos, economista-chefe do Espirito Santo Investment Bank, corroborando a visão de seu colega de mercado.
Além da alta do Ibovespa, o dólar opera em queda nesta terça-feira (25/3), de 0,87%, negociado a R$ 2,3022 na venda, evidenciando que o rebaixamento do rating não causa grandes emoções no mercado financeiro doméstico. O próprio trabalho da autoridade monetária de elevação da taxa básica de juros, nota Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora, contribui para que o país siga atrativo sob o olhar do estrangeiro, que tem importantes ganhos de arbitragem com a Selic no nível atual. Só em março, pontua Galhardo, o ingresso de recursos está na casa dos US$ 7 bilhões, com um superávit próximo aos US$ 4 bilhões. “Os investidores mais afoitos por risco começam a voltar ao país”, diz Galhardo. “O Brasil entrega um juro real de 3% a 4% ao ano, enquanto outras economias tem pago 0,25%, 1% no máximo”, acrescenta o especialista, que lembra ainda que o nível atual de nossas reservas internacionais também ajuda a dar um conforto maior ao investidor estrangeiro que vem aplicar no país.