“Não vejo nenhum risco institucional no Brasil”, afirma André Est...

22-06-2015  –  17:11:58

 

O momento ruim da economia brasileira e os desafios enfrentados pela nova equipe econômica encontram um obstáculo adicional nas negociações com a oposição no Congresso. No entanto, para o banqueiro André Esteves, CEO do BTG Pactual, a questão política “não está atrapalhando”, uma vez que, em sua visão, se trata apenas da continuidade de um processo que vem desde a redemocratização do país. “Tenho uma opinião contrária da maioria dos analistas, talvez pelo privilégio de estar com políticos de diversas matizes. O que a gente vive politicamente é o mesmo presidencialismo de coalizão que tanto o presidente Lula quanto o presidente Fernando Henrique tiveram que enfrentar e negociar”, diz Esteves. O executivo falou na noite da última sexta-feira (19/6), no evento anual “Expert 2015”, que reuniu cerca de 1,5 mil agentes autônomos da XP. “Agora, em um presidencialismo de coalizão tem de se fazer coalizão, senão vira confusão, que foi o que mais vimos ao longo desse início de segundo mandato da presidente Dilma”.

O governo errou muito no manejo da política, o que gerou uma sensação de crise constante na avaliação de Esteves. “De fato não só ela existiu, como tem a possibilidade de continuar existindo. Só acho que não existe uma razão estrutural, uma fragmentação partidária, para que não tenhamos uma coordenação política”, fala o CEO do BTG Pactual. “Não vejo nenhum risco institucional no Brasil. Estamos ruim economicamente, mas não institucionalmente”, comenta o executivo, que elogia a chegada do vice Michel Temer para fazer a coordenação política.

“Está fácil de evitar o desastre”, fala Esteves, se referindo a uma possível perda do grau de investimento do país que poderia levar o mercado brasileiro à uma forte desvalorização. “Fácil porque não estou na pele do Levy”, brinca o executivo. “Tive uma longa conversa com ele essa semana em Brasília, e realmente dá pena do dia a dia do ministro, que briga todos os dias para fazer a coisa certa em um governo bagunçado politicamente”, destaca o CEO do banco de investimento.

Selic

Já em relação à política econômica, André Esteves demonstra certa preocupação com até que patamar o Banco Central (BC) pretende levar a taxa Selic. Na sua leitura, o BC pode estar cometendo uma “armadilha” de elevar excessivamente os juros com o objetivo de derrubar as projeções de inflação do mercado para 4,5% em dezembro de 2016. “Acho que isso é impossível de acontecer, porque tem um prêmio de risco que não é monetário, é político”, destaca o executivo, sobre as dúvidas que persistem entre os agentes de mercado quanto à continuidade do atual rumo tomado pela equipe econômica, e em relação à continuidade da própria equipe. “Seria um erro o BC querer zerar esse prêmio. Ele tem que convergir na visão dele, desconsiderando esse número”.

Em relação ao câmbio, o CEO do BTG Pactual acredita que a valorização do dólar é um ciclo que deve durar alguns anos, mas ele entende também que o real não tende a sofrer uma perda muito mais acentuada do que seus pares. “De economia estamos um pouco piores, mas de juros estamos muito melhor. Tem muito juro no Brasil, o fluxo é francamente positivo de entrada, e isso faz um contraponto há uma economia um pouco melhor”.

O fluxo está positivo para o Brasil, afirma Esteves, em todas as vertentes, seja na bolsa, na renda fixa, ou no investimento estrangeiro direto. Ele cita a venda de 20% da Rede D’Or por parte do BTG Pactual e da família Moll para o Fundo Soberano de Cingapura e para o Carlyle por R$ 5 bilhões no mês passado. “Não acho que estamos vivendo uma melhora estrutural, mas a chegada do Levy e essa correção da direção econômica é suficiente para atrair uma primeira onda de capital”. Sem esse fluxo estrangeiro, a curva de juros futuros estaria muito mais elevada por conta do risco político, nota o executivo. “E ela está negativa, porque tem um fluxo enorme de estrangeiros que estão se divertindo com esse juro de 13% na parte longa da curva”.

Bonds

Além das oportunidades para os estrangeiros no país, sobre as oportunidades para os brasileiros no exterior, Esteves cita os eurobonds de companhias brasileiras. “Os eurobonds brasileiros são muito mal precificados. Eles são bons para o investidor, e não tão bons para o emissor”. Como exemplo ele cita um eurobond do Itaú, que paga uma taxa acima do título do Bancolombia. “[O Bancolombia] é um banco bom, mas não tem o menor sentido ter taxa mais baixa que o Itaú. Não devia nem ter taxa mais baixa do que a gente [BTG]. Mas é uma imperfeicao do mercado brasileiro. Então externar e ter algum yield nesse tipo de coisa eu acho legal”, pontua Esteves. “Crédito brasileiro lá fora é melhor do que aqui dentro”. Dentro desse segmento, ele ressalta que o investidor deveria ter algum cuidado com o ambiente de negócios financeiros dolarizado do G7. “Essa taxa de juros zero está levando a uma má precificação de ativos internacionais”. 

Embora tenha citado as oportunidades fora do país, Esteves entende que, no universo de produtos estruturados, a alta taxa de juros do Brasil torna a região muito mais atrativa para fomentar esse tipo de negócio, em detrimento às economias centrais. “O Brasil é um bom lugar para produtos estruturados hoje, porque as margens estão muito altas, a volatilidade é alta e a taxa de juros é alta. No mercado americano a volatilidade é baixa, a taxa é zero e os preços são caros, é um péssimo lugar pra fazer produto estruturado”. O CEO do BTG Pactual ainda arrancou risadas do auditório lotado ao lembrar da alta remuneração oriunda do CDI. “Tem uma lei da física, que dizem inventada por Newton, de que nada bate o CDI no longo prazo”.