Mercado vê Copom mais cauteloso após corte de 0,25pp na Selic

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, tomada nesta quarta-feira (29/4), já era esperada pelo mercado. O movimento veio em meio à incerteza provocada pela guerra no Oriente Médio e por seus possíveis efeitos sobre a inflação, especialmente via petróleo e demais commodities. A seguir, apresentamos análises sintéticas de economistas e profissionais de instituições do mercado financeiro sobre a decisão e a comunicação do Banco Central.

David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America: o Copom permaneceu em modo de calibração ao reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual, numa decisão unânime e amplamente esperada. Para o BofA, apesar do corte, a política monetária segue bastante restritiva, com juros reais ex-ante próximos de 10%, cerca do dobro da estimativa de juro neutro do BC. A comunicação veio mais cautelosa que em março, com maior ênfase nas incertezas associadas ao conflito no Oriente Médio, ao petróleo, à atividade mais forte e à inflação subjacente. O banco mantém a projeção de novo corte de 0,25 ponto em junho e Selic a 13,25% no fim do ano, mas vê riscos de alta caso a inflação piore ou o petróleo permaneça elevado.

André Loes, economista-chefe da Vivest, e Matheus Pereira, economista da Vivest: o comunicado do Copom foi ligeiramente mais duro do que o de março, ao reconhecer piora significativa das expectativas e deterioração das próprias projeções de inflação do BC. Eles destacam a mudança de linguagem sobre a inflação, que passou de um quadro de arrefecimento para aceleração e maior distanciamento da meta. Também chamam atenção para a alta da projeção do Copom no horizonte relevante, de 3,3% para 3,5%, e para a inclusão da palavra “extensão” na avaliação do ciclo, o que abre espaço para discutir não apenas o ritmo, mas também a duração total da flexibilização. O cenário-base da Vivest passou a ser de corte de 0,25 ponto em junho, ante 0,50 ponto anteriormente.

Rafael Cardoso, economista-chefe do Daycoval: o diagnóstico do Banco Central manteve a leitura de cenário internacional incerto, por causa do Oriente Médio, e de atividade doméstica em moderação, ainda que com mercado de trabalho resiliente. A novidade mais relevante está na parte inflacionária, com piora da inflação corrente, dos núcleos, das expectativas e das projeções do próprio BC, que vieram em 3,5%, acima dos 3,3% esperados pelo banco. Para Cardoso, a menção a possíveis efeitos secundários sobre as expectativas e a discussão sobre a “extensão” da calibração indicam que o BC colocou sobre a mesa a possibilidade de pausa em alguma das próximas reuniões, embora o cenário-base ainda seja de novo corte de 0,25 ponto.

Felipe Oliveira, economista da MAG Investimentos: o corte de 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, confirmou a continuidade do ciclo iniciado em março, mas o comunicado veio mais duro do que o esperado. Oliveira destaca a piora das expectativas inflacionárias, em ambiente de riscos mais elevados que o usual, e a alta da projeção de inflação no horizonte relevante para 3,5%, afastando-se ainda mais da meta de 3%. Por isso, a MAG revisou preliminarmente a expectativa para junho, de corte de 0,50 ponto para 0,25 ponto, e poderá revisar para cima a taxa Selic terminal de 2026 após a divulgação da ata.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research: a redução da Selic para 14,50% ao ano deu sequência ao ciclo de calibração da política monetária, amparada pelo longo período de juros em patamar contracionista e pelos sinais de transmissão para a desaceleração da atividade. Para Sung, porém, o ambiente externo segue marcado por elevada incerteza, principalmente quanto à duração e à magnitude dos efeitos do conflito no Oriente Médio. Ele destaca que a preocupação não se limita ao impacto direto do petróleo, mas também aos efeitos de segunda ordem sobre custos de insumos e cadeias globais, com risco de desancoragem das expectativas. Na avaliação da Suno, ainda há espaço para continuidade da calibração, mas ela dependerá da duração e da extensão do conflito.

Peterson Rizzo, gerente de RI da Multiplike: o cenário mostra um ciclo econômico ainda frágil no Brasil, com o Copom já em processo de flexibilização, mas diante de inflação resiliente e riscos externos elevados. Para Rizzo, a sequência de cortes modestos indica mais uma calibração da política monetária do que um ciclo claro de estímulo. Os efeitos sobre crédito, consumo e atividade devem ser limitados no curto prazo, funcionando mais como sinalização do que como impulso efetivo. A manutenção do petróleo em níveis elevados, em razão do conflito no Oriente Médio, adiciona assimetria ao cenário e pode dificultar a continuidade das reduções da Selic.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos: a decisão de reduzir a Selic em 0,25 ponto confirma a mudança de ritmo do ciclo de flexibilização, agora mais cauteloso diante de inflação ainda pressionada, sobretudo por commodities e serviços, e de um cenário externo mais restritivo. Para Lima, o mercado já havia ajustado suas expectativas para cortes menores, em razão da combinação de inflação resiliente, incerteza fiscal e juros elevados nos Estados Unidos. Na prática, o corte é menos relevante pelo movimento em si e mais pela sinalização de que o Banco Central mantém o ciclo, mas condicionado aos dados, preservando a atratividade da renda fixa e exigindo maior seletividade em ativos de risco.

Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos: o Copom tomou uma decisão “dovish”, ao cortar a Selic, mas transmitiu uma mensagem “hawkish” no comunicado. Para a economista, as poucas mudanças em relação ao texto anterior mostram uma autoridade monetária mais cautelosa e desconfortável com o cenário externo indefinido, a piora da inflação e a alta das projeções do BC, que passaram de 3,9% para 4,6% em 2026 e de 3,3% para 3,5% em 2027. Segundo Helena, o Copom buscou preservar flexibilidade, sem se comprometer com o ritmo nem com a extensão do ciclo. Quanto mais durar o conflito, menor tende a ser o ciclo; se houver resolução rápida, poderá haver mais espaço para cortes.