
O corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano, não eliminou a principal dúvida do mercado, que é saber se o Banco Central continuará reduzindo os juros nas próximas reuniões ou se interromperá o ciclo já em agosto. Isso porque o comunicado do Copom combinou sinais contraditórios: de um lado, reconheceu piora da inflação, das expectativas e do balanço de riscos; de outro, justificou a manutenção do corte sem oferecer indicação explícita sobre o passo seguinte. Foi essa ambiguidade, mais do que a decisão em si, que concentrou a atenção das análises divulgadas após a reunião.
Para André Lóes, economista-chefe da Vivest, o documento do Copom foi, acima de tudo, confuso. Embora o Banco Central tenha justificado o corte com base na convergência da inflação para abaixo da meta em um horizonte mais à frente, a projeção para o horizonte atualmente relevante subiu de 3,5% para 3,7%, ainda bem acima da meta de 3%. Segundo Lóes, as simulações da casa não conseguem reproduzir essa convergência abaixo da meta nem mesmo com a Selic em 14,25% até o fim do ano. Por isso, sua avaliação é que o comunicado pode alimentar dúvidas e até contribuir para desancoragem adicional das expectativas. Na leitura da Vivest, mantidas as condições atuais de câmbio e petróleo, o mais provável é uma pausa no ciclo em agosto.
O economista do BV, Carlos Lopes, vê no comunicado um Banco Central que preferiu seguir cortando os juros mesmo diante de um cenário mais adverso. Ele destaca que o Copom reconheceu piora no ambiente externo, atividade doméstica mais forte, inflação mais elevada e projeções acima da meta, além de expectativas desancoradas. Ainda assim, optou pelo corte de 0,25 ponto, valendo-se pela primeira vez de uma antecipação do horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028. Para Lopes, esse expediente sinaliza uma inclinação do BC a continuar o ciclo, embora o cenário-base do banco siga prevendo Selic parada em 14,25% até o fim do ano, em razão da expectativa de novas pressões inflacionárias, fiscais e de atividade até a próxima reunião.
O economista-chefe da MAG Investimentos, Felipe Rodrigo de Oliveira, chamou atenção para a mudança no balanço de riscos, com a inclusão de um novo fator altista ligado a estímulos à demanda agregada. Também destacou a piora da projeção de inflação no horizonte relevante, de 3,5% para 3,7%. Para ele, foi relevante o trecho em que o BC sustenta que calibrar os juros para trazer a inflação à meta no horizonte atual poderia levar a projeções abaixo da meta no horizonte seguinte, já no primeiro trimestre de 2028. A interpretação da MAG é que esse argumento aumenta a probabilidade de manutenção da Selic em agosto, embora a casa prefira aguardar a ata para revisar seu cenário de forma mais conclusiva.
Já o economista-chefe do Daycoval, Rafael Cardoso, avalia que o Banco Central fez um diagnóstico correto da piora do ambiente econômico — com atividade forte, inflação corrente mais elevada e riscos adicionais ligados à energia e ao El Niño —, mas conseguiu compatibilizar esse quadro com a continuidade do ciclo ao argumentar que o grau de aperto monetário ainda é bastante intenso. Na visão da casa, a comunicação ficou alinhada ao cenário-base do banco, que já previa cortes graduais de 0,25 ponto nas próximas reuniões, levando a Selic a 13,25% no fim do ano.
No Banco Bmg, o economista-chefe Flávio Serrano afirma que a grande incógnita da reunião estava menos no corte de 0,25 ponto, amplamente esperado, e mais na mensagem que o BC deixaria sobre o futuro. Para ele, o Copom manteve essa decisão em aberto. O economista entende que, apesar da piora do cenário inflacionário, a autoridade monetária justificou o corte com base na mudança do horizonte relevante para o primeiro trimestre de 2028. A leitura do Bmg é que o BC ainda deve promover mais um corte em agosto, para 14,00% ao ano, mas que a continuidade além disso dependerá da evolução das expectativas captadas pelo Focus: se elas estabilizarem, o ciclo pode continuar; se seguirem piorando, o processo tende a ser interrompido.
O head de Relações com Investidores do Multiplike, Peterson Rizzo, interpreta a decisão como uma calibragem modesta dentro de um ambiente ainda restritivo, e não como o início de uma aceleração do afrouxamento monetário. Para ele, o Copom aproveitou a melhora recente do cenário externo, com avanço do acordo entre Estados Unidos e Irã e recuo do petróleo, para fazer um movimento limitado. Ainda assim, o espaço para novas reduções segue condicionado à manutenção desse alívio externo e à ausência de nova deterioração fiscal. Na avaliação da casa, o impacto sobre crédito, consumo e atividade é positivo, mas apenas marginal.
Já o analista da Ouro Preto Investimentos, Sidney Lima, vê no corte a confirmação de uma estratégia de flexibilização gradual, também favorecida pelo recuo do petróleo. Mas ressalta que o comunicado deixa claro que o espaço para novos cortes continua limitado, uma vez que a inflação segue acima da meta e o risco fiscal permanece no radar. Para a casa, o efeito positivo sobre crédito e consumo existe, mas é modesto, e a atenção do mercado agora se desloca para a reunião de agosto e para a definição do nível terminal da Selic em 2026.