A decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), de manter a taxa básica de juros (Selic) estacionada em 15% ao ano pela quinta reunião consecutiva não surpreendeu o mercado, que esperava por essa definição. Publicamos abaixo análises de oito executivos sobre o comunicado no qual o BC justifica sua decisão de manter os juros no atual patamar. São eles: Natalie Victal, economista chefe da SulAmérica Investimentos; David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America; Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval; Pablo Spyer, economista e do Conselho da Ancord; José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos; Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos; Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine; Rodrigo Marques, economista chefe da Nest Asset Management.
Natalie Victal – Economista chefe da SulAmérica Investimentos
A decisão de manutenção veio em linha com o esperado. O cerne da comunicação também esteve alinhado à nossa expectativa, ao sinalizar que o cenário-base aponta para março. No entanto, o comunicado foi um pouco mais dovish ao indicar explicitamente que, sob o cenário-base, o Copom antevê um corte já na próxima reunião. Vale a ressalva de que o Relatório Focus projeta um corte de 50 pontos-base em março; assim, o cenário-base embutido nas projeções que fundamentaram essa sinalização é de 50 bps.
Para reforçar o compromisso com a meta, o Comitê destacou a necessidade de serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo de cortes, o que não deve provocar revisões relevantes para a taxa terminal. Em relação ao ritmo, permanece uma divisão entre 25 e 50 bps no diagnóstico. Dito isso, a apreciação do câmbio e a perspectiva de dados um pouco mais fracos referentes a dezembro tendem a fortalecer a hipótese de um corte de 50 bps, enquanto a possibilidade de 75 bps também passa a ganhar alguma probabilidade.
A projeção de inflação em 3,2% veio em linha com o esperado. No conjunto, mantemos nossa projeção de um corte de 50 bps em março e de taxa terminal em 13% em 2026.
David Beker, chefe de economia para Brasil e de estratégia para América Latina do Bank of America
O Banco Central do Brasil (BCB) manteve a taxa Selic inalterada em 15,0% em janeiro, em linha com o consenso do mercado (nossa expectativa era de um corte). Houve pouquíssimas mudanças no comunicado, com exceção do último parágrafo, que passou a trazer uma sinalização de que o ciclo de cortes deve começar na próxima reunião. Revisamos nossas projeções para 11,50% ao final de 2026 (ante 11,25%) e mantemos a estimativa de 10,50% ao final de 2027.
A única alteração relevante no comunicado (excluído o último parágrafo) foi a retirada do trecho que afirmava que “a convergência da inflação para a meta […] demandava uma política significativamente contracionista por um período muito prolongado”.
As projeções de inflação do BCB para 2026 foram revisadas para baixo em 10 pontos-base, para 3,4%. O horizonte relevante da política monetária foi deslocado do segundo trimestre de 2027 para o terceiro trimestre de 2027, mas a projeção de inflação permaneceu inalterada em 3,2%. Vale destacar que essa projeção foi elaborada com uma taxa de câmbio de R$ 5,35 por dólar, conforme a metodologia padrão, que considera a média do câmbio nos dez dias úteis encerrados na semana anterior à reunião. Desde então, porém, a moeda recuou R$ 0,15 por dólar, o que aproximaria a projeção de inflação no horizonte relevante do centro da meta, caso esse nível se mantenha. Esse movimento reforçaria o cenário para um corte de 50 pontos-base em março.
Apesar da resiliência do mercado de trabalho, a inflação tem mostrado uma trajetória de desaceleração recentemente, em especial com o IPCA-15 de janeiro indicando moderação nos serviços subjacentes. Passamos a projetar cortes consecutivos de 50 pontos-base, de março de 2026 até janeiro de 2027, uma vez que, partindo de 15,0%, a taxa de juros ainda tem um longo caminho até alcançar a neutralidade. Na sequência, esperamos mais quatro cortes consecutivos de 25 pontos-base, levando a taxa terminal para 10,50% em 2027.
Rafael Cardoso, economista-chefe do Banco Daycoval
Em relação ao diagnóstico do Banco Central, não teve alteração, na verdade alterações muito marginais. O cenário internacional segue sendo visto como incerto, a atividade doméstica, na opinião do Banco Central, arrefece, mas tem algumas resiliências, como no mercado de trabalho, a inflação cedeu, mas segue acima da meta, as expectativas de inflação seguem desancoradas.
Entretanto, no último parágrafo, o Banco Central dá pistas do que é o plano de voo. Fala abertamente que antevê que o ciclo de redução da taxa Selic deve ser iniciado na próxima reunião, caso tudo aconteça como imaginado. Nosso cenário base já contemplava que a Selic seria reduzida em março, nossa expectativa de que o corte fosse de 0,25, mas a gente não imaginava que o Banco Central teria um compromisso tão explícito assim na comunicação da reunião agora de janeiro. Então, ainda que não tenha surpresa, a gente foi surpreendido marginalmente com essa comunicação mais clara, mais explícita, assumindo esse determinado compromisso, claro, caso as coisas se desenrolem como imaginado.
No nosso cenário não houve implicação relevante, a gente já tem um ciclo que tem ritmo com serenidade, assim como magnitude. Na nossa opinião, a queda de março será de 25, seguida de outra queda de 25 em abril, para aí sim ter espaço para acelerar para 50, chegando em 12% ao final do ano.
Pablo Spyer, economista e do Conselho da Ancord
O Copom manteve a Selic em 15%, como esperado, mas promoveu uma mudança relevante na comunicação ao indicar, de forma explícita, a intenção de iniciar o ciclo de cortes de juros já na próxima reunião, em março, caso o cenário base se confirme. O comunicado reconhece o arrefecimento da inflação e os efeitos da política monetária, ainda que destaque desafios importantes, como a resiliência do mercado de trabalho, pressões em serviços e expectativas de inflação ainda desancoradas.
Ao antecipar a flexibilização, o Banco Central oferece um forward guidance ( orientação futura) claro, mas cuidadosamente condicionado, reforçando que o compromisso com a meta impõe cautela quanto ao ritmo e à magnitude dos cortes. A mensagem é de que o ciclo de aperto terminou, mas o ciclo de afrouxamento será conduzido com serenidade, dependente dos dados e da evolução do cenário fiscal, do câmbio e do ambiente externo.
José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos
Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou pela manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano, mas, embora o patamar tenha sido preservado, o comunicado trouxe sinalizações fundamentais para as próximas reuniões. O ponto de maior inflexão foi a retirada da diretriz que mencionava a exigência de uma política monetária significativamente contracionista por um período bastante prolongado. A exclusão desta frase, que vinha sendo um dos pilares das decisões anteriores, indica que o Banco Central não vê mais a necessidade de manter o rigor atual de forma tão persistente.
Confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipou que deve iniciar o processo de flexibilização da política monetária já na próxima reunião, em março. Esta foi a parte mais surpreendente do comunicado, superando a minha expectativa inicial de que o sinal para o início dos cortes não seria tão explícito. A mudança no tom sugere que o Banco Central adquiriu maior confiança na efetividade da política monetária e na trajetória de redução da taxa neste momento.
Contudo, o Copom ponderou essa postura mais otimista ao destacar que o mercado de trabalho permanece aquecido, o que gera preocupações sobre possíveis pressões inflacionárias futuras. Somado a isso, o fato de as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuarem desancoradas reforça a necessidade de manter a política em terreno contracionista por mais tempo. O cenário desenhado pelo Banco Central indica que a política monetária continuará restritiva para garantir a convergência das metas, porém em um patamar menos severo do que o observado nos últimos meses.
Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos
As decisões desta Superquarta reforçam um cenário de cautela coordenada entre as principais autoridades monetárias. Tanto o Federal Reserve quanto o Copom optaram por manter suas taxas de juros inalteradas, sinalizando que, apesar dos avanços recentes no controle inflacionário, ainda não há espaço para uma flexibilização prematura da política monetária.
No caso do Federal Reserve, a manutenção dos juros reflete a necessidade de observar por mais tempo a convergência da inflação para a meta, especialmente diante de um mercado de trabalho ainda resiliente e de incertezas no cenário global. Já no Brasil, a decisão do Copom reforça o compromisso com a ancoragem das expectativas, em um contexto em que a inflação segue em níveis elevados em termos acumulados e a descompressão dos núcleos ocorre de forma gradual.
Diante desse quadro, o risco de um descompasso monetário relevante entre Brasil e Estados Unidos nos próximos meses permanece limitado. Com ambas as autoridades adotando uma postura conservadora e dependente de dados, o diferencial de juros tende a se manter relativamente estável no curto prazo, reduzindo pressões adicionais sobre o câmbio e ajudando a preservar a atratividade relativa dos ativos brasileiros”,
Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine
O Copom manteve a taxa Selic em 15% a.a. em decisão unânime, em linha com a precificação da curva de juros e com o consenso dos analistas do mercado. O comunicado divulgado após a decisão indica que o Comitê pretende “iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião” (18 de março) e que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Em nossa avaliação, a decisão e o tom do comunicado foram bastante apropriados. O Banco Central sinaliza disposição para reduzir a taxa real de juros de forma gradual e cautelosa, mantendo a política monetária no terreno restritivo, consistente com seu compromisso com o centro da meta de inflação.
Mantemos a expectativa de corte de 0,50 p.p. na reunião de março e de Selic em 11,50% a.a. ao fim de 2026.
Rodrigo Marques, economista chefe da Nest Asset Management
O Copom destacou o elevado grau de incerteza no qual a política monetária vem sendo conduzida no Brasil. Ainda assim, sinalizou que, caso o cenário-base se confirme, a flexibilização da política monetária poderá ter início já na próxima reunião, com cortes de magnitude conservadora, de 25 pontos-base. Trata-se, portanto, de uma decisão de manutenção com viés dovish.