Empresas no caminho do respeito ao acionista | Fernando Tendolini

Edição 119

A notícia de uma multa milionária, no valor de R$ 62,5 milhões, aplicada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ao proprietário da Bombril, o italiano Sergio Cragnotti, trouxe à tona a questão das boas práticas da governança corporativa. As empresas brasileiras ainda são estagiárias no assunto, mas em breve, por uma questão de sobrevivência no mercado, estarão dedicando-se inteiramente a ele. A governança corporativa deve ser vista como um conjunto de princípios de valores, éticos e de conduta, observados pelas empresas. O conceito da boa governança tem muito a ver com gestão transparente.
Necessariamente, empresas financeiramente saudáveis não são sinônimo de boa governança. O inverso é verdadeiro. Uma empresa com boas práticas corporativas, como diz Bengt Hallqvist, presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa, apresenta melhores resultados, torna-se mais atraente aos investidores, consegue acesso mais fácil ao capital e está mais preparada para enfrentar crises. A tendência das empresas que não adotam os princípios da governança, mesmo saudáveis, é a de caírem em descrédito no mercado.
Por que será que o Brasil paga juros tão altos no mercado externo, mesmo apresentando melhores contas que outros países nas mesmas condições, ou até piores, de endividamento? A resposta é a nossa baixa confiabilidade, por não inspirarmos confiança no mercado internacional. Quando se vive uma situação econômica globalizada, com fluxo de capitais mais livre do que décadas atrás, há uma lógica para o finito estoque de recursos internacionais migrar para os países e empresas com boas práticas de governança.
A transparência é o princípio básico. Empresas que ostentam essa qualidade não fazem mais que a sua obrigação, mas os acionistas agradecem. Muitas, infelizmente, apenas cumprem estritamente a legislação. Organizações que adotam a governança têm, em primeiro lugar, um bom relacionamento com os acionistas minoritários. No Conselho de Administração, por exemplo, uma cadeira é reservada a eles. São chamados também para o Conselho Fiscal. Em outras palavras: quem não tem nada a esconder, disponibiliza tudo de forma transparente. As empresas que adotam essa postura são percebidas de forma diferenciada no mercado, suas ações são cada vez mais bem precificadas. O valor dessas empresas cresce, em média, 23% no mercado, segundo pesquisa realizada pela Mckinsey & Company, Inc.
O Brasil ainda vive no tempo da oligarquia empresarial, a formação do capital tem características familiares. O bloco de controle é formado pelos acionistas majoritários, que detêm todas as informações, únicos responsáveis pelos destinos da empresa. É comum os Conselhos de Administração serem formados por pais, filhos, tios, cunhados e sobrinhos.
A democracia empresarial, no entanto, começa a dar seus ares no principal país da América do Sul. A nova Lei das S/A, mais flexível, prevê que as ações preferenciais não podem representar mais do que 50% do capital total das empresas. No entanto, esta nova composição somente será válida para novas empresas que vierem a se formar. As já existentes prosseguem privilegiando 17% dos acionistas majoritários contra 83% dos acionistas minoritários. Uma ditadura, cujo remédio é a governança corporativa. Algumas iniciativas estão sendo tomadas nesta direção. A Bovespa, por exemplo, adotou um ranking com três níveis para eleger as empresas que acolheram e praticam a governança corporativa.
O caminho da governança corporativa é irreversível, deve ser conquistado com credibilidade. A mobilidade atual de capitais implica na liberdade de investimentos. Pode-se investir em qualquer parte do mundo apertando-se algumas teclas de computador. O capital vai buscar o investimento mais seguro, com mais qualidade, principalmente em empresas que respeitam o investidor, com políticas de boa governança.
Fernando Tendolini é gestor do fundo Fator Sinergia, pertencente à Fator Administração de Recursos