O que está por trás dos mercados turbulentos | Solange Srour Chac...

Edição 170 

Nas últimas semanas, os mercados financeiros globais foram fortemente afetados pelo aumento da aversão ao risco dos investidores e pela desalavancagem de parte de suas grandes posições. Um dos motivos apontados para tal movimento é o receio de que os altos números de inflação da economia americana e a conseqüente piora das expectativas pudessem levar ao Fed a ser mais restritivo do que o necessário para desaquecer a pujante atividade econômica. Ao mesmo tempo, tanto a Europa quanto o Japão dão sinais de forte retomada de suas economias, já próximas dos seus potenciais. Depois de um longo período de elevado crescimento sem pressões inflacionárias, o mundo se vê finalmente frente ao fim de políticas monetárias extremamente acomodatícias. É neste cenário que o desaquecimento da atividade nos EUA passou a ser encarado como o principal antídoto para a piora das perspectivas de inflação, tornando-se o grande desafio atual.
Não é a primeira vez que o receio de maior inflação com forte desaquecimento da atividade americana torna-se questão principal da discussão macroeconômica internacional. Entretanto, encontramos hoje um mercado de trabalho com muito menos folga, as empresas com menores margens de lucros e os preços das commodities, principalmente da energia, nos mais altos níveis históricos. Além disso, o grande desequilíbrio americano, o déficit em conta corrente só vem aumentando ao longo do tempo, servindo de pano de fundo para a desvalorização do dólar em relação aos seus principais parceiros comerciais.
Os efeitos de um menor crescimento nos EUA não podem ser desprezados. Apesar de corresponder a cerca de ¼ do PIB1 mundial, os EUA exercem uma força bastante relevante para o crescimento dos demais ¾. Isto ocorre porque grande parte do crescimento mundial fora dos EUA é baseado no aumento da produção sobre a demanda doméstica, refletido nos grande superávits em conta corrente dos países asiáticos, de grande parte dos países emergentes, principalmente dos produtores de petróleo, e em algum grau dos países europeus.
A Europa corresponde a segunda maior participação do PIB2 mundial, depois dos EUA e possui uma elevada taxa de poupança. Nos últimos dois anos, a região tem passado por um aumento significante da produtividade, entretanto os desafios são grandes. Os europeus não possuem grande segurança em relação as suas aposentadorias, dado o lento progresso na geração de empregos. Há ainda o grande problema fiscal da região, que está sendo corrigido, em parte, através de aumentos de impostos. Sem condições de diminuir a poupança doméstica significantemente e diante de uma combinação de moeda mais valorizada com juros mais elevados, não é razoável supor que a região possa contribuir expressivamente para contrabalançar o menor crescimento dos EUA.
Na Ásia, as perspectivas são mais favoráveis, mas o ritmo de diminuição da poupança doméstica pode não ser suficiente também. No Japão, a taxa de poupança das famílias vem declinando desde o início da década de 80. Entretanto, o ajuste fiscal necessário nos próximos anos pode frear o aumento do consumo japonês. Na China, que corresponde a cerca de 12% do PIB3 mundial, as poupanças das famílias são extraordinariamente elevadas, reflexo da grande insegurança das famílias em relação a suas rendas futuras. A ausência de sistemas adequados de seguridade social, saúde e educação impedem uma maior participação do consumo no crescimento do PIB. Nos principais países emergentes, incluindo os produtores de petróleo, há enormes demandas por investimentos e reformas estruturais, sendo também bastante difícil vislumbrar uma redução significativa de suas poupanças no curto ou médio-prazo.
Neste quadro, o grande dilema da economia americana é desacelerar de forma a manter as expectativas inflacionárias sobre controle e diminuir o desequilíbrio da sua conta corrente. Infelizmente, esta tarefa não poderá contar com grande ajuda das demais regiões e tem contra si o tempo.
Certamente, o efeito de uma redução do ritmo do crescimento da economia americana afetará a economia mundial. A dura tarefa imposta ao novo presidente do Fed é justamente tornar o ajuste o mais gradual possível, evitando o risco tanto de uma inflação acima do desejável quanto de um crescimento muito abaixo do potencial ou mesmo de uma queda de produto. É justamente com esses riscos que os mercados financeiros estão extremamente preocupados.
1 Medido pela paridade do poder de compra. 2 Idem. 3 Idem

Solange Srour Chachamovitz é economista-Chefe da Mellon Global Investments Brasil