Europa está saindo da recessão | Economista–chefe do grupo Allian...

Edição 254

Analisando a situação econômica da Europa, ainda não dá pra falar com otimismo. Ninguém pode supor que os países da Zona do Euro vão voltar a crescer aceleradamente nos próximos anos. Porém, os recentes indicadores de países mais preocupantes, mostram que o pior da crise está passando. A análise é do economista-chefe de um dos maiores grupos seguradores do mundo (o maior da Europa), a Allianz, Michael Heise, que publicou em maio passado, o livro “Emerging from the debt crisis” (editora Springer-Verlag Berlin Heidelberg). O grupo Allianz atua também na indústria de gestão de recursos com duas empresas de asset management, a Allianz Global Investors e a Pimco – esta última abriu escritório no Rio de Janeiro em 2012.
Em seu livro, Heise já antecipava a perspectiva de recuperação de países do sul da Europa como Portugal, Espanha e Grécia, que foram confirmadas com os recentes indicadores econômicos do terceiro trimestre de 2013. No início do ano, a perspectiva era de um crescimento negativo de 0,3% para a Europa neste ano. Agora, o economista projeta um crescimento de 0% para 2013, e de 1,5% para 2014.?
Michael Heise visitou o Brasil em outubro e concedeu entrevista exclusiva para a Investidor Institucional. Ele participou de evento promovido pela Allianz que discutiu a questão do envelhecimento da população e a necessidade de reformas para evitar problemas de aumento dos déficits como aqueles enfrentados pela maioria dos países da Europa. Na entrevista, Heise fala que vários países europeus já fizeram ajustes e reformas nos sistemas previdenciário e trabalhista que estão começando a dar resultados agora. Ele critica, porém, que os analistas do mercado financeiro ainda estão sub-avaliando os resultados de tais reformas.
O economista fala ainda dos processos de reforma da previdência na Itália e na Alemanha. No caso do sistema italiano, a reforma foi feita tardiamente, mas deve começar a dar resultados a partir do próximo ano. Já a Alemanha tinha se antecipado à crise, e o processo de reformas iniciado entre 2003 e 2005 foi um dos responsáveis pela manutenção do crescimento vigoroso da economia alemã, mesmo em época de crise da Zona do Euro.
Ele aborda também os efeitos do “tapering” (retirada dos estímulos do Federal Reserve) sobre a economia mundial e os impactos sobre os mercados emergentes. Heise prevê que a economia da América Latina voltará a crescer com mais força a partir do ano que vem, com uma taxa média anual de 3,5% entre 2014 e 2017. Os países da Ásia emergente devem crescer 6,2% por ano em média no mesmo período. Ele acredita que os mercados emergentes como Brasil, Índia e China terão cada vez maior participação na economia mundial. Já em 2025, os emergentes serão responsáveis por 50% da PIB mundial, disse o economista da Allianz. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Investidor Institucional A Europa está saindo da crise? Como?
Michael Heise – Afortunadamente, a Europa está saindo da crise. O que não significa que todos os problemas foram resolvidos. Os desafios ainda não foram superados, mas a pior parte da crise parece ter acabado. A recessão que durou os últimos anos, sobretudo no sul da Europa terminou no segundo trimestre deste ano, mas isso não quer dizer que o crescimento interno será muito forte na Europa.

IIQuais os desafios que ainda continuam?
MH – Os desafios persistem na questão do equilíbrio das dívidas fiscais, da situação de déficit fiscal e na redução da dívida privada que muitos países acumularam durante os anos do boom econômico. Isso continua como um desafio para os próximos anos. E isso vai manter um crescimento baixo nestes países.]

IIPoderia nos passar alguns indicadores que demonstram essa recuperação dos países da Europa?
MH – Bem, quando a recessão entrou o ano de 2013, tínhamos a previsão que o crescimento seria de menos 0,3% no ano. Mas com a aceleração neste segundo semestre e com a perspectiva de melhoria para o próximo ano nós trabalhamos com uma perspectiva de crescimento de pelo menos 1,5% em 2014, que é a taxa de crescimento que provavelmente será sustentada também no médio prazo, nos próximo anos. Temos a previsão que a Europa vai crescer 1,8% ao ano em média entre 2014 e 2017.

IIA recuperação atinge os países mais afetados pela crise, tais como Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia.
MH – Sim, também nesses países em crise que você menciona eles estão em recuperação, isso é verdadeiro para Espanha, Portugal e Grécia. Irlanda tem se recuperado também nos últimos meses, e a situação lá já não é tão ruim. Esses países têm realizado ajustes muito grandes, estão ocorrendo reformas que os mercados estão subestimando, ou melhor, que muitos observadores estão subestimando nos últimos tempos. Se você olhar para o corte dos gastos em massiva redução em alguns desses países, você verá que o grande déficit que existia até alguns anos atrás, basicamente desapareceram na Espanha, Portugal e na Grécia. Então, você pode observar massivos ajustes macroeconômicos.

II E a recuperação na Itália, qual a sua avaliação?
MH – Na Itália não houve um ajuste que foi tão longe ainda, mas que está sendo grande também. A Itália também está realizando algumas reformas, especialmente em seu sistema de previdência. Quando Mário Monti assumiu o governo ele fez uma grande reforma que ainda é subestimada pelo mercado. Outras reformas têm sido iniciadas mas seus efeitos ainda são pequenos. Então, a economia da Itália está se movendo vagarosamente, o crescimento ainda será negativo neste ano. Nós acreditamos que será levemente positivo no próximo ano.

IIVocê poderia comentar um pouco mais sobre a reforma da previdência na Itália?
MH – O sistema previdenciário de lá tem uma taxa muito alta de manutenção do salário da ativa na Itália. Pessoas se apóiam no estado na terceira idade. Havia uma baixa idade de aposentadoria. Agora as coisas estão mudando. A parte mais importante da reforma foi que a idade de aposentadoria aumentou para 67 anos, o que começará a ocorrer de agora em diante. Claro que isso terá efeitos depois da mudança, apenas no ano que vem. Mas de agora em diante as pessoas serão colocadas na situação de ter que trabalhar mais tempo. Se você se aposentar cedo, terá redução em sua aposentadoria normal. Então isso é realmente um grande e verdadeiro esforço para mudar o sistema de aposentadorias na Itália. Se você olhar para os estudos da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] você verá que os chamados gastos com a previdência social na Itália vão ficar bem mais baixos com esta reforma. Por isso, a impressão que nada está sendo feito na Itália durante a crise não é totalmente correta. Há algumas coisas que estão sendo feitas, podem não ser suficientes, mas as mudanças estão ocorrendo.

IIQuais os impactos do provável tapering [retirada dos estímulos] à economia do FED sobre a Europa?
MH – Acredito que os efeitos do “tapering” sobre a Europa não será tão forte quanto nos mercados emergentes. Mas acredito que o início do “tapering”, quando se tornar realidade, vai aumentar a volatilidade massivamente nos mercados financeiros. E vai colocar estresse nos mercados financeiros. Isso vai afetar a economia como um todo, e claro que a economia europeia também será afetada. Acredito que isso vai acontecer daqui a pouco. Se o remédio é forte, se você gosta do remédio, da liquidez barata, não será fácil tirar o remédio sem criar um efeito global na economia. Nós vimos uma amostra disso quando Ben Bernancke começou com os comentários sobre o fim dos estímulos. Mesmo os comentários já causaram grandes movimentos. Eu acho que se olharmos para o futuro, e há diferentes escolas que estão falando sobre isso, sobre os efeitos do “tapering” real. Janeth Yellen terá os reais efeitos quando um monte de recursos forem retirados dos mercados. Será um mundo que vai mudar totalmente, não haverá mais dólar barato, investimento em crédito com altos ganhos. As características irão mudar rapidamente.

IIQuais os principais efeitos do tapering?
MH – Haverá muito mais volatilidade nos mercados financeiros. Será uma experiência que vai marcar a história e ficará nos livros de economia que irão contar para nós quando ocorreu a mudança da política monetária que o Fed realizou, o que aconteceu nos EUA, o que aconteceu em outros lugares, que enfrentaram esse momento. Então eu acredito que o principal impacto será o aumento da volatilidade.

IIO que os mercados emergentes devem fazer para se preparar para o início da retirada dos estímulos?
MH – Bem, eu posso descrever algumas pequenas coisas que deveriam ser feitas, uma delas é claro, é cortar aquilo que gera déficits, especialmente, os déficits podem ser prejudiciais nesta situação de flutuação do capital. Além disso, deve-se acumular reservas, certamente também é simples, e talvez não gastar as reservas muito rápido em resposta à depreciação da moeda. É melhor deixar depreciar um pouco, manter as reservas. Quando houver movimentação do câmbio, é melhor esperar um pouco até que se estabilize. Ou seja, não gaste todas as reservas com intervenção sobre o câmbio. E ver a questão dos déficits que acontecem com a fuga do capital. Afortunadamente no caso do Brasil, existe um investimento estrangeiro de longo prazo, que é uma pré-condição que o tapering não bata tão forte. Não há tanto capital do tipo “hot” que foge de imediato.

IIQuais as reformas que foram realizadas na Alemanha e que ajudaram a manter a economia alemã vigorosa mesmo neste período de crise?
MH – As reformas que foram realizadas na Alemanha foram terminadas em 2010. Foram reformas iniciadas entre 2003 e 2005 com o governo social-democrata, que não foi reeleito justamente porque fez as reformas. A parte mais importante da reforma foi no seguro social. A reforma reduziu alguns benefícios, de acordo com as mudanças demográficas. Esse tipo de mudança foi importante. Também fez com que o bem estar social focasse nas reais necessidades, tornou mais restrita a ajuda do bem estar social do estado. 

IIVocê pode explicar um pouco mais sobre as mudanças no sistema previdenciário alemão?
MH – A reforma introduziu um fator demográfico no cálculo das aposentadorias. Então um número maior de pessoas com mais idade aumentou a expectativa de continuar trabalhando. Isso também ajudou a reduzir o número de pensionistas. Mas a mudança mais importante para e economia alemã no curto prazo foi a mudança no mercado de trabalho e no seguro desemprego, que foi reduzido. O seguro desemprego sofreu uma redução massiva. Antes as pessoas tinham direito ao seguro desemprego até 32 meses com cerca de 65% do rendimento salarial. Depois o seguro foi reduzido para 16 meses e depois para 12 meses.

IIQuais as consequências dessas mudanças?
MH – Isso fez com que as pessoas percebessem que tinham que procurar emprego e aceitar trabalhos que usualmente elas não aceitavam, porque o seguro era bastante generoso. As mudanças não foram muito bem aceitas no início, não foram muito populares, mas seus efeitos foram de criar uma onda de desenvolvimento econômico e uma redução forte do desemprego. Nós vimos as pessoas saindo do seguro social em busca de emprego. As taxas de desemprego que eram de cerca de 6%, caíram para algo em torno de 2% recentemente. O efeito da redução do desemprego é que agora temos uma onda de crescimento que tem sido muito boa para a economia alemã. As reformas foram muito importantes para que a economia pudesse enfrentar a crise da Zona do Euro a partir de 2010. Desafortunadamente, os últimos governos não continuaram com as reformas nos últimos anos.