Edição 384

A escalada do conflito no Oriente Médio voltou a aumentar a aversão global ao risco e trouxe novas incertezas para os mercados. Em entrevista à Investidor Institucional, o economista-chefe da Vinci Compass, José Carlos Carvalho, avalia que, no curto prazo, o principal temor dos investidores é uma interrupção no estreito de Ormuz, capaz de provocar um choque adicional no preço do petróleo. Veja abaixo os principais trechos da entrevista de Carvalho:
Investidor Institucional – Você acha que o conflito no Oriente Médio está devidamente precificado pelo mercado?
José Carlos Carvalho – Sempre que a gente tem uma situação dessas os mercados reduzem risco. Então, é isso que a gente está vendo, como o mercado não sabe o que vai acontecer ele tira o risco da mesa. Então, eu diria que tem um aproach racional e um outro de mercado.
Qual seria a visão mais racional?
O racional é assim. Os Estados Unidos entraram nessa briga junto com Israel, o Trump tem uma eleição em novembro e quer que isso seja relativamente rápido, ele não vai colocar tropas lá porque aí começa a ter mortes e isso seria ruim para ele. Mas a superioridade militar dos Estados Unidos é evidente. É muito interessante ver o número de lançamentos de drones, mísseis e de foguete que o Irã fez. No primeiro dia de guerra lançou 2 mil, no segundo dia mil, no terceiro dia 500, no quarto dia 250. Então, a capacidade de resposta do Irã está se reduzindo rápidamente, está acabando o estoque deles.
Você diria que o Irã tem hoje pouca capacidade de reação militar?
Veja, os Estados Unidos já estão atacando com B-52. Desde a Segunda Guerra Mundial eles não atacavam com o B-52, que é quase um navio voador. Isso mostra que o Irã não tem realmente nenhuma capacidade de responder, pois se tivesse já teriam derrubado o B-52, que é quase um Jumbo 747 passeando pelo ar.
Qual é o foco da ofensiva militar dos Estados Unidos?
Os Estados Unidos estão atacando a parte de produção dos mísseis e drones do Irã, para não ter maisessa produção. Além da parte nuclear, que é outra preocupação, o foco é destruir mísseis e drones e para isso conta com as informações que Israel tem.
Você falou numa visão de mercado. Qual seria essa visão mais d mercado?
O mercado pensa o seguinte, tudo bem que o Irã só tem 250 lançamentos, talvez sejam 100 daqui a poucos dias, mas basta atacar um navio no estreito de Ormuz para o mercado voar e eu não quero ter risco. Então, todo mundo está reduzindo risco, até as coisas ficarem mais claras.
O mercado teme principalmente uma escalada envolvendo o estreito de Ormuz?
O mercado não está achando que é a Terceira Guerra Mundial, nem que virou uma guerra regional só porque o Irã está atacando os vizinhos na esperança de que eles entrem na briga. Todo mundo sabe que o Irã está meio desesperado. Mas por outro lado o mercado sabe que não é difícil fechar o estreito de Ormuz. Se estiver passando um petroleiro e o Irã acertar um drone nele, e isso sair na Bloomberg ou na Reuters, o mercado inteiro vai sofrer, imaginando o que pode acontecer.
Nesse cenário, o impacto imediato seria uma alta no preço do petróleo?
Se isso acontece vai ter um spike (pico) no preço do petróleo ainda pior do que hoje (entrevista foi feita em 6 de março), que já está subindo 15%. A dúvida é quanto tempo isso dura, se são dois ou três meses é uma coisa, se é só o tempo das coisas se acalmarem é outra.
Que fatores podem afetar o fluxo de petróleo pelo estreito de Ormuz?
Eu tenho participado de vários calls e tentado aprender um pouco sobre o assunto. Aparentemente, o principal problema para não estarem passando petroleiros no estreito de Ormuz não é a questão militar, é a questão do seguro. Todas as seguradoras tiraram o seguro dos navios, porque é muito risco. O preço do seguro para passar em Ormuz antes da guerra era X, agora é 3vezes X, 4vezes X. Os Estados Unidos estão tentando ajudar, fazendo uma resseguradora só prá passar navio no estreito de Ormuz, mas ainda é incerto.
Quanto tempo pode durar a incerteza?
Eu acho que no horizonte de três meses as coisas se acalmam, mas é no próximo mês onde eu acho que pode estar o problema. Acho que o mundo vai viver uma situação de aversão a risco no horizonte próximo. No horizonte de um mês o mercado vai ficar com muita aversão a risco, porque ainda tem muita coisa pra ficar claro, como quem vai ser o escolhido como sucessor de Ali Khamenei, como isso vai acontecer, e se os Estados Unidos vão declarar vitória e parar de atacar ou se vão se envolver ainda mais. Mas eu diria que, no horizonte de três meses, as coisas já não estarão tão pouco claras.
Como essa incerteza pode influenciar as decisões de juros na próxima reunião do Federal Reserve?
Sendo bem sincero e corajoso, eu acho que afeta pouco. Por quê? Porque nos Estados Unidos, diferente do que acontece no Brasil, o indicador que eles usam é o do núcleo de inflação, que eles chamam de Core PCE. E nesse indicador não entra a gasolina, embora ela tenha subido 20% nos últimos dias nos Estados Unidos. Além disso, o dado de criação de emprego que veio nos últimos dias foi muito fraco, foi de menos 96, com o desemprego subindo de 4,2% para 4,4%. Então, se vierem mais números assim, o FED vai ter que se mexer, e isso significa cortar juros.
Para o FED, hoje o mercado de trabalho conta mais que a alta do petróleo?
Eu acho que o FED está mais preocupado com esse desemprego subindo, que pode estar antecipando uma recessão ou um enfraquecimento maior da economia, do que com o impacto da alta do petróleo na inflação, que bate na inflação total mas não no núcleo. Agora, se as pessoas estão gastando mais dinheiro em gasolina elas vão gastar menos em todo o resto, e isso pode reduzir a atividade do varejo e acabar afetando negativamente o PIB dos Estados Unidos. Então, pelo lado do consumo, ai é uma coisa para se ficar de olho.
E como a guerra no Oriente Médio pode afetar a economia brasileira?
Eu acho que onde a gente vai sentir mais na veia, e já está sentindo, é na entrada de capital estrangeiro. Desde a virada do ano, quem movimentou os ativos aqui no Brasil foram os gringos. O gringo entrou em Bolsa em janeiro e fevereiro como há muito tempo não se via. O Ibovespa chegou a passar dos 190 mil pontos, mas já caimos abaixo dos 180 mil. Como dissemos, o primeiro movimento é de aversão a risco, então o gringo, que estava sustentando a alta dos ativos no Brasil, principalmente da Bolsa, parou um pouquinho e eventualmente até saia um pouco da bolsa, zerando as posições. E quando ele zera a posição ele manda o dinheiro para fora, de volta, então não só o Ibovespa cai mas o real sobe um pouco também.
E o impacto sobre o preço da gasolina nos postos e depois na inflação?
Esse é o segundo impacto. Embora a Petrobras demore a repassar a alta do petróleo para o preço da gasolina, depois de algum tempo fora do padrão internacional ela tem que repassar. A Petrobras vai esperar uma semana para ver se o preço do petróleo continua aí nos US 90, se continuar nesse nível vai ter que subir o preço na refinaria em 20%. A regra é mais ou menos a seguinte: se o preço na refinaria subir 20% o preço na bomba sobe 10%, metade. E o impacto gasolina na inflação é mais ou menos 5%, o que impacta o IPCA em 0,5%. Então, a previsão para o IPCA deste ano, que antes da crise era de 3,5%, talvez possa se aproximar dos 4%.
Como afetaria as decisões do Copom?
Diferente dos Estados Unidos, onde a meta do FED é o núcleo de inflação, que não inclui gasolina, no Brasil a meta inclui a inflação cheia. Se a inflação fosse de 3,5%, caminhando para a meta de 3%, estaria lindo. Mas se o preço do petróleo se mantiver lá em cima e a Petrobras repassar, e a inflação começar a apontar para 4%, aí o Banco Central vai ser mais cuidadoso na questão do corte de juros.
Pode afetar a decisão do Copom já na reunião de março?
Ontem o diretor da área externa do Banco Central, o Newton Davi, falou numa conferência que, na visão dele, o juro está tão alto no Brasil que a queda vai começar mesmo em março. Não quer dizer que seja o comitê pensando assim, a fala foi dele, mas acho que quando alguém fala assim é porque teve um ok de outras instâncias, principalmente da presidência do BC.
A alta do petróleo poderia alterar o ciclo de queda da Selic?
O Davi disse que se a alta do petróleo não for temporária, se daqui a três meses ainda tiver aí, a gente vai ajustar o tamanho do ciclo. Sei lá, se por exemplo eles estavam pensando em ir para 10%, 11% ao fim do ciclo, de repente eles vão parar no 12%, 13%. Mas que vai começar em março, vai. E acho que será 50 pontos.
Isso num cenário de choque temporário de preços do petróleo, certo?
Sim, se na semana que vem o petróleo passar de US$ 100 é outro cenário. Se passar dos US$ 100 e voltar a cair é uma coisa. Mas se for se for uma coisa mais séria, que vai ficar por muito tempo, aí acho que o Banco Central muda o destino final. Se estamos caminhando para 10%, 11%, paramos no 12%, 13%, algo assim.
Como estamos em um ano de eleição, qual o risco da Petrobras não repassar a alta do petróleo para os derivados?
Eu acho que ela pode segurar algumas semanas, mas por mais tempo é difícil. Porque hoje em dia tem a refinaria da Mubadala, na Bahia, que é independente, então ela cobra o preço que quiser. Também tem muito importador e exportador, que começariam a arbitrar.
E como a alta do petróleo nos beneficia, como exportadores?
Esse é um aspecto interessante. No passado, toda vez que a gente falava de choque do petróleo, ou era ruim ou era horroroso. Mas algumas coisas mudaram. Hoje o principal produto de exportação do Brasil já é petróleo, já passou a soja. Nos últimos 12 meses nós exportamos US$ 57 bilhões em petróleo e US$ 53 bilhões em soja. No ano passado, a produção de petróleo do Brasil foi 3,7 milhões de barris por dia, este ano já estamos produzindo 4,4 milhões de barris por dia. E dependendo da chegada das plataformas de petróleo que o Brasil comprou, em 2030 vamos estar produzindo 5,5 milhões de barris por dia. Vamos ser o quarto ou quinto maior produtor de petróleo do mundo, dependendo de como evoluirem os outros países.
Como isso afeta o câmbio e o balanço externo do país?
Se o preço do petróleo subir a balança comercial melhora, e isso quer dizer que entram mais dólares no Brasil. Eu falei antes do efeito do gringo saindo do mercado, mas por outro lado se o preço do petróleo ficar no nível atual vai começar a entrar mais dólares das exportações de petróleo. Hoje, por exemplo, com esse nervosismo todo porque o petróleo subiu 15%, o real está apreciando. O dólar está R$ 5,24 e ontem estava em R$ 5,25. Mas no mundo inteiro as moedas estão desvalorizando, o peso mexicano desvalorizou, a lira turca desvalorizou, o euro está no zero a zero, várias moedas desvalorizaram e o real apreciou. E não é porque está entrando dinheiro de fora, é por causa da commodity.
E esse ciclo tem impacto sobre o PIB?
Ajuda o PIB também. Quando você olha a produção industrial, a produção da manufatura tradicional foi ruim. Quem foi o destaque de positivo? Foi o setor extrativa mineral, que é basicamente o petróleo. Então, também ajuda o crescimento.
Isso, em última instância, vai impactar também as contas públicas, né?
A presidente Dilma, quando ela vendeu os poços do pré-sal, não sei se você se lembra, mas tinha uma discussão de qual era o melhor modelo. Na época, o melhor modelo seria vender tudo porque pegava mais dinheiro, e o Brasil estava precisando de dinheiro para abater a dívida. Mas ela decidiu fazer o modelo de partilha, com as empresas doando uma parte da produção ao Tesouro no leião. Então, as empresas ofereciam pagar US$ 6 bilhões por um poço, por exemplo, doando 15% ao Tesouro, doando 17%, doando 20%. Na média, o Tesouro Nacional ficou sendo dono de 17% da produção do pré-sal.
E qual é o efeito nas contas públicas?
Isso acaba tendo impacto fiscal. Hoje em dia, quando o petróleo sobe, é bom para o governo. A cada 10 dólares que o petróleo sobe e permanece nesse patamar mais alto, o governo federal aumenta a arrecadação em 0,20% do PIB, e em 0,40% do PIB quando soma as três esferas, estados, municípios e o governo federal.
Sem contar que o governo federal ainda é o maior acionista da Petrobras.
Sim! Também por esse lado, o governo recebe mais dividendos. Então, antes a alta do petróleo só tinha a parte ruim, agora que a gente virou produtor tem uma parte ruim mas tem uma parte boa também. Mas, em termos líquidos, é melhor a gente não ter isso, é melhor com o gringo vindo para o Brasil, trazendo dinheiro, o real apreciando, isso ajuda a combater a inflação e a reduzir o juro.
Mudando um pouco de assunto, qual o impacto na economia brasileira com a retirada do tarifaço?
Olha, quando teve o tarifaço eu falei pra todo mundo que não ia ter impacto no Brasil. Por quê? A gente exporta só commoditie, e na commoditie você não consegue botar tarifa. O nosso primeiro item de exportação é petróleo, o segundo é soja, o terceiro é minério de ferro, o quarto é carne, o quinto é milho. Tudo commoditie. Os Estados Unidos falam assim, você vai pagar 10% de imposto. O exportador diz, então vou vender meu petróleo para a África do Sul, para a Índia, para a China. E eu acho que agora, com a retirada da tarifa, também não vai ter impacto nenhum.