Edição 218
Marcelo Carvalho, economista-chefe do BNP Paribas
O Brasil dá novos passos rumo à sua transformação em um centro econômico e financeiro latino-americano. Prova disso é a recente contratação de Marcelo Carvalho pelo BNP Paribas. Ele é o novo economista-chefe da instituição e, ao contrário de seu antecessor no posto, não será responsável apenas por Brasil, mas sim por toda a América Latina. A chegada de Carvalho como chefe de pesquisa econômica para América Latina do BNP Paribas se dá em meio a um processo de regionalização de funções que está ocorrendo no banco, em que postos que antes eram específicos de Brasil estão se tornando regionais.O currículo de Carvalho se encaixa bem nessa nova estratégia. Entre 2005 e 2007, ele atuou como economista no departamento de mercados de capitais internacionais do Fundo Monetário Internacional (FMI), além de ter sido membro da equipe de Brasil do fundo. A experiência, segundo o economista, lhe rendeu uma nova forma de olhar para o País – de fora para dentro. “Foi muito interessante ter essa perspectiva de como é estar do outro lado da mesa”, contou Marcelo Carvalho durante entrevista exclusiva a Investidor Institucional. Ele falou ainda sobre a visão que os estrangeiros têm do Brasil atualmente e apresentou suas expectativas em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, câmbio, inflação e juros.“A expectativa é de uma posição mais branda e confortável com o cenário de perspectiva de inflação. Há uma percepção crescente de que o Banco Central está próximo de uma pausa no ciclo de aumento dos juros”, disse ele. Na conversa, Carvalho comentou também sobre o impacto das eleições e do estresse na Europa sobre o ambiente econômico brasileiro.Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.
Investidor Institucional – Como sua experiência no FMI contribui para sua atuação hoje no BNP Paribas?
Marcelo Carvalho – Foi uma experiência fantástica que me ajuda nesse novo trabalho de pelo menos duas formas. Em primeiro lugar, no FMI eu olhava mercados emergentes em geral, particularmente América Latina, e fazia parte do Brazil team, o time de Brasil. Ou seja, eu participava das missões oficiais do Fundo Monetário Nacional ao Brasil. Eu vinha para cá com as missões não como cidadão brasileiro mas sim como economista do fundo. Isso foi muito interessante por dar essa perspectiva de como é que é o outro lado da mesa – como é ir para Brasília conversar com as autoridades entendendo qual o posicionamento do governo brasileiro e do próprio FMI em relação aos vários temas do debate macroeconômico. Isso me dá uma visão diferenciada de como o Brasil se insere no contexto internacional pela ótica do fundo, de como são as relações entre o Brasil e órgãos internacionais dos dois ângulos. O segundo aspecto é o de olhar o Brasil sob uma ótica maior. Lá no FMI eu não olhava apenas Brasil, mas também outros países do mundo, e é fascinante ter essa ótica em que se vê similaridades e diferenças. Muitas vezes nós achamos que certas coisas só acontecem no Brasil, e descobrimos que não é bem assim, que nos outros lugares a experiência é parecida e que nós podemos aprender com o que eles passam e fazem. E também o contrário: muitas coisas que nós assumimos como sendo normais não são em um contexto internacional.
II – Como o que, por exemplo?
MC – Aqui no Brasil nós olhamos, nos indicadores fiscais, o chamado superávit ou déficit primário. É para esse indicador que há metas, é isso que o mercado observa. Lá fora, em todos os outros países, o foco é no chamado superávit ou déficit nominal, que inclui sim a carga de juros. Outro exemplo também do lado fiscal: aqui o foco costuma ser na dívida líquida do setor público, que explica ativos como reserva internacional e empréstimos do Tesouro ao BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social]. Lá fora o foco tende a ser na dívida bruta.
II – E as similaridades, quais são?
MC – A experiência do Brasil com regime de metas de inflação tem, claro, suas especificidades, mas não é a única. Vários outros países do mundo seguem hoje regimes de meta de inflação e é possível aprender com a experiência deles.
II – Muito se falou que o Brasil mostrou robustez durante a crise financeira internacional por ser um dos últimos a entrar e um dos primeiros a sair dela. Isso é sentido mesmo lá fora?
MC – De fato o Brasil se saiu relativamente bem na crise. Isso aconteceu em parte porque a economia chinesa teve uma recuperação rápida e o Brasil, hoje, é muito mais sensível à economia chinesa do que por exemplo o México, que é bem mais sensível à economia norte-americana.
Esse é o primeiro aspecto importante: a resiliência, a recuperação da economia chinesa ajudou sim o Brasil. Outro aspecto é o fato de que o Brasil foi capaz, nesse último ciclo, de implementar políticas econômicas contra-cíclicas. Pela primeira vez em décadas o País foi capaz de cortar os juros em um ambiente de crise internacional. Não era assim. Tipicamente em todas as crises anteriores a história era sempre clara e previsível: os fluxos de capitais secavam para países emergentes como o Brasil, a taxa de câmbio se desvalorizava, o que provocava mais inflação, e o Banco Central tinha que subir os juros. O aumento de juros tinha um custo fiscal, era preciso apertar o cinto fiscal e isso, por sua vez, acabava agravando a recessão. Não foi assim no último ciclo. Houve sim a crise internacional e os fluxos de capital para mercados emergentes recuaram, a taxa de câmbio se desvalorizou, mas isso não se traduziu em aumento significativo das expectativas de inflação. Isso porque a credibilidade do Banco Central agora está muito mais consolidada do que no passado. O Brasil foi capaz de cortar os juros e não aumentá-los num ambiente de crise externa. Isso ajudou a tornar o País mais resiliente.
II – Os investidores estrangeiros realmente já veem isso?
MC – A percepção do investidor externo me parece francamente muito positiva em relação ao Brasil. Os fundamentos hoje do Brasil são muito melhores do eram há cinco ou dez anos. É claro que ainda há desafios, mas em termos relativos, o que eu ouço frequentemente lá fora é que o Brasil comparado a outros países do mundo está indo muito bem. Do lado fiscal, ainda há um debate se a política é a mais adequada ou não. Acredito que haja espaço para melhorar a política fiscal brasileira. Entretanto a visão de muitos investidores internacionais é de que, apesar desses desafios, comparado ao que nós vemos em outros mercados emergentes e até no mundo desenvolvido, as contas fiscais no Brasil até que estão muito bem. Então, há sim essa percepção de que o Brasil mudou de patamar, que os fundamentos macroeconômicos são de fato muito mais sólidos do que no passado e que o País merece o status de grau de investimento que ele tem. Talvez os desafios sejam mais visíveis do lado microeconômico. O ambiente de negócios ainda tem muito para melhorar, e isso inclui a carga tributária, o tempo que se leva para abrir e fechar um negócio no Brasil, a burocracia.
II – Qual a sua avaliação sobre o momento de estresse iniciado na Grécia este ano?
MC – Essa crise tem um tamanho menor hoje do que se imaginava há pouco tempo. A percepção é de que o momento de maior estresse em relação a esse tema já ficou para trás. Não que seja um assunto totalmente resolvido, ainda tem muita água para passar debaixo dessa ponte. A situação na Grécia ainda é complicada, assim como na região do euro como um todo, principalmente do lado fiscal. O cenário mais provável, na nossa avaliação, é de crescimento global moderado, mas positivo.
Moderado porque aquele crescimento forte da economia que nós víamos até antes da crise de 2008 dificilmente volta de forma sustentada tão cedo. Vários estudos do próprio FMI mostram que a história nos diz que crises que envolvem setor financeiro tendem a ser sucedidas por recuperações mais lentas e graduais. Depois de uma crise desse tipo se volta a crescer, mas não com a exuberância de antes. A boa notícia é que não parece provável um cenário de “duplo mergulho” porque as autoridades fiscais e monetárias da Europa e dos Estados Unidos estão muito atentas ao panorama econômico e prontas para reagir rapidamente e evitar esse cenário mais adverso.
II – De que forma o Brasil pode ser impactado por isso?
MC – Isso afeta o Brasil por uma série de canais, mas alguns dos principais são o fluxo de capitais para mercados emergentes e o que acontece com o preço de commodities em particular. Daí a importância especial de China para as perspectivas do Brasil principalmente do ponto de vista dos preços de commodities. Isso embora a China também tenha um papel no fluxo de capitais na medida em que muitos investidores enxergam o Brasil como uma proxy de China. Como muitas vezes é difícil investir na China diretamente por uma série de razões, muitos veem o Brasil como essa possibilidade de aplicar indiretamente na história chinesa.
II – Nós estamos em um ano de eleições presidenciais. A estabilidade econômica e financeira corre algum risco?
MC – É natural que em momentos de eleição, em qualquer país do mundo, haja alguma volatilidade em função da incerteza. Isso é perfeitamente compreensível. No entanto, a percepção é de que o Brasil hoje é uma democracia e tem um sistema político muito mais maduro do que jamais teve antes. Nós contamos com uma política macroeconômica centrada em três fundamentos: regime de taxa de câmbio flutuante, metas fiscais e metas de inflação. É um sistema que tem funcionado muito bem. E independentemente de quem venha a ganhar as próximas eleições, dificilmente teremos mudanças dramáticas nesse contexto de macroeconomia.
II – Qual a sua expectativa em relação ao crescimento da economia brasileira em 2010?
MC – Trabalhamos com um cenário em que o PIB esse ano cresce 7,2%. Isso embute uma desaceleração em relação ao último dado disponível que é o do primeiro trimestre. Nos três primeiros meses desse ano a economia cresceu a um ritmo espetacular, até insustentável. Os dados disponibilizados até agora sugerem que no segundo trimestre houve uma desaceleração significativa. A nossa avaliação é de que a tendência de crescimento da economia não é nem algo espetacular quanto foi o primeiro trimestre nem tão fraca como parece ter sido o segundo trimestre. A realidade está em um ponto no meio do caminho. Esperamos, assim, algo intermediário entre os dois extremos para este segundo semestre.
II – E para 2011?
MC – Para o ano que vem, vemos a economia crescendo ao ritmo de 4,6%, o que é mais próximo do que a maioria dos analistas julga ser a taxa de crescimento potencial da economia brasileira, na faixa de 4% a 5%.
II – O que podemos esperar em relação ao dólar?
MC – O cenário de câmbio parece favorável. Nós temos a previsão do câmbio fechando este ano a R$ 1,75 em um ambiente em que o mundo ainda apresenta uma fartura de liquidez internacional. O fluxo de capital para países emergentes como o Brasil ainda deve permanecer robusto e significativo este ano, o que ajuda a manter o real em patamares mais sustentados.
II – E a inflação?
MC – Achamos que a inflação esse ano fica em 5,2%. Para o ano que vem, prevemos uma desaceleração, mas a inflação ainda deve provavelmente ficar acima do centro da meta, de 4,5%. Para 2011, 4,9% parece ser, hoje, o cenário mais provável.
II – Qual sua expectativa em relação ao comportamento do Banco Central nas próximas reuniões sobre a taxa básica de juros?
MC – O Banco Central surpreendeu o mercado com a última decisão, ou pelo menos surpreendeu a maioria dos analistas macroeconômicos, que esperava um aumento de 75 pontos básicos, e ao invés disso veio uma elevação em meio ponto percentual. A expectativa é de uma posição mais branda e confortável com o cenário de perspectiva de inflação. Há uma percepção crescente de que o Banco Central está próximo de uma pausa no ciclo de aumento dos juros.
II – E quando eles vão voltar a cair?
MC – A grande expectativa é que os juros voltem a cair em algum momento, até porque os juros no Brasil são ainda elevados para padrões internacionais, apesar de baixos para padrões históricos brasileiros – e essa mudança de patamar reflete o processo de convergência, para baixo, do juro real e nominal no Brasil rumo a padrões internacionais. Em uma perspectiva de longo prazo, pensando nos juros ao longo dos próximos anos, parece muito provável e quase inevitável que o juro tende sim a cair. Agora, em torno dessa tendência estrutural de longo prazo, há ciclos de alta e de baixa. Em algum momento nós entraremos em um ciclo de baixa de novo, mas vai permanecer a discussão se o ciclo de alta de fato acabou ou não. Claramente o Banco Central está sugerindo uma pausa. Se essa pausa vai se transformar em um pico, ou se é apenas uma pausa temporária antes de o juro subir de novo, é o tema para debate. É possível que a economia volte a crescer ao longo do tempo, as pressões inflacionárias ressurjam e o Banco Central se veja forçado a aumentar a taxa de novo. Eu diria que em algum momento o juro vai voltar a cair sim, mas não tenho tanta convicção ainda de que esse cenário está perfeitamente consolidado e que é o fim do ciclo de alta. A pausa de que estamos nos aproximando pode ser um ponto final, mas também pode virar uma vírgula.