Edição 210
Francisco Carlos Gomes, da Cetip
Já faz algum tempo que o velho modelo em que operadores de mercado eram sócios de uma instituição prestadora de serviços e sem fins lucrativos deixou de fazer sentido. A internacionalização das transações, a necessidade de atualização tecnológica incessante e o aumento da complexidade do mercado começaram a tornar o formato mutualizado das associações totalmente inviável. A tendência em todo o mundo passou a ser transformar essas entidades em companhias abertas, comerciais, que visam ao lucro e, consequentemente, são bastante competitivas. No Brasil, foi assim a Bovespa e com a BM&F. Não seria a Cetip que ficaria de fora.
Em entrevista exclusiva a Investidor Institucional, Francisco Carlos Gomes, diretor corporativo, financeiro e de Relações com Investidores da Cetip, retoma a trajetória da empresa desde antes da desmutualização até os dias de hoje, passando pelo investimento da Advent e pela oferta inicial de ações. Ele chegou à Cetip em maio deste ano, tendo trabalhado por mais de uma década na antiga Bovespa – e, diga-se de passagem, participado de todo o processo de desmutualização e IPO da bolsa de valores paulista, bem como de sua fusão com a BM&F.
Na conversa, ele comenta o movimento mundial de desmutualização de bolsas, acrescentando que isso é acompanhado por uma onda de consolidação desse mercado. “Todo dia se tem notícia de alguma decisão na direção estratégica de consolidar ou estabelecer parcerias que provoquem ganhos de escala. E isso tudo não seria possível sob um regime mutualizado. É por isso que essas entidades, para acompanhar esses novos tempos, precisam se transformar em sociedades por ações com uma base acionária dispersa no mercado”, disse Gomes.
Ele fala ainda das estratégias da Cetip para crescer e da conjuntura favorável aos ramos de atuação da companhia. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:
Investidor Institucional – Quais as diferenças entre a Cetip de antes da desmutualização e a de agora, depois do IPO?
Francisco Carlos Gomes – De um modo geral, e com base em minha experiência em outras entidades que passaram por processos semelhantes, posso dizer que mudanças como essa costumam ser um processo, não se pode ver um delimitador. Não é como se no dia 30 de junho a Cetip fizesse a desmutualização e no dia seguinte fosse uma empresa completamente diferente. Eu diria que o principal impacto é na cultura organizacional. As pessoas estavam acostumadas a trabalhar em um regime not for profit, sem objetivo de lucro, como em uma associação cujo o principal motivo era atender adequadamente aos seus associados, e passaram a trabalhar para uma empresa for profit, em que os stakes são mais complexos, e é preciso atender aos interesses dos acionistas, dos funcionários, dos clientes, do governo e assim sucessivamente. É evidente também que em uma associação é necessário atender a alguns desses interesses, mas o interesse do associado predomina. Essa mudança cultural acaba redundando em uma empresa mais dinâmica, inovativa e pró-ativa do que um regime em que a cultura organizacional é muito mais passiva, mais reativa no sentido de só responder às demandas dos associados. Num empresa for profit as pessoas precisam ser mais inovadoras e buscar resultados que atendam às expectativas dos acionistas. Há critérios mais objetivos e racionais de mensuração de performance.
II – Nesse processo, qual foi a importância da entrada da Advent no capital da Cetip?
FCG – A associação tinha o objetivo de se transformar em uma sociedade por ações e de abrir seu capital, mas acho que, devido até à própria cultura organizacional existente no período anterior, a Cetip teve dificuldade de levar a cabo esse processo adequadamente. A vinda do fundo de private equity foi uma espécie de catalisador em duas direções: para cima, nas relações com os demais acionistas, para se ter objetivos claros e tomar todas as medidas para atingi-los; e também pra baixo, no sentido da disciplina da organização que tinha o objetivo de se transformar em uma sociedade aberta com capital listado em bolsa, para que isso fosse feito da maneira adequada e no timing adequado.
II – A desmutualização e a abertura de capital de bolsas, depositárias e administradoras de mercados de balcão organizados são uma tendência mundial?
FCG – É uma tendência já antiga, que eu acredito que tenha começado com a bolsa da Austrália há mais de uma década. Na maioria dos casos, e seguramente no Brasil em 100% deles, nenhuma dessas entidades abriu seu capital para levantar fundos – todas as empresas do segmento eram muito bem capitalizadas no período mutualizado e não precisavam abrir capital para levantar recursos adicionais para financiar seus planos de expansão. O que nós temos que olhar é o esgotamento de um modelo que fazia sentido várias décadas atrás, que é o modelo mutualizado em que os usuários do serviço são ao mesmo tempo e necessariamente associados da entidade. Esse modelo cumpriu sua função durante um período, mas deixou de fazer sentido porque a forma de conduzir uma entidade mutualizada acabou provocando mais malefícios do que benefícios, até redundando em prejuízo para os próprios participantes.
II – Que tipo de malefícios?
FCG – Com o crescimento, a modernização e a sofisticação do mercado, o conflito de interesses que existe quando a entidade presta serviço para os seus associados atinge tamanha proporção que começa a produzir deseconomias para as instituições. É por isso que, gradativamente, essas entidades foram deixando esse modelo em que os donos eram usuários dos serviços e foram criando empresas das quais os investidores compravam ações com propósito de lucro. Assim essa empresa é capaz de manter uma relação comercial com os usuários. Isso faz com que as decisões da companhia tenham mais racionalidade, e também com que ela ganhe maior dinamismo para atender até às demandas do próprio mercado e dos participantes, que de outra forma não seriam atendidos por causa desses impasses e conflitos de interesse. O segmento de fornecimento de infraestrutura para o mercado cresce muito rapidamente. E com a maior penetração do mercado de capitais e financeiro na economia, além da crescente internacionalização das transações, o modelo mutualizado ficou bastante antiquado, anacrônico e ineficiente. Além disso, esse é um setor motivado pelo ganho de escala. Tanto é que, junto com a desmutualização, o que se observou no mundo foi um grande movimento de consolidação do setor.
II – Que operações caracterizam esse movimento, por exemplo?
FCG – Houve a fusão da NYSE com a Euronext, os movimentos da Nasdaq com a Bolsa de Londres e as bolsas dos Países Nórdicos, a consolidação que a Euronext fez, anteriormente, com algumas bolsas europeias como de Portugal, Holanda e Bélgica, os movimentos da Deutsche Bourse, que comprou uma bolsa de opções nos Estados Unidos, e todas as iniciativas da Chicago Mercantile, ou adquirindo bolsas ou fazendo parcerias estratégicas no mundo. Todo dia se tem notícias de alguma decisão na direção estratégica de consolidar ou estabelecer parcerias que provoquem ganhos de escala. E isso tudo não seria possível sob um regime mutualizado. É por isso que essas entidades, para acompanhar esses novos tempos, precisam se transformar em sociedades por ações com uma base acionária dispersa no mercado. É para acompanhar essas mudanças que ocorrem no segmento.
II – E no caso da Cetip, qual tem sido e qual será a atuação no sentido de estabelecer parcerias e acompanhar esse cenário de consolidação?
FCG – Felizmente estamos em um segmento que tem um prospecto de crescimento muito bom no Brasil. O sistema financeiro está aumentando sua penetração na economia real a uma velocidade muito grande, e o País também está se abrindo mais para o exterior. Nós temos foco no mercado local, mas estamos abertos a parcerias estratégicas desde que isso traga benefícios em termos de tecnologia. A ideia é que possamos internalizar tecnologias que nos permitam atender com mais eficiência e eficácia ao mercado local. Essas parcerias fazem sentido para nós.
II – Há parcerias em fase de estudos?
FCG – Estamos olhando parcerias focadas em aspectos específicos de tecnologia. Para o desenvolvimento, por exemplo, de um determinado produto, nós temos o projeto de colateral management, que permite implementar operações bilaterais garantidas por uma terceira parte. Nos interessa adquirir o sistema em que essas funções performam ao invés de desenvolvê-lo internamente. Por isso estamos examinando, por exemplo, provedores dessa tecnologia, que podem ser meramente provedores de software ou outras entidades semelhantes, outra bolsas, outras depositárias de fora que queiram nos fornecer a sua tecnologia pra que nós a apliquemos no mercado local.
II – Vocês estão de olho em aquisições?
FCG – Eu diria que à primeira vista não. Olhando o universo que nós temos, principalmente no Cone Sul, não visamos nada que faça sentido em termos de aquisição. E isso tanto pela escala de operação como por todo o crescimento orgânico que nós podemos ter no mercado. Não queremos perder o foco primário no mercado local, e eventuais aquisições de depositárias ou empresas semelhantes em outros países, nas circunstâncias atuais, muito provavelmente resultariam em perda de foco sem grandes acréscimos para a expansão das operações da companhia.
Nós queremos obter melhores resultados nos concentrando no crescimento orgânico interno.
II – De que segmento de atuação virá o crescimento mais expressivo da Cetip?
FCG – Nós somos fundamentalmente uma depositária e uma registradora de títulos de renda fixa, de instrumentos que financiam as instituições financeiras ou as corporações e de instrumentos de securitização. A primeira fonte de crescimento é a expansão do crédito no mercado local. O Brasil ainda tem uma penetração do crédito muito baixa em relação ao PIB, as melhores estimativas dizem que talvez isso atinja 54% no ano que vem, o que é muito pouco comparado a outras economias. Nós já podemos verificar, no período presente, um crescimento acentuado do crédito ao consumo, além do maior desenvolvimento do crédito imobiliário e também ao agronegócio, mas o fato é que o crédito ainda tende a crescer muito no Brasil. Com isso, haverá mais emissões de títulos pra financiar esse crédito, mais registros desses títulos e mais serviços de custódia e depósito para eles. Essa seria uma fonte primária de crescimento das nossas transações. A Cetip é também um repositório de derivativos no mercado de balcão. No mundo, o mercado de balcão de derivativos é muito maior do que o mercado de negociação em bolsa, enquanto no Brasil ocorre o fenômeno oposto. Portanto, nossa expectativa é de que, com o avanço do mercado brasileiro, e conforme ele ganhar maior complexidade, for um player sofisticado, se abrir mais para exterior e fornecer serviços mais sofisticados para a clientela, haja um desenvolvimento maior das operações com derivativos de balcão. A tendência de queda das taxas de juros no longo prazo ajudará e, com a estabilização da economia brasileira, o aumento do prazo de emissão dos títulos fará com que haja maior necessidade de se operar derivativos e derivativos de balcão. Nós imaginamos que esse segmento será uma fonte de crescimento de longo prazo bastante importante.
II – O senhor citou fatores conjunturais que devem levar a um aumento da demanda pelos serviços da Cetip. Mas o que a empresa está fazendo para crescer?
FCG – No curtíssimo espaço de tempo, os volumes são dados pela conjuntura, mas no longo prazo são dados pelas decisões que a administração toma para colocar a empresa na situação adequada para atender às demandas existentes no mercado. Tem a ver com como eu desenvolvo a minha plataforma de tecnologia – é preciso definir hoje que tecnologia eu vou ter daqui a três anos para atender às demandas que o mercado terá lá na frente. Se eu posicionar a companhia erroneamente, não vou capturar um eventual crescimento das demandas. É evidente também que nós podemos incentivar a escala de operações trabalhando inteligentemente o portfólio de produtos e serviços da companhia, mas tudo isso segue esse contexto mais geral. Eu determino a minha escala de operação no longo prazo pela forma como eu posiciono a companhia estrategicamente. Por exemplo, até pouco tempo atrás todos os negócios eram feitos em viva-voz. Se uma determinada entidade não investisse, há alguns anos, em plataforma eletrônica de transação, hoje ela não conseguiria capturar o volume de transações existentes no mercado, porque ela não teria como. Isso vale pra toda e qualquer empresa desse segmento. Eu capturo a demanda posicionando corretamente o portfólio de produtos e a tecnologia da companhia para o futuro.
II – Na época do IPO, circularam na imprensa e no mercado rumores de que seria dado início a uma concorrência entre a Cetip e a BM&FBovespa, com a Cetip tendo a intenção de atuar como uma plataforma alternativa para negociação de ativos…
FCG – O nosso foco é o nosso próprio nicho de mercado. Nós temos muita coisa pra fazer no nosso nicho, que tem muito potencial de crescimento.
Nós queremos trazer valor adicionado, agregar valor para os nossos acionistas e pra o mercado como um todo. Não faz sentido ficar criando produtos redundantes. Temos muito o que crescer no nosso segmento para desviar recursos em outras aventuras.