“Vamos superar 2006”

Edição 177

Lucy Souza fala sobre o aquecimento do mercado de capitais

O crescimento do mercado de capitais, assim como a volta de várias corretoras estrangeiras que haviam deixado o País nos últimos anos, pegou muita gente de surpresa. Na verdade, elas estão voltando entusiasmadas com o movimento do mercado, que no ano passado distribuiu R$ 125 bilhões, incluindo debêntures, ações e Fidcs. Para a nova presidente da Apimec-SP, Lucy Souza, que tomou posse no cargo no dia 30 de janeiro junto com sua nova diretoria, o volume a ser distribuído neste ano deve ser ainda maior. “A tendência é de crescimento”, disse ela em entrevista à Investidor Institucional.
Formada em economia e ciências sociais pela USP e doutora em economia pela Unicamp, Lucy atua no mercado de capitais há 26 anos. Também é professora de cursos de graduação e MBA na Fipecafi, Ibmec-SP e Unicamp. Segundo ela, as empresas que fizeram IPO recentemente e estão no Novo Mercado, ainda precisam provar no dia-a-dia “se são realmente uma companhia do Novo Mercado”. Veja, a seguir, os principais trechos da entrevista que ela deu à Investidor Institucional:

Investidor InstitucionalQual a sua avaliação sobre esse momento do mercado de capitais?
Lucy Souza – O mercado vem crescendo sob todos os aspectos. No ano passado foram distribuídos R$ 125 bilhões e esse movimento continua forte nesse ano. Pelos dados da CVM, até 12 de fevereiro já tinham sido distribuídos R$ 10 bilhões, e acredito num crescimento robusto em 2007.

IIVocê acha que este ano vai superar 2006?
LS – Com certeza. Mantendo-se os dados macroeconômicos externos e internos, a tendência é de crescimento. Acho que vamos superar os R$ 125 bilhões do ano passado.

IIDo total do ano passado, qual foi a participação de ações e títulos?
LS – Dos R$ 125 bilhões que falei, R$ 27 bilhões foram ações, R$ 70 bilhões foram debêntures e o restante foram Fidcs.

IIO crescimento das bolsas é sustentável no longo prazo?
LS – Acho que sim, porque hoje os pregões são muito mais representativos da economia real em relação ao que eram no passado. Só para dar alguns exemplos, hoje temos uma empresa como a Natura, do setor de cosméticos, o que é uma novidade. Só da construção civil, um setor que no passado era escassamente representado, temos 15 empresas. Além disso, há um forte interesse do investidor estrangeiro no nosso mercado, e ele representa 70% do volume consolidado entre o mercado nacional e as ADRs. Isso tem que ser levado em conta.

IIAs corretoras estavam preparadas para enfrentar esse crescimento?
LS – Mais ou menos, na prática muitas ainda estão se preparando. Os grandes coordenadores, que lideram as distribuições, estão trabalhando muito mais em função disso. Tem consultores, advogados e auditores ligados ao processo de abertura de capital e distribuição de valores mobiliários que estão trabalhando dobrado.

IIA sua expectativa é que o mercado de capitais continue em alta?
LS – Acho que sim, pois há uma combinação de forte crescimento mundial, com razoáveis níveis de liquidez internacional, com um crescimento da economia interna que neste ano deve ser um pouco maior em relação ao que foi no ano passado. Considerando esses dois panos de fundo, os investidores estão buscando oportunidades onde ainda existe alguma diferença nos preços relativos entre o mercado brasileiro e outros emergentes. E essas oportunidades ainda existem.

IIPorque se abriu essa diferença de preços?
LS – Isso tem a ver com a redução de risco-Brasil, tem a ver com a expansão dos resultados das companhias, tem a ver com um conjunto de variáveis que já são visíveis aos olhos do investidor estrangeiro.

IIO mercado tem ativos suficientes para sustentar a continuidade desse processo de crescimento?
LS – Você está levantando uma coisa que muitos comentam, suspeitando que os IPO’s das novas companhias estão sendo precificadas muito alto.
De início, como essas empresas estão sendo lançadas num ambiente novo de negociação, naqueles níveis do Novo Mercado ou pelo menos nível 1, acabam sendo melhor precificadas. Além disso, também há uma liquidez muito grande no cenário internacional, e são os investidores estrangeiros que estão suportando essa melhor precificação dos IPOs.
Então, enquanto houver apetite por parte do investidor estrangeiro será possível manter esses lançamentos com preços, digamos assim, acima dos múltiplos tradicionais.

IIQuer dizer, é o mercado que está sancionando os preços?
LS –É isso mesmo. Quem está comprando esses IPOs está vendo oportunidades de valorização mesmo a esses preços. Quem forma o preço nesses IPOs é substancialmente a demanda. Então, tem investidores de todos os matizes sancionando esses novos níveis de preços. Se eles estão fazendo isso é porque, efetivamente, estão vendo a possibilidade de algum ganho apesar desses níveis de preços.

IIE os investidores nacionais, que ainda estão praticamente fora desses IPOs, vão entrar em algum momento?
LS – Vai depender, principalmente, do ritmo da queda das taxas de juros daqui para a frente, pois a renda fixa ainda é muito apetitosa e tem muito investidor que ainda prefere ficar na renda fixa e em títulos do governo. Mas, mesmo acreditando que a taxa de juros devesse cair mais rapidamente, continuando no ritmo atual aos poucos vai haver um deslocamento de investimentos dos investidores domésticos para ações e underwriters.

IIOs próximos IPO’s, na tua opinião, serão dentro do Novo Mercado?
LS – Acho que sim, a não ser que alguma empresa tenha algum tipo de obstáculo, algum problema regulatório. Do contrário, será sempre dentro do Novo Mercado. Se você olhar a lista de abertura de capital da Bovespa, praticamente só tem Novo Mercado. Há uma demanda muito grande por empresas do Novo Mercado.

II – Na década passada, uma série de grandes empresas fechou o capital no Brasil. Elas podem voltar a abrir seu capital?
LS – Muitos fechamentos tiveram a ver com empresas que foram privatizadas, outros com as fusões e aquisições promovidas pelo capital estrangeiro, outras ainda com as janelas de oportunidade que se fecharam nos últimos anos e levaram desânimo para aquelas empresas que tinham ido ao mercado de uma forma mais oportunista, sem ter o estilo de empresa de capital aberto. Acho que essas últimas não vão voltar ao mercado, até porque muitas delas tiveram grandes mudanças societárias nos últimos tempos.

IIAs empresas que fizeram IPO, recém-chegadas ao mercado de capitais, já nasceram com vocação para capital aberto?
LS – Elas, digamos assim, foram preparadas por consultores para serem companhias abertas, mas muitas ainda têm que fazer o aprendizado.
Embora estejam no Novo Mercado e atendam a todas as demandas para estarem neste segmento especial de negociação, é no dia-a-dia que elas vão mostrar se são realmente uma companhia do Novo Mercado. Mas, de qualquer maneira, são empresas que já nasceram com uma cultura de mercado de capitais. É diferente daquela onda dos anos 80, do Plano Cruzado, quando a empresa abria o capital e continuava como se fechada fosse.

IIHoje as empresas abertas estão mais transparentes ao investidor?
LS – Como muitas delas trazem esses apelos de governança, elas estão buscando se apresentar mais, ser mais transparentes. Então, por exemplo, a freqüência de reuniões com investidor tem aumentado, muitas empresas que antes se apresentavam uma vez por ano agora se apresentam até quatro vezes. Os sites que as empresas têm hoje também são muito mais abrangentes, disponibilizam uma série de informações muito prontamente. Enfim, há todo um esforço de transparência do qual estas empresas procuram satisfazer essa demanda de comprometimento e de aproximação e de transparência com o mercado.

IIUm dos grandes problemas do mercado de capitais é a falta de um mercado secundário. Como resolver isso?
LS – Isso ainda não está devidamente equacionado. Veja, na verdade uma parte das operações de debênture são de leasing para arrendamento mercantil, não são companhias de fato abertas cujos emissores pretendam dar liquidez a essas debêntures no mercado secundário. Além disso, tem muita coisa de emissores normais que fica entesourada.

IIQual seria o melhor mecanismo para criar um mercado secundário para esses papéis?
LS – A CVM propôs aquelas debêntures padronizadas, que viabilizaria uma maior negociabilidade porque seria uma coisa mais padronizada. Mas a gente sente que não há muito interesse por parte dos intermediários em dar essa liquidez, porque eles têm uma colocação muito fácil junto às tesourarias, junto aos grandes investidores. Eu acho que os próprios coordenadores deveriam estimular mais o mercado secundário.

IICom o aquecimento do mercado de capitais, já se nota escassez de mão de obra. Está faltando profissionais?
LS – Há uma expansão muito grande do mercado e já se começa a perceber essa sensação de escassez de profissionais, principalmente de profissionais com certificação. Já está faltando analistas para o sell-side, por exemplo

IITem corretoras estrangeiras que tinham deixado o mercado e estão voltando. Será que é isso?
LS – Também, mas não é só isso. Você realmente tem um crescimento de volume de operações, um aumento das operações. Então, como muitas casas estão formando ou ampliando suas equipes, é natural alguma escassez como ocorre em qualquer outro mercado em expansão. Mas não é nada que possa comprometer o crescimento do setor.

IITem aumentado a demanda por certificação para profissionais da área?
LS – Aumentou sim. Nós vamos promover o exame de março com 80 pessoas inscritas. Pode parecer pouco, mas esse número está crescendo ano a ano.

IIQuantas eram normalmente?
LS – Há 3 anos atrás eram cerca de 20 inscritos por exame, depois passou para 40 inscritos, a seguir 60 inscritos e agora serão em torno de 80 inscritos. Também está tendo uma demanda forte para que façamos exames a cada 3 meses, ao invés de 6 meses.

IIHoje, quem sai com certificado, já sai com emprego garantido?
LS – Na verdade, a maior parte dos que se inscrevem já está empregada. Prestam o exame por isso, para poderem se registrar na CVM e dar opiniões, fazer relatórios etc.

IIQuantos analistas há no mercado?
LS – No Brasil inteiro são em torno de 2 mil profissionais, dos quais um terço está em São Paulo.