Ele disse não à Sadia

Edição 172

Sérgio Rosa, presidente da Previ, conta porque os fundos recusaram a oferta da Sadia para comprar a Perdigão

Foi a primeira mas não será a última. Pelo menos essa é a sensação de todo o mercado, e dos institucionais em particular, sobre a oferta hostil que a Sadia fez pelo controle das operações da Perdigão. Se pegou de surpresa a todos, imagine o susto que não causou na diretoria do fundo de pensão Previ, o maior proprietário de ações da cobiçada Perdigão.
Distanciado daquela semana de clima hostil, com duas propostas de compra levadas às páginas dos principais jornais, Sérgio Rosa, presidente da Previ, acha que esse tipo de tomada de controle poderá ser mais comum daqui para frente, fruto do próprio amadurecimento do mercado de ações. Quando foi para o Novo Mercado da Bovespa, a Perdigão sabia que a oferta hostil entraria em sua pauta. Por sua vez, os maiores acionistas também souberam agir em bloco quando viram que a proposta estava abaixo do valor que eles julgavam coerente com o desempenho da Perdigão. A Previ, no episódio, exerceu a linha de defesa de seus interesses, como já faz em casos como Brasil Telecom, Bombril e Arcelor, dentre outros. A seguir, os principais trechos da entrevista que Rosa concedeu à Investidor Institucional:

Investidor InstitucionalPorque a Previ recusou a proposta da Sadia para a compra das ações da Perdigão?
Sérgio Rosa – Especialmente porque consideramos o preço muito abaixo do valor real da empresa.

IIVocês têm uma avaliação diferente da apresentada por eles?
SR – Temos uma visão da empresa e achamos que ela tem um valor maior do que aquele que foi apresentado pela Sadia nas duas propostas.

IIO que vocês consideram que seja o preço justo da empresa?
SR – Não podemos falar sobre esse preço, mas acreditamos, com certeza, que é um preço maior. Não só nós temos essa certeza, como os demais acionistas que acabaram rejeitando a oferta colocada pela Sadia também têm. Achamos que a Perdigão tem um valor bem maior do que o que foi proposto.

IIEsta negociação poderá ser reaberta ou está definitivamente encerrada?
SR – Quem definiu aquele modelo de negociação, por oferta hostil, não se sujeita a nenhuma negociação. É importante que isso fique bem claro: não foi aberto nenhum espaço para negociações. Basta ler as condições em que a oferta foi colocada pela Sadia. O texto dizia, inclusive, que não aceitaria nenhum novo preço, mesmo que a Perdigão viesse a contratar um laudo de avaliação e esse indicasse um valor superior ao ofertado. Então, não havia nenhum espaço para negociações, era aderir ou não aderir à oferta.

IIEsse modelo de tentativa de compra colocado pela Sadia, de oferta hostil, pode crescer no mercado brasileiro?
SR – Acho que sim. É uma tendência bastante comum em outros mercados, em outros países, e pode crescer também no Brasil. A regulamentação mais moderna do mercado de ações, o amadurecimento do nosso mercado, pode fazer com que mais ofertas desse tipo surjam.

IIEm relação aos outros acionistas da Perdigão, os minoritários, vocês tiveram algum tipo de reunião para explicar o posicionamento do grupo de controle?
SR – Não é um bloco de controle, nós não temos mais o acordo de acionistas, é importante que fique claro isso também. Nós temos um acordo de voto transitório enquanto se vai aprendendo e vai migrando para um padrão de capital pulverizado. Então, nós não tínhamos e nem temos essa condição e nem fomos demandados por outros acionistas para fazer qualquer discussão sobre a recusa da oferta da Sadia.

IIVocês não foram procurados pela Sadia antes da oferta de aquisição? Foram mesmo surpreendidos por ela?
SR – Sim, totalmente surpreendidos. Não houve nenhuma conversação anterior.

IIQual sua visão sobre a união de duas empresas como a Sadia e Perdigão? Ela criaria uma empresa de porte mundial no setor de alimentos?
SR – Falando, em tese, sim. Obviamente, são duas empresas importantes e a fusão das duas criaria uma empresa com maior capacidade de competição. Isso é bastante simples para avaliar, mas não para realizar.

IIQuais os próximos passos da Perdigão, após rejeitar a oferta?
SR – Vamos continuar disputando mercado com a Sadia. A Perdigão vem mantendo uma trajetória de crescimento, inclusive a sua evolução para as condições do Novo Mercado tem como um dos objetivos criar alternativas de financiamento para crescer, além de incrementar a governança corporativa. Então, tudo isso a empresa já vinha implementando e tinha sido anunciado quando fez a sua transformação societária na bolsa de valores.

IIMudando um pouco de assunto, como está hoje a carteira de ações da Previ em relação aos limites da 3.121?
SR – Nosso porcentual continua elevado, por volta de 60%, mas isso se dá em função da própria valorização que as ações tiveram nos últimos três anos. E isso ocorre apesar de termos feito muito mais vendas do que aquisições nesse período.

IIVocês continuam vendendo participações para buscar o enquadramento?
SR – Continuamos, claro.

IIO que você acha da intenção da SPC de flexibilizar a 3.121, conforme declaração recente do secretário Leonardo Paixão?
SR – Existe alguma discussão e uma expectativa nesse sentido, mas não sabemos ainda quais pontos seriam flexibilizados. Porém, entendemos que existe margem para flexibilizar algumas das condições impostas pela 3.121, pois o sistema previdenciário evoluiu, assim como o ambiente de negócios também.

IIO momento é bom para vender ações?
SR – O bom momento para vender varia. Acho que o mercado tem dado sinais de bastante maturidade, obviamente sujeito a algumas altas e baixas, mais em função das más notícias internacionais do que dos nossos problemas internos. E o bom momento também varia também de empresa para empresa, de setor para setor, mas o mercado permanece bom para operar, com volume de operações satisfatório. Enfim, o mercado está ficando cada vez mais líquido, o que é saudável.

IIFalando em vender, como está a situação da Brasil Telecom? O sócio italiano, a Telecom Itália, disse recentemente que estaria disposto a vender a parte dele e não a comprar.
SR – A gente também recebeu esse anúncio a partir da comunicação da direção da Telecom na Itália. Nossos representantes têm feito contatos com o JP Morgan, que é o banco que eles nos indicaram como adviser.
Estamos aguardando, nesse momento, se vamos fazer um trabalho conjunto entre os vários sócios.

IIE com relação à direção da Brasil Telecom, está resolvida a disputa com o Opportunity?
SR – Tem muitas questões na Justiça, mas estão estáveis, vamos dizer assim. As últimas decisões da Justiça mantiveram a situação num nível de estabilidade, ou seja, o controle nosso sobre a empresa está razoavelmente tranqüilo.

IIOutras participações da Previ também sofrem efeito de grandes acordos que estão sendo feitos no mercado internacional. Uma delas é na Arcelor, comprada pela grupo Mittal, que disse que não tem interesse em comprar a parte dos minoritários. O que a Previ fará?
SR – O que entendemos da operação da Mittal foi aquilo que já saiu publicado, que a empresa deveria fazer uma oferta aos minoritários pois a compra reduziu muito a liquidez das ações da Arcelor. Nós inclusive recorremos à CVM e ela teve um entendimento parecido com o nosso, de que houve efetivamente uma troca de controle e que eles deveriam fazer uma oferta aos minoritários. Não sabemos ainda se eles vão recorrer ou não dessa decisão. Não tem nenhum encaminhamento. Até o momento a situação é essa.

IIEsse entendimento da questão pela CVM é mandatório ou é só um entendimento?
SR – Nós entendemos que é mandatório e a menos que eles obtenham algum recurso eles terão que cumprir.

IIOutra participação da Previ envolvida em polêmicas é a da Bombril. Como está a situação societária na empresa?
SR – A Bombril é uma participação nossa que tem ações na Justiça, reivindicando, basicamente, que o antigo controlador cumpra o contrato de compra da nossa participação. É uma questão complicada pela situação do controlador e, por outro lado, pela situação da própria empresa, que agora retornou ao comando do Ronaldo Ferreira, acionista da família fundadora.
Enquanto empresa, estamos sempre esperando que ela tenha bons resultados.

IIAs brigas societárias não atrapalham o seu crescimento?
SR – Nós não somos acionistas controladores, não fazemos parte do bloco de controle da Bombril e nem temos interesse em assumir uma posição de controle da companhia. A única coisa que nós queremos, como acionistas, é ter certeza que a companhia está se desenvolvendo e produzindo crescentemente. Queremos estar o mais longe possível desta grande confusão societária, gerada, infelizmente, pelo antigo controlador que acabou demonstrando ser incapaz de honrar os compromissos que tinha assumido. Resumindo, é uma situação em que temos, por um lado, ações na Justiça tentando resguardar nossos direitos e por outro somos acionistas da empresa, condição na qual sempre queremos que ela tenha um desempenho positivo.

IINão temem que a briga na Justiça acabe atrapalhando o desempenho da companhia?
SR – Não é uma briga com a empresa Bombril, de maneira nenhuma, pelo contrário. Queremos que ela tenha o melhor desempenho possível e o que pudermos fazer para ajudar nesse sentido estaremos fazendo.

IICada vez mais os fundos de pensão tem travado disputas judiciais com as empresas nas quais tem participação. Por que isso tem acontecido?
SR – Acho que é uma posição normal. Em qualquer lugar do mundo os investidores institucionais, enquanto acionistas, têm que assumir uma posição bastante ativa. As vezes uma disputa judicial, uma representação na CVM, não são factíveis para o investidor que tem um volume de capital pequeno, uma estrutura pequena para poder sustentar uma disputa desse tipo. Mas os grandes investidores têm condições e têm razões para fazer isso. Então, eu não vejo isso como uma atitude negativa, acho que é uma característica dos investidores institucionais a nível mundial.

IIPorque você acha que é uma característica mundial?
SR – Hoje, em todos os países se discute a questão da governança, se exige inclusive que os grandes acionistas, especialmente os fundos de pensão, sejam ativos. Se exige que os fundos de pensão não sejam investidores puramente passivos, que ficam distantes da gestão da empresa, que ficam sem tomar posição diante das coisas que acontecem nas empresas. Enfim, acho que estamos cumprindo nosso papel, acho que é um papel em linha com a nossa responsabilidade. Acho normal que existam pendências, dúvidas, disputas no mundo dos negócios onde cada parte procure puxar a sardinha para o seu lado, mas quando isso acontece e vai além daquilo que a gente entende que é legal, então a gente vai à Justiça para defender nossos interesses.

IIComo estão os novos investimentos da Previ, o que está fazendo, para onde está mirando nos próximos anos em termos setoriais?
SR – Nossa pauta de investimentos novos é muito pequena, muito restrita. A única coisa planejada que temos são os investimentos em fundos de private equity vinculados à infra-estrutura. Anunciamos recentemente investimentos naquele fundo Infrabrasil, constituído por fundos do Bid e outros fundos de pensão também. Então, a única pauta nova de investimentos que nós temos é essa.

IIVocê está se referindo aos R$ 100 milhões do fundo de private equity? Mas é tudo para investimento em infra-estrutura?
SR – Em geral os projetos estão voltados para infra-estrutura, mas não são unicamente para isso. Existem alguns fundos voltados para pequenas empresas, empresas emergentes, mas os maiores volumes são voltados para a infra-estrutura, que é o setor em que há uma expectativa grande de que surjam novos negócios e oportunidades interessantes.

IIVocês estão analisando setores novos para fazerem investimentos diretos?
SR – Não, não estamos buscando nada nesse momento.

IIVocês fizeram algumas mudanças no primeiro semestre, pretendem fazer mais mudanças neste semestre?
SR – Não, não temos nada planejado. No primeiro semestre nós tivemos duas mudanças importantes. Foram mudanças do plano naquele item que chamamos “parcela Previ”, que alterou uma forma de cálculo do benefício, e a outra mudança foi a redução das contribuições em 40%, tanto dos participantes quanto para o banco.

IIE isso foi fruto do superávit nos últimos anos?
SR – Sim, do superávit obtido com nossos investimentos.

IIAlguns profissionais do mercado criticaram essa decisão da Previ, de reduzir a contribuição, dizendo que era um ótimo momento para se ajustar o plano do ponto de vista da tábua da mortalidade. Como é que você vê essa colocação?
SR – Isto também está sendo feito. Nós já tínhamos tomado a decisão, no ano anterior, de ajustar a tábua de mortalidade. Com certeza, não vamos deixar de fazer nenhum ajuste atuarial que seja relevante e, mesmo assim, temos condições de fazer a redução da contribuição. O nosso balanço demonstra isso com bastante clareza.