Edição 3
Com o fim da taxa de corretagem obrigatória, de 0,5%, deve aumentar a disputa entre corretoras de bancos e independentes
A extinção da tabela de corretagem nas compras e vendas de ações, determinada pelo Conselho Monetário Nacional em sua reunião do final de setembro, deve acirrar a disputa entre as corretoras ligadas a bancos e as independentes. Com o fim da tabela, que estabelecia a cobrança de 0,5% sobre o valor da transação, as corretoras ficaram livres para cobrar o que bem entendem do cliente.
Para as corretoras ligadas a bancos, isso é ótimo. A corretagem com taxa zero poderá ser usada como uma forma de atrair e fidelizar clientes, que darão lucros para o banco em outras áreas ou com a compra de outros serviços. Já para as corretoras independentes, que não têm nenhum outro negócio a não ser intermediar a compra e a venda de ações, a situação é péssima. “Se deixamos de cobrar pela corretagem, quem é que vai pagar os nossos custos?”, pergunta José Feres, operador de bolsa da corretora Magliano.
A Magliano é uma das maiores corretoras independentes do mercado.
Hoje negocia uma média de R$ 10 milhões por dia, nas bolsas. “O movimento já foi melhor. No começo desse ano negociávamos mais de R$ 25 milhões por dia”, conta Feres.
Segundo ele, o fim da tabela de corretagem torna mais crítica a situação das corretoras independentes, que não têm outra fonte de receita. “Não vamos mudar nada. Vamos continuar seguindo a tabela de corretagem e avaliar o poder de barganha do investidor”, diz Na verdade, tanto as corretoras independentes quanto as ligadas aos bancos já operam com descontos há bastante tempo, na forma de devolução de parte das taxas aos clientes, dependendo dos volumes de investimento. A Magliano, por exemplo, devolve 50% da taxa paga aos aplicadores de quantias superiores a R$ 100 mil, e entre 80% e 90% para volumes acima de R$ 1 milhão. “Mas, não temos como devolver 100% da taxa”, diz Feres.
As corretoras ligadas aos bancos, entretanto, poderiam fazer isso. “A tendência hoje, no mercado financeiro, é fidelizar o cliente e trabalhar junto a ele com um pacote de tarifas”, afirma o presidente da corretora Banespa, Flávio Roberto Pelisson. Para ele, isentar o cliente da taxa de corretagem por ele manter outras aplicações no banco (como fundos, poupança, CDB), não significa concorrência predatória.
Devolução – De acordo com Pelisson, hoje a corretora Banespa devolve entre 70% e 80% da taxa aos grandes investidores. Mas isso pode mudar, dependendo do que as outras corretoras vierem a praticar e de um aumento no volume financeiro da bolsa, explica o presidente da corretora. “Vamos acompanhar a tendência do mercado”.
A corretora FonteCindam, ligada ao banco do mesmo nome, também declara que vai acompanhar o mercado. “Ninguém está mexendo nas taxas de corretagem, ainda, porque o volume negociado em bolsa diminuiu muito”, afirma um operador da corretora. “Porém, isso pode vir a ocorrer se houver uma elevação dos volumes de negócios”.
Ele não acredita que as corretoras ligadas aos bancos cheguem a devolver 100% das taxas, apenas para manter o cliente. “A corretora, tanto a independente quanto a ligada aos bancos, vive da prestação de serviços, como é que vai devolver toda a sua receita?”, questiona. Segundo ele, as operações para os pequenos investidores podem até tornar-se mais caras, porque eles não têm poder de fogo para negociar descontos.
“Não vamos cobrar a mais de ninguém, para não perdermos a contabilidade. Podemos até diminuir a taxa de corretagem, mas só quando o mercado estiver mais normalizado”, diz um analista da corretora Solidez. Ele não acredita que as corretoras independentes possam perder clientes por causa de concorrência predatória dos bancos.
O gerente da mesa de operações da corretora Patente, Jair Oliveira Costa, discorda dele. “É uma concorrência desleal o grande banco oferecer taxa de corretagem zero na intermediação”, afirma. “Sou a favor da extinção da tabela, mas é preciso ter alguma coisa como referência”.
Informações – O que pensam os investidores? Para Cezar Mauricio Cossenza, economista com uma carteira de ações calculada entre R$ 50 mil e R$ 70 mil, a liberação da taxa de corretagem não vai mudar nada. “Sou um investidor pequeno e recebo uma devolução média de 70% nas minhas transações. Mas o que me interessa, mesmo, é saber se a corretora com quem opero está bem munida de informações”, diz Cossensa.
O engenheiro Oscar Salomão, com uma carteira de R$ 70 mil em ações, acha que a liberação da taxa é benéfica para os investidores individuais.
Ele aposta que a taxa de corretagem vai cair dos atuais 0,5% para 0,1% no caso de grandes quantias. “Para o investidor pessoa física, acho que deve ficar em 0,2%”, prevê. “Essa redução das taxas vai estimular o mercado de ações”.