Entidades previdenciárias paraguaias tinham exposição ao Ueno

A intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank, maior banco digital do país, revelou uma exposição próxima de US$ 850 milhões em recursos públicos. A instituição tinha como fundador e vice-presidente Federico Miguel Vázquez Villasanti, controlador do Grupo Vázquez, conglomerado do qual o presidente do país, Santiago Peña, foi sócio por meio da Ueno Holding até março de 2025.

A proximidade entre o presidente e o grupo controlador do banco, somada ao volume de recursos públicos comprometidos, levou milhares de paraguaios às ruas e motivou a apresentação de um pedido de impeachment. Peña tentou antecipar o desfecho ao apresentar sua renúncia, mas a Câmara dos Deputados aprovou, por 78 votos a zero, a abertura do processo. Como a sessão convocada para examinar a renúncia terminou sem quórum, o presidente permanece formalmente no cargo enquanto o Senado se prepara para julgá-lo.

Dos cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos administrados pelo Ueno, aproximadamente US$ 450 milhões pertencem a cinco instituições previdenciárias. O valor inclui US$ 355 milhões informados diretamente pelo Instituto de Previsión Social (IPS) e aplicações declaradas ou atribuídas às outras quatro entidades previdenciárias.

Os valores não representam perdas definitivas, mas aplicações e depósitos imobilizados cuja recuperação dependerá do levantamento dos ativos e passivos do Ueno e do mecanismo de resolução escolhido pelo BCP. Uma das dificuldades das entidades previdenciárias é que o Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) cobre o equivalente a US$ 37,1 mil, na moeda paraguaia, o guarani, por depositante ou instituição. E as exposições das instituições superam esse limite em centenas ou milhares de vezes .

Exposição do IPS – O IPS, responsável pela previdência dos trabalhadores paraguaios, tem cerca de US$ 355 milhões aplicados no Ueno, equivalentes a cerca de 9% de sua carteira de investimentos. Os recursos estão distribuídos entre certificados de depósito de poupança (CDAs), bônus financeiros e depósitos à vista.

A gerente financeira do IPS, Gladys Vera, afirmou que os pagamentos mensais dos benefícios são financiados pelas contribuições de trabalhadores e empregadores e não dependem diretamente das aplicações. “O IPS tem investido em 14 instituições bancárias e conta com essa disponibilidade para fazer frente aos pagamentos”, declarou.

O IPS apresentou ao BCP os documentos necessários para se habilitar como credor privilegiado. “É apenas um começo. Agora entramos em um processo de acreditação dos documentos”, afirmou o diretor jurídico da instituição, Pablo Morínigo.

Segundo Vera, os investimentos no Ueno foram feitos porque o banco atendia aos critérios de solvência, liquidez e risco calculados a partir das informações oficiais do BCP.

Segundo o MEF, existem indícios de que o Ueno fornecia informações financeiras ou patrimoniais falsas ao órgão supervisor e às classificadoras de risco. O banco apresentava classificação de risco AA-py, perspectiva estável, inadimplência de 0,68% e índice de liquidez de 18,27%.

Caja Fiscal – A Caja Fiscal, sistema previdenciário dos servidores públicos administrado pelo Ministério da Economia e Finanças (MEF) tinha o equivalente a US$ 40,6 milhões aplicados em CDAs do Ueno, com vencimento em 2030 e taxa de 12,35% ao ano. A aplicação previa o equivalente a US$ 20,1 milhões em juros até o vencimento.

Caja Bancaria – A Caja de Jubilaciones y Pensiones de Empleados de Bancos y Afines, responsável pela previdência dos trabalhadores do sistema financeiro, teria cerca de US$ 30,3 milhões aplicados em CDAs do Ueno, mas o valor não foi confirmado no comunicado divulgado pela instituição.

A Caja Bancaria declarou no comunicado que está realizando gestões junto ao BCP para proteger os recursos depositados e aplicados no banco. A instituição argumenta que o dinheiro tem destinação exclusivamente previdenciária e pediu que essa condição seja considerada no processo de resolução.

Cajubi – A Caja Paraguaya de Jubilaciones y Pensiones del Personal de Itaipú Binacional (Cajubi) informou ter aproximadamente US$ 16,4 milhões aplicados no Ueno. O montante corresponde a 2,8% de seus ativos.

A Cajubi afirma que as aplicações foram realizadas de acordo com sua política de investimentos e seus procedimentos internos. Segundo a entidade, a escolha do Ueno foi baseada em “critérios técnicos e objetivos”, demonstrações financeiras auditadas e classificação de risco AA-py.

A instituição garantiu a continuidade do pagamento das aposentadorias e pensões e afirmou que “não poupará esforços para a recuperação do patrimônio dos afiliados”.

Caja ANDE – A Caja de Jubilaciones y Pensiones del Personal de la Administración Nacional de Electricidad declarou ter aproximadamente US$ 7 milhões aplicados no Ueno. A instituição informou que recorrerá a “todas as instâncias administrativas e judiciais pertinentes” para buscar a “recuperação total” dos recursos.