Economistas analisam decisão do BC de manter juros inalterados

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a Selic em 13,75% pegou a maior parte do mercado de surpresa. A expectativa predominante antes da reunião era de um sexto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual, que reduziria a taxa para 13,50%. Uma parcela menor dos analistas já apostava na manutenção.

O principal fator que levou o Copom a interromper, por unanimidade, o ciclo de redução dos juros foi a piora das perspectivas para a inflação. A projeção do Comitê para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,1% para 3,5%, afastando-se da meta de 3%. Também pesaram a desancoragem das expectativas, a aceleração da inflação corrente, a pressão cambial e os choques provocados pela alta do petróleo. Veja, a seguir, análises sintéticas de vários economistas:

Caio Megale, economista-chefe da XP – Segundo ele a interrupção do ciclo de cortes tornou-se necessária para conter as pressões inflacionárias. Ele destaca que a projeção do Copom para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, subiu de 3,1% para 3,5%, afastando-se da meta de 3%. A XP não vê necessidade de uma política ainda mais contracionista neste momento, mas projeta a Selic em 13,75% até o final de 2027.

Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos – Ela avalia que o comunicado apresentou tom neutro, com alguns sinais favoráveis à flexibilização. O Copom reconheceu uma desaceleração mais acentuada da atividade e sinais de desaquecimento do mercado de trabalho, embora tenha ressaltado a aceleração dos núcleos de inflação e a piora do ambiente internacional. Para a economista, a estratégia é de “higher for longer” — juros elevados por mais tempo —, mas a exigência para uma nova alta da Selic permanece elevada.

José Márcio Camargo, economista-chefe da Genial Investimentos – Para ele, o Copom deu pouca atenção à forte deterioração recente dos ativos brasileiros. Ele cita a desvalorização cambial, a queda da Bolsa e a abertura da curva de juros, movimentos que poderão pressionar a inflação nos próximos meses. Camargo considera que a interrupção dos cortes, apesar das pressões políticas por juros menores, mostra que o “Copom continua independente”.

Cristiano Oliveira, diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine – Na sua opinião, o Copom reconheceu a desaceleração da atividade e do mercado de trabalho, mas adotou diagnóstico mais cauteloso para a inflação. A projeção de 3,5% no horizonte relevante e os possíveis efeitos secundários da alta do petróleo e dos eventos climáticos reforçam os riscos. A retirada da referência à “magnitude total do ciclo de calibração” indica que a pausa poderá avançar além de dezembro.

Felipe Rodrigo de Oliveira, economista-chefe da MAG Investimentos – De acordo com ele, a manutenção interrompeu o ciclo de cinco cortes consecutivos iniciado em março. O ambiente externo mais adverso, a aceleração da inflação corrente e a desancoragem das expectativas se sobrepuseram aos sinais de desaceleração da economia. A MAG prevê nova manutenção em dezembro e considera que os juros permanecerão restritivos até surgirem evidências mais claras de convergência da inflação para a meta.

Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG – Para o economista, a deterioração das expectativas, o aumento das incertezas externas e a piora das condições financeiras deixaram o Copom sem alternativa à manutenção. Mesmo com a atividade econômica desacelerando mais intensamente, o Banco Central deverá preservar uma postura conservadora por um período prolongado. Serrano acrescenta que uma política fiscal mais cautelosa será fundamental para a retomada dos cortes em 2027.

Roberto Padovani, economista-chefe do Banco BV – Ele avalia que a decisão foi determinada por três fatores: aumento das incertezas, piora das expectativas de inflação e revisão para cima das projeções do próprio Banco Central. O banco também prevê a manutenção da Selic por um período prolongado, mas trabalha com uma flexibilização mais cedo do que a XP. Seu cenário contempla a retomada dos cortes em meados de 2027 e a taxa em 12,50% ao final do ano.

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay – Para ele, a decisão refletiu a combinação entre desancoragem das expectativas, pressões cambiais e choques de oferta associados ao petróleo. O PicPay esperava um último corte de 0,25 ponto percentual, embora já atribuísse probabilidade elevada à manutenção. A instituição deverá rever seu cenário anterior, que previa Selic de 13,50% no primeiro semestre de 2027 e de 11,50% ao final do ano.

Camilo Cavalcanti, gestor de portfólio da Oby Capital – Ele avalia que os sinais de desaceleração da atividade e do mercado de trabalho não foram suficientes para compensar a piora das projeções de inflação. A gestora espera que a Selic permaneça em 13,75% também na reunião de dezembro. Caso as expectativas continuem subindo mesmo com a economia perdendo força, o debate sobre um novo ciclo de alta poderá retornar em 2027.

Marcos Freitas, analista macroeconômico da AF Invest – Na sua opinião, a manutenção estava em linha com o cenário da instituição e com as probabilidades observadas no mercado, que indicavam cerca de 20% de possibilidade de corte. Ele avalia que o comunicado deixou os próximos passos em aberto, sem determinar por quanto tempo a Selic ficará parada. A trajetória dependerá dos novos dados de inflação, atividade, câmbio e expectativas.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos – Para o economista, a manutenção decorreu principalmente da deterioração das expectativas de inflação e do aumento das incertezas fiscais. Embora a atividade esteja perdendo força, o Banco Central mostrou pouca disposição para antecipar novos cortes enquanto os prêmios de risco permanecerem elevados. Uma redução de 0,25 ponto em dezembro ainda seria possível, mas é considerada menos provável.

Volnei Eyng, CEO da Multiplike – Para ele, a desancoragem das expectativas foi determinante para interromper a sequência de reduções. A alta do petróleo, a valorização do dólar e a inflação projetada acima do limite de tolerância da meta indicam que a Selic deverá permanecer no atual patamar por mais tempo. A retomada dos cortes dependerá de uma aproximação mais clara da inflação em relação ao centro da meta.

Cassio Viana de Jesus, CIO da Pilar Capital – Segundo ele, o Banco Central precisa de maior segurança sobre a trajetória dos preços antes de voltar a flexibilizar a política monetária. A persistência da inflação de serviços, o dólar pressionado e as incertezas fiscais reforçam a necessidade de cautela. Enquanto esse quadro persistir, o crédito continuará caro, limitando o consumo financiado e os investimentos dependentes de empréstimos.