A concentração do mercado acionário dos Estados Unidos em poucas empresas de tecnologia e inteligência artificial está levando grandes fundo de pensão globais a reduzir suas exposições àquele mercado. Fundos de pensão da Austrália, Canadá e Reino Unido já mantêm exposição ao país abaixo dos principais índices globais.
A preocupação decorre do peso alcançado por empresas como Nvidia, Microsoft e Alphabet, que sustentaram boa parte da valorização recente do S&P 500. Atualmente, mais de um terço desse índice é formado por companhias de grande capitalização expostas ao ciclo de investimentos em IA. Com isso, investir nos Estados Unidos passou a representar também uma concentração em tecnologia e em poucos fatores de risco.
O Australian Retirement Trust (ART), segundo maior fundo de previdência da Austrália, com cerca de US$ 260 bilhões, reduziu neste ano sua posição em ações americanas para um nível inferior ao peso do país no MSCI World. O gestor sênior de portfólio da fundação, Jimmy Louca, não prevê uma crise semelhante ao estouro da bolha das empresas de internet, mas considera que as avaliações da bolsa americana e do setor de IA já ultrapassaram o nível justificado pelos fundamentos.
A canadense Caisse de dépôt et placement du Québec (CDPQ), que administra US$ 388 bilhões, também vem ampliando a diversificação. Os Estados Unidos continuam sendo sua maior exposição, mas a entidade procura oportunidades fora das grandes empresas de tecnologia. Para Vincent Delisle, head de mercados líquidos da CDPQ, o principal risco atualmente é saber até que ponto o crescimento dos lucros sustentará as avaliações dessas companhias. A instituição identifica relações mais favoráveis entre risco e retorno em outros setores.
No Reino Unido, a People’s Pension reduziu de 53% para 49% a participação dos Estados Unidos na carteira global de ações de seu principal fundo. O percentual é bem inferior aos 64% do MSCI ACWI. Para o diretor de investimentos Dan Mikulskis, o avanço da gestão passiva reforçou a concentração, fazendo com que os índices globais ofereçam menos diversificação do que no passado.
Já o fundo de pensão dinamarquês ATP, com mais de US$ 100 bilhões sob gestão, ainda não anunciou uma redução, mas acompanha o risco. Seu diretor de investimentos, Mikkel Svenstrup, avalia que as cotações atuais dependem de forte crescimento dos lucros nos próximos anos. Embora esse cenário possa se confirmar, as ações ficaram mais vulneráveis a resultados abaixo das expectativas.
O movimento parece ser mais amplo. Pesquisa da consultoria Marsh com 430 instituições, responsáveis por mais de US$ 5 trilhões sob gestão, mostrou que um terço pretende reduzir as posições em ações americanas nos próximos 12 meses. A proporção é duas vezes maior que a registrada no ano anterior e supera o número de investidores que planejam ampliar a exposição.