O erro e a insistência no erro

Edição 390

Simino,Jorge(Funcesp) 19fev2

Jorge Simino, ex-diretor de investimentos da Vivest

No dia 22 de junho deste ano, o professor Sergio Werlang deu uma entrevista para o jornal O Estado de São Paulo, caderno de economia na página B4, cujo título era “meta de inflação de 3% não tem a menor chance de funcionar”. E o subtítulo era “ para o ex-diretor do BC, país tem de elevar a meta a 4,5%, mas não sem antes ajustar as contas públicas”.
Em outras palavras, depois de efetivar um ajuste fiscal, o centro da meta do regime de metas de inflação deveria ser alterado para 4,5%.
Curiosamente, ou nem tanto, a repercussão dessa entrevista foi praticamente nula. Lí apenas três artigos que não mencionavam a entrevista, mas insistiam na manutenção do centro da meta em 3,0%. Em um deles o argumento da média dos países emergentes aparecia respaldado por um estudo do FMI. Em outro, apareceu uma “acusação” de que os desenvolvimentistas estavam pressionando pela alteração e atrapalhando o trabalho do banco central ao provocar ruído nas expectativas do mercado.
Considerando-se a formação acadêmica do professor Werlang acho difícil aplicar o epíteto de “desenvolvimentista” a ele (graduação em engenharia naval, pela UFRJ; mestrado em economia matemática, pelo IMPA e PhD por Princeton). Assim, a repercussão quase zero deve ter outra explicação ou outras explicações.
Como já fui alcançado pela velhice, mas ainda não pelo Alzheimer, lembrei-me do comportamento de uma boa parte dos analistas de mercado financeiro nos anos 1997 e 1998 quando alguém levantava a necessidade de desvalorizar a taxa de câmbio. Na época tínhamos déficit em transações correntes ao redor de 3,3% do PIB e reservas internacionais muito baixas e a reação era: nada de desvalorização! Precisamos de reformas! Como se as ideias fossem excludentes.
A diferença é que em janeiro de 1990, o mercado literalmente executou a desvalorização da taxa de câmbio, após uma tentativa malsucedida de fazê-la de forma controlada com a “banda diagonal endógena” do professor Francisco Lopes que, diga-se, de passagem, não “sobreviveu” a 30 minutos de análise.
Agora, no caso da definição do centro da meta, não existe a possibilidade de isso acontecer, por definição. A decisão pertence ao Conselho Monetário Nacional que errou e deve continuar errando até criar coragem de enfrentar o rancor do mercado que ameaça com descontrole da inflação e a desancoragem das expectativas que ele mesmo pressionou para estabelecer com o refinadíssimo argumento do centro da meta dos países emergentes ser igual a 3%. Do alto do meu humilde bacharelado em ciências econômicas fico espantado como a história econômica dos mais diversos países é simplesmente deixada de lado e a média de uma variável econômica complexa como a inflação é aceita com uma platitude digna de uma personagem de Nelson Rodrigues: “aceitou a ideia de 3,0% como se chupasse um Chicabom”.
Aliás, essa reação pessimista também foi observada na época da desvalorização da taxa de câmbio, em 1999. Relatório de uma economista de um banco alemão, publicado logo após a desvalorização em janeiro, projetou a inflação para 1999 em 80%! O IPCA foi de 8,94%. Conclusão para lá de básica: alguns analistas erram (as vezes muitos erram muito).
Mas o importante é o custo do erro. Se nos anos 1997 e 1998 a manutenção teve um custo em termos de aumento de dívida externa, agora a manutenção da SELIC em 13,08% em 2023, 10,88% em 2024 e 14,33% em 2025, na busca de atingir o centro da meta de 3,0% e com IPCA nos respectivos anos de 4,62%, 4,33% e 4,32%, resultou em juros reais, na ponta curta, de 8,1%, 5,8% e 9,6%. Todo esse exagero deve ter custado um incremento da dívida, em reais, de algumas centenas de bilhões de reais.
E muita atenção, com toda a verdadeira histeria sobre inflação, o IPCA médio de 2023 a 2025 foi de 4,6%. Isso com uma quebra de safra e o conflito EUA, Israel e Irã elevando o preço do petróleo para perto dos 100 dólares o barril!
Gosto muito dos textos e piadas de Millôr Fernandes, um dos meus preferidos é:”herrar é umano”; meu complemento seria : ”mas herrar muito não é muito umano”.