Edição 390
Tema em questão
A proximidade das eleições presidenciais tem ampliado a influência do cenário político sobre o mercado financeiro. O crescimento da candidatura de oposição, combinado à retomada do fluxo de capital estrangeiro para o Brasil, entusiasma a Faria Lima e impulsiona o Ibovespa. O movimento contrário também ocorre quando as expectativas eleitorais se deterioram, aumentando a volatilidade e provocando rápidas correções na Bolsa.
Em situações semelhantes no passado recente, porém, a superação das incertezas políticas e econômicas foi seguida por altas acentuadas, que deixaram pouco tempo para os investidores recomporem suas posições. Além disso, uma eventual queda dos juros pode reduzir gradualmente a atratividade da renda fixa e favorecer a migração de recursos para ativos de maior risco.
Diante da possibilidade de uma mudança de ciclo, o investidor local deveria começar agora a reduzir sua concentração em renda fixa e ampliar a exposição à Bolsa? Ou as incertezas eleitorais, fiscais e econômicas ainda recomendam cautela? Dois especialistas analisam os riscos, o momento adequado e as oportunidades desse reposicionamento.

Ricardo Campos, CEO da Reach Capital
Ricardo Campos: A cada ciclo eleitoral, o investidor brasileiro revive o mesmo dilema: esperar a poeira baixar ou se posicionar antes. A experiência recente mostra que tentar acertar o momento exato custa caro. Quando as incertezas se dissipam, a Bolsa sobe rápido e concentra os ganhos em poucos pregões. Quem fica de fora raramente entra a tempo.
Mas a pergunta mais relevante não é se o Ibovespa vai subir depois da eleição. É como proteger patrimônio ao longo de vários ciclos. Aqui a resposta passa por empresas com poder de repassar preços: marcas fortes, posições dominantes, contratos indexados. São negócios capazes de preservar margens quando a inflação acelera, ativos reais que acompanham a economia nominal.
O CDI oferece conforto e, com juros reais elevados, é natural que ocupe boa parte das carteiras. Esse conforto, porém, depende de uma premissa: a de que o Banco Central seguirá mantendo os juros bem acima da inflação. Com uma dívida pública em trajetória preocupante, a tentação de tolerar mais inflação e conviver com juros reais menores estará presente, seja qual for o governo eleito. Basta uma decisão de política econômica para que a estratégia deixe de funcionar. O investidor, então, descobre tarde que segurança nominal não é preservação de poder de compra.
Isso não significa abandonar a renda fixa nem ignorar a volatilidade até o resultado das urnas. Significa reconhecer que a concentração excessiva em CDI também é uma aposta, apenas menos visível. O caminho é elevar a exposição à Bolsa de forma gradual e disciplinada, com preferência por companhias com balanços sólidos, baixa alavancagem e capacidade comprovada de repassar custos.
Eleições passam; a inflação fica. Para quem pensa em décadas, e não em semanas, estar investido em bons negócios é a forma mais consistente de atravessar os ciclos.

Rodrigo Santoro Geraldes, head de Renda Variável da Bram
Rodrigo Santoro Geraldes: Em ano eleitoral, a Bolsa costuma ser tratada como um plebiscito diário. Mas a decisão de investimento deveria começar pelo ponto de partida, e não pela tentativa de antecipar o vencedor. O papel do investidor é avaliar assimetrias, não prever o futuro.
Hoje, esse ponto de partida merece atenção. Após anos de resgates, a exposição do investidor local à renda variável está próxima do menor nível das últimas duas décadas. O mesmo ocorre com os investidores estrangeiros em mercados emergentes e, consequentemente, no Brasil. Ao mesmo tempo, mesmo após o início do ciclo de cortes, os juros reais seguem muito acima da média observada nos últimos 20 anos. O resultado dessa combinação é um mercado negociando a múltiplos deprimidos, com diversas oportunidades em empresas de qualidade.
Parte das más notícias já parece refletida nos preços. Nesse contexto, uma eventual migração de recursos, domésticos ou estrangeiros, pode provocar uma reprecificação relevante dos ativos. Permanecer totalmente à margem pode significar voltar quando as oportunidades já não são tão evidentes.
Isso não justifica, porém, um retorno indiscriminado à Bolsa. Quem assumir o país em 2027 poderá encontrar uma economia ainda absorvendo os efeitos de um longo período de juros elevados, enquanto setor público, famílias e empresas convivem com níveis de endividamento significativos. Como a política monetária atua com defasagem, essa combinação pode restringir consumo, crédito e investimento, limitando o ritmo de crescimento da atividade.
A resposta fiscal após as urnas será determinante para a trajetória dos juros e para o prêmio de risco dos ativos brasileiros. Uma mudança de direção pode fazer com que o mercado antecipe um cenário mais favorável, mesmo diante de desafios relevantes no curto prazo.