Apostas em IA via ETFs

Produtos listados na B3 dão acesso a chips, softwares, infraestrutura e energia em uma tese que já atrai investidores globais, mas exige atenção a preços e endividamento

Edição 390

Rodrigues, da Bram: “Em algum momento pode haver uma correção. Não vou ser ingênuo e dizer que esse mercado subirá para sempre”.

As teses de investimento em inteligência artificial (IA) abriram novas perspectivas de valorização diante das disrupções e do crescimento de companhias como OpenAI, Anthropic e Nvidia, nos Estados Unidos, e Alibaba, Tencent e Xiaomi, na China. O ecossistema alcança ainda fabricantes e desenvolvedores sediados em Taiwan, Coreia do Sul, Alemanha e Japão.
OpenAI e Anthropic ainda não têm ações negociadas em bolsa, mas o investidor pode participar do ciclo por meio das companhias abertas que fornecem capital, chips, data centers, energia e computação em nuvem ou incorporam a tecnologia a seus produtos. Gestoras de todo o mundo estão se posicionando para capturar esse crescimento, que pode determinar a configuração futura de diferentes setores da economia.
No Brasil, vários ETFs – Exchange Traded Funds, ou fundos de índice negociados em bolsa – já marcam posição nesse mercado. Alguns acumulam resultados expressivos, como o CHIP11, da Investo, que investe em fabricantes de semicondutores e ao final de setembro registrava valorização de 58,4% no ano, 81,8% em 12 meses e 128,2% em 24 meses. O fundo tinha patrimônio de R$ 135 milhões e 7 mil investidores.
“O custo de ignorar essa tendência é muito alto”, afirma o CEO da Investo, Cauê Mançanares. Segundo ele, a procura ainda é tímida entre os investidores institucionais brasileiros, mas deve aumentar à medida que a IA deixe de ser tratada como uma aplicação temática ou periférica e passe a integrar estruturalmente as carteiras.
A entrada dos grandes investidores já acontece no exterior. Mark Machin, ex-CEO da CPP Investments, gestora do maior fundo de pensão do Canadá, captou US$ 525 milhões para o primeiro fundo da Intrepid Growth Partners, fundada por ele em 2023 para investir em empresas de IA fora do Vale do Silício.
O fundo recebeu recursos de mais de 80 investidores, grande parte deles institucionais, incluindo o fundo soberano Temasek, de Singapura, o Abu Dhabi Investment Council (Adil), dos Emirados Árabes, o British Business Bank e os bancos públicos canadenses Export Development Canada e Business Development Bank of Canada. A carteira concentra-se na camada de aplicações, formada por empresas que incorporam IA a softwares e serviços destinados aos usuários.

Líderes futuros – A Bradesco Asset Management (Bram) lançou em setembro o BRIA11, ETF baseado no índice FTSE AI Global Leaders, desenvolvido em parceria com a provedora britânica FTSE Russell. A metodologia procura identificar as empresas mais preparadas para liderar o desenvolvimento da IA, em vez de selecionar apenas aquelas que apresentaram os melhores resultados no passado.
“O objetivo não é olhar somente quem está se dando bem agora, mas quem pode se dar melhor no futuro”, explica o head de Gestão de Portfólios da Bram, Clayton Rodrigues. Segundo ele, os índices tradicionais usam indicadores históricos, enquanto o BRIA11 adota uma abordagem voltada para frente, combinando registro de patentes, desempenho relativo e controle de risco.
O ETF da Bram investe em dois fundos negociados no exterior. O XAIX reúne líderes globais em IA selecionadas principalmente pela propriedade de patentes, puxadas pelas empresas norte-americanas, enquanto o CNQQ concentra-se em companhias chinesas ligadas à transformação tecnológica. Entre elas estão fabricantes de chips, componentes, cabos, equipamentos eletrônicos, baterias e veículos elétricos, além de plataformas digitais.
A exposição aos dois fundos varia conforme a relação entre risco e retorno. No início de outubro, aproximadamente 80% da carteira estavam direcionados ao bloco liderado pelos Estados Unidos. A parcela chinesa havia sido praticamente zerada, com os recursos correspondentes mantidos em caixa, devido à queda do mercado daquele país.
A metodologia do fundo da Bram exige que pelo menos 70% da carteira permaneçam investidos em renda variável, mas permite direcionar até 30% ao caixa. A alocação é revista com base, entre outros indicadores, na média móvel de 200 dias. Quando um dos mercados cai abaixo dessa média e entra numa tendência adversa, o fundo reduz sua exposição à ele.
“Em algum momento pode haver uma correção. Não vou ser ingênuo e dizer que esse mercado subirá para sempre”, afirma Rodrigues. “Criamos um mecanismo para que, se o mercado entrar em uma tendência de baixa, o fundo reduza o risco.”
Embora Estados Unidos e China sejam os dois principais motores da estratégia, o fundo tem alcance global. A carteira do XAIX incluía, além de Estados Unidos, exposições à Coreia do Sul, Alemanha, Taiwan e Japão. Entre suas maiores posições apareciam Microsoft, Meta, Nvidia, Apple, AMD, Amazon, Micron, Alphabet, Samsung e até Walmart.
A presença do Walmart ilustra a opção pelas patentes como critério de seleção das empresas. Embora não seja uma companhia de tecnologia em sentido estrito, a varejista investe em propriedade intelectual associada à IA para ampliar sua atuação no comércio eletrônico. O critério também procura evitar o chamado AI washing, quando companhias se apresentam como beneficiárias da tecnologia sem desenvolver ativos ou negócios relevantes nessa área.
O segmento de software representava cerca de 27% da carteira do XAIX, enquanto tecnologia e semicondutores respondiam por aproximadamente 20% cada. Também estavam presentes empresas de internet, mídia, comércio eletrônico, telecomunicações, serviços de tecnologia da informação e serviços financeiros.
O BRIA11 havia completado apenas um mês no momento da entrevista, período ainda insuficiente para avaliar seu desempenho. O produto começou voltado ao mercado geral, mas a Bram pretende apresentá-lo também aos fundos de pensão.
“As fundações usam ETF muito menos do que poderiam. É um produto com transparência, custo baixo e liquidez, características que deveriam estar presentes em qualquer investimento institucional”, diz Rodrigues.

Mançanares, da Investo: “É muito provável que, daqui a dois ou três anos, a empresa que estiver na fronteira não seja a mesma que ocupa essa posição hoje”

Aposta nos chips – A Investo participa da tese por meio do CHIP11, fundo de índice que replica no Brasil o ETF americano SMH e investe nas 25 maiores e mais líquidas companhias de semicondutores listadas no mercado dos Estados Unidos. O fundo estrangeiro tem atualmente mais de US$ 60 bilhões sob gestão.
Os semicondutores ocupam uma posição central no desenvolvimento da IA por fornecerem a capacidade de processamento usada no treinamento e na operação dos modelos. A tese alcança desde os chips mais avançados até equipamentos de fabricação, memória, armazenamento e componentes para data centers.
Para Cauê Mançanares, a IA já começa a deixar de ser apenas uma tese tecnológica para se integrar a diferentes classes de ativos. Ele cita como exemplo a securitização de chips e de fluxos de caixa de data centers, estruturas que permitem aos investidores financiar a infraestrutura e receber as receitas geradas por sua utilização.
“A inteligência artificial tornou-se tão relevante que inclusive o terreno, o data center e até o chip estão passando a fazer parte do mercado de capitais de formas que não víamos antes”, afirma Mançanares.
A Investo também oferece exposição indireta ao crescimento da IA por meio do NUCL11, outro fundo de índice voltado à cadeia de energia nuclear e urânio. A conexão decorre da forte demanda de eletricidade por parte dos data centers e da busca das grandes empresas de tecnologia por fontes contínuas de geração.
Mançanares afasta, por enquanto, uma comparação direta com a bolha das empresas de internet. Segundo ele, naquele período a valorização das ações resultava principalmente da expansão dos múltiplos e da expectativa de receitas futuras. No ciclo atual, empresas como OpenAI e Anthropic já apresentam forte crescimento de faturamento, enquanto as grandes companhias de tecnologia financiam parte expressiva dos investimentos com recursos gerados por suas próprias operações.
“O crescimento de múltiplo pode refletir apenas otimismo. O crescimento da receita significa que outras empresas estão pagando para utilizar o serviço”, diz. “É uma métrica muito mais saudável, principalmente quando começa a caminhar em direção ao lucro.”
Mesmo assim, o executivo ressalta que ainda não está definido quem comandará as diferentes camadas da tecnologia. Os líderes atuais podem perder espaço rapidamente diante do lançamento de novos modelos e aplicações. “É muito provável que, daqui a dois ou três anos, a empresa que estiver na fronteira não seja a mesma que ocupa essa posição hoje”, analisa.

Vegas, da Global X: “Vemos lucros e ações avançando juntos, além de ganhos de eficiência nas empresas que adotam a tecnologia”

Diversificando exposição – A Global X, integrante do grupo financeiro sul-coreano Mirae Asset, oferece no Brasil o BAIQ39, BDR do ETF americano AIQ. O produto acompanha o índice Artificial Intelligence & Big Data e reúne 88 empresas que desenvolvem IA ou utilizam intensamente a tecnologia em seus produtos e serviços.
A maior posição do fundo era a Palantir, com cerca de 4%, seguida por empresas como Microsoft, SpaceX, Intel, Oracle e AMD. Como OpenAI e Anthropic ainda não são listadas, o fundo não pode investir diretamente nessas companhias, embora possa alcançar parte de seu crescimento por meio de empresas abertas que mantêm relações comerciais ou participações em seus negócios.
O BAIQ39 acumulava valorização de 20,5% no ano e 29% em 12 meses. Lançado no Brasil em 2022, tinha R$ 18 milhões sob gestão e quase 4,5 mil cotistas. O AIQ, negociado nos Estados Unidos e replicado pelo BDR brasileiro, administrava US$ 10,3 bilhões.
Para o especialista de Produtos da Global X, Flávio Vegas, a ausência de companhias brasileiras listadas com exposição direta ao segmento de IA abre espaço para esses veículos. A alternativa à isso seria comprar individualmente BDRs de empresas como Nvidia e Microsoft ou acessar diretamente o mercado americano.
“Por meio do ETF, o investidor compra um único produto e passa a ter exposição a mais de 80 empresas de inteligência artificial”, afirma Vegas. A diversificação reduz o risco de apostar em uma única companhia num mercado em que as posições de liderança podem mudar rapidamente.
Vegas também rejeita algumas especulações de que o setor poderia estar vivendo uma bolha semelhante à das empresas pontocom, no início dos anos 2000. Segundo ele, os preços das ações avançam acompanhados pelo crescimento dos lucros e das margens, enquanto os investimentos das companhias se acentua. Segundo ele, Amazon, Microsoft, Alphabet, Meta e Oracle devem investir conjuntamente cerca de US$ 500 bilhões em IA neste ano.
“Na bolha das pontocom, os preços subiam, mas os lucros não acompanhavam. Agora vemos lucros e ações avançando juntos, além de ganhos de eficiência nas empresas que adotam a tecnologia”, afirma.

Riscos permanecem – Apesar das perspectivas positivas, o volume de capital direcionado à IA eleva o risco de correções. Clayton Rodrigues aponta o aumento do endividamento de algumas companhias e a necessidade de manutenção dos resultados como os principais pontos de atenção. As empresas terão de gerar receitas suficientes para justificar os preços atuais e remunerar os investimentos realizados.
O economista britânico Michael Roberts, um dos críticos mais conhecidos das teses de desenvolvimento ininterrupto da IA, apresenta uma avaliação mais ponderada. Segundo ele, a distância entre as despesas de capital das grandes empresas de tecnologia e o caixa disponível para financiá-las está aumentando. Caso a monetização da IA não cresça na velocidade esperada, as companhias terão de recorrer mais intensamente aos mercados de dívida e de ações.
Roberts também observa que a redução dos preços cobrados pelo processamento dos modelos pode favorecer a disseminação da IA e os ganhos de produtividade, mas irá dificultar a recuperação dos investimentos em infraestrutura. “A maior aposta da história econômica dos Estados Unidos é extremamente arriscada”, afirma.
No sentido oposto, o Temasek considera administrável o atual volume de investimentos das grandes empresas de tecnologia. A responsável pelas operações do fundo soberano na América do Norte, Jane Atherton, avalia que o aumento da utilização da IA permitirá às companhias obter retornos ajustados ao risco sobre os recursos aplicados em chips e data centers.
A divergência de pontos de vista entre Roberts e Temasek reforça a necessidade de diversificação e de mecanismos de controle de risco. Mais do que decidir se a IA continuará avançando, o desafio dos investidores será identificar quais empresas conseguirão transformar a tecnologia em receitas, lucros e retornos sustentáveis.