Renda fixa ainda dita a demanda

Filtros ESG sustentam a seleção de crédito, ETFs ganham espaço nas fundações e novas regras alteram a expansão entre os RPPS, enquanto fundos ilíquidos atraem o segmento private

Edição 390

Mosca,Aquiles(BNP) 24ago 08a

“Uma boa análise ESG deixa os sinais de alerta visíveis, principalmente em relação à governança da companhia” — Aquiles Mosca, CEO da BNP Paribas Asset Management Brasil.

Os juros ainda elevados mantêm a renda fixa e as estratégias conservadoras no centro da demanda dos grandes investidores, incluindo fundos de pensão, RPPS e clientes private. Mesmo nesse cenário de baixo apetite ao risco, alguma diversificação avança, principalmente por meio de ETFs, ativos internacionais e fundos ilíquidos.
Na BNP Paribas Asset Management a demanda das fundações permanece concentrada em renda fixa, sobretudo em crédito privado high grade. Fundos de fundos e investimentos no exterior completam as três principais frentes de crescimento da gestora junto às Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC). A análise ESG também vem sendo usada de forma consistente como filtro para detectar problemas nas empresas.
Já na Itaú Asset, a abertura dos spreads de crédito reduziu o ímpeto do segmento private pelos fundos exclusivos isentos e deslocou a demanda para fundos DI e de crédito privado, ETFs, private markets e carteiras administradas. Entre os fundos de pensão, apesar da concorrência da compra direta de NTN-B, os mandatos exclusivos e a diversificação internacional sustentaram o avanço da área de solutions.

Crédito privado – Dos R$ 5 bilhões captados pela BNP Paribas Asset Management neste ano até agosto, 52% vieram de fundos de pensão. Segundo o CEO da gestora, Aquiles Mosca, a alocação do segmento permanece concentrada em renda fixa, particularmente em crédito privado, classe que continua a crescer apesar dos eventos de crédito registrados em algumas grandes empresas neste ano. “Desses casos, como por exemplo o da Raizen, ou não tínhamos nada em nossa carteira ou saímos antes dos problemas acontecerem”, afirma.
A asset trabalha com três motores principais de crescimento junto às EFPC. O primeiro é a renda fixa e o crédito privado, com alocação apenas em ativos high grade. “Mas mesmo aí é preciso que o gestor faça escolhas com bastante antecedência”, diz Mosca.
A análise ESG, que considera aspectos ambientais, sociais e de governança, é essencial nesse processo e funciona como filtro na seleção dos ativos de crédito. A Resolução nº 26 da Superintendência Nacional da Previdência Complementar (Previc), em vigor desde janeiro, deu impulso a essa avaliação ao definir diretrizes para que os fundos de pensão brasileiros incorporem os riscos ESG às decisões de investimento.
“Aplicar esses filtros contribuiu muito para que evitássemos os eventos de crédito de empresas que tiveram problemas desde 2023 porque uma boa análise ESG deixa os sinais de alerta visíveis, principalmente em relação à governança da companhia”, diz Mosca.
Para reforçar a importância dessa análise, o executivo cita a alocação em ativos de crédito do varejo. “A análise financeira nos faz querer ficar longe do setor, por conta da margem de lucro das empresas e por garantias ruins, mas há também vários temas de governança que não nos atraem e que ficaram visíveis nos casos já ocorridos”, observa. Entre os sinais estão conselhos sem composição independente e fragilidades na gestão, como áreas de compliance que se reportam diretamente ao CEO da companhia, e não a um órgão independente.
O segundo motor de crescimento junto às EFPC são os fundos de fundos (FoF) de multimercados, em um momento de troca intensa de gestores na indústria. Dos R$ 89 bilhões administrados pela BNP Paribas Asset no Brasil, cerca de 10% estão em FoF, e o maior crescimento ocorre nos multimercados. “A performance desses fundos aqui está melhor do que a média da indústria”, diz Mosca.
A terceira frente são os investimentos no exterior. Os fundos de pensão brasileiros ainda estão distantes do limite legal de 10% dos ativos nessa classe. “Esse percentual foi reduzido nos últimos anos e a média atual é inferior a 3%, mas tem aumentado aos poucos e vemos potencial para que cresça”, afirma. O avanço é impulsionado pelo dinamismo de setores como tecnologia, inteligência artificial e carros elétricos, por meio de fundos abertos e exclusivos.
Os investimentos internacionais também passam pelos filtros ESG. “São fundos sem hedge cambial, uma característica que entra cada vez mais na mentalidade das fundações brasileiras como medida de proteção das carteiras”, explica Mosca.
A gestora continua participando de processos de seleção de fundações brasileiras, embora o ritmo desacelere até o final do ano, período em que as EFPC elaboram suas políticas de investimento. “Estamos participando de aproximadamente 15 novos processos no momento, mas muitos deles serão concluídos apenas em 2027”, avalia.
Por enquanto, os mandatos das fundações mantêm a “mesma cara” do ano passado, mais concentrados em investimentos de menor risco. “A tônica futura vai depender da eleição e do tipo de ajuste fiscal a ser feito pelo novo governo brasileiro, o que ainda não foi divulgado por nenhum dos lados”, diz Mosca.
“O ano de 2027 ainda vai ter um componente forte de renda fixa porque há várias condicionantes a serem consideradas para que os mercados de risco deslanchem mais. Os efeitos do El Niño, os preços das commodities, o conflito no Irã, as pressões contínuas sobre a inflação são alguns deles”, aponta. Apesar das incertezas, Mosca acredita que a busca gradual das EFPC por diversificação no exterior continuará, especialmente pela atração do setor de tecnologia, cujas ações vêm apresentando boa performance.

Private muda o foco – Os investimentos do segmento de private bank (alta renda), que registraram forte crescimento da alocação em fundos exclusivos isentos de infraestrutura em 2025, vivem uma realidade diferente em 2026. Segundo Stefano Catinella, head global de Distribuição da Itaú Asset, a abertura dos spreads dos papéis de crédito levou esses investidores a reduzir expressivamente o ímpeto em direção aos isentos.
Em contrapartida, cresceu o apetite por fundos DI e de crédito privado, ETFs e alternativas em private markets. Entre estas últimas estão fundos mais ilíquidos, com alocação em ativos de infraestrutura e agronegócio, e estratégias de longo prazo em private equity, crédito privado estruturado e FIDC. As carteiras administradas também avançam como resultado de um projeto da casa para esse público. A área de solutions reúne 2.490 carteiras, com patrimônio de R$ 11,5 bilhões.
Os fundos ilíquidos estão entre os destaques da demanda. “O segmento private é o principal cliente dos nossos produtos de capital solutions, que encontram uma demanda relevante também dos family offices”, diz Catinella. A asset estuda oferecer esses fundos aos investidores institucionais, especialmente aos fundos de pensão. “Estamos planejando isso porque eles têm demonstrado interesse, mas seus processos de decisão de investimento são mais lentos, então precisaremos ter um timing diferente para eles, com maior antecedência nas próximas aberturas”, explica.
No segmento corporate, voltado à busca ativa por alternativas de liquidez, destacam-se os fundos abertos DI, com ou sem crédito privado, e os fundos exclusivos. “Temos visto maior volume em produtos abertos com retorno um pouco acima do CDI, e em fundos exclusivos. Esse volume que tem vindo mais de empresas médias do que das grandes, é um mundo de middle market. Este ano a nossa captação líquida nesse segmento ficou no zero a zero”, informa Catinella.
No private e nos demais segmentos, a asset mantém captação positiva e considera estar preparada para diferentes cenários macroeconômicos em 2027. “Enquanto o juro permanecer elevado, os clientes tenderão a ser mais conservadores. Se houver, porém, uma convergência para o juro mais baixo, poderemos ver maior apetite pelo risco, desde a renda fixa com um pouco mais de volatilidade até os fundos multimercados e de ações”, diz.
A proposta da casa é preservar a diversificação. O maior potencial de crescimento está nos ETFs, que devem ocupar cada vez mais espaço nas carteiras dos diferentes segmentos, e nas carteiras administradas com asset allocation para diferentes perfis. A Itaú Asset detinha market share de 27,8% em ETFs em agosto.
Os ativos internacionais também têm espaço para voltar a crescer entre os institucionais, que mantêm um percentual reduzido dos investimentos em outras moedas. Entre os fundos de pensão, porém, o ano tem sido desafiador para as gestoras por causa da compra direta de NTN-B pelas entidades, movimento reforçado pela possibilidade de marcação desses títulos na curva.
“Tem sido um ambiente complexo para a captação, mas aqui conseguimos ter destaque em fundos de pensão graças à nossa área de Investment Solutions, com mandatos exclusivos para as fundações, que ampliaram o volume captado”, afirma Catinella. O saldo de fundos de pensão na área de solutions cresceu 7% do início do ano até agosto, avanço apoiado também por novos mandatos ligados à diversificação internacional das EFPC.
Os ETFs foram um dos principais motores de captação junto às fundações, sobretudo na renda variável, e ampliaram as discussões sobre gestão ativa e passiva. “Lá fora os ETFs têm um pedaço das carteiras em cada uma dessas modalidades, mas aqui essa discussão está começando”, diz Catinella.
Para explorar essas alternativas, a gestora criou fundos que compram ETFs. A estrutura permite alugar cotas e gerar receita adicional para os clientes, com alocação em empresas boas pagadoras de dividendos. “São esses dois fundos que têm maior apelo hoje para os fundos de pensão e para os RPPS”, afirma.

Legislação dos RPPS – Em um ano de mudanças na legislação dos investimentos dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), o segmento aguarda eventuais modificações nas regras. Um grupo de trabalho do Ministério discute o assunto, enquanto o mercado já se adapta às exigências que delimitam a aplicação em produtos mais sofisticados de acordo com o nível de enquadramento de cada regime no Pró-Gestão.
A Banrisul Corretora de Valores administra R$ 8,9 bilhões de 350 RPPS. Segundo o presidente da instituição, Marcus Staffen, esses recursos permanecem aplicados em títulos públicos, incluindo NTN-B remuneradas acima de 7% a 8%, ou em fundos que acompanham a Selic.
Nos últimos anos, a instituição cresceu entre os RPPS de outros estados da Região Sul, principalmente em Santa Catarina, onde mantém dez agências, e no Paraná, onde o plano de expansão já está em andamento por meio da equipe comercial. A asset preparava um movimento mais forte para o Centro-Oeste, mas a iniciativa foi suspensa diante das restrições impostas pela nova legislação à atuação com assessores.
A asset também estuda parcerias para novos produtos. Com o juro no patamar atual, porém, Staffen avalia que não faz sentido lançar estratégias que demorem muito a ganhar tração. A decisão dependerá do cenário macroeconômico, mas fundos de renda variável e de crédito privado podem entrar na agenda.

Por Segmentos (arquivo em pdf)