Edição 390

Marcelo Mello, da SulAmérica Investimentos: “Os novos mandatos exclusivos estão integralmente direcionados à renda fixa, com prioridade para crédito de alta qualidade e operações de arbitragem”
Os mandatos exclusivos dos investidores institucionais permanecem concentrados em renda fixa, com prioridade para liquidez e baixo risco. Uma ampliação da exposição a ativos mais voláteis dependerá da queda dos juros, que hoje favorecem a manutenção das estratégias conservadoras.
Na SulAmérica, os novos mandatos combinam crédito privado high grade e estratégias de risco de mercado sem exposição a crédito, principalmente operações de arbitragem. Os fundos têm risco praticamente todo local, e a gestora avalia que a futura migração para multimercados e ações usará recursos hoje aplicados pelas próprias fundações em títulos públicos, sem reduzir os exclusivos.
Na XP, os mandatos exclusivos também estão concentrados em renda fixa e fundos cash, sobretudo por causa da liquidez. A normalização dos juros poderá abrir espaço para o aumento gradual da parcela de maior risco, inclusive por meio de investimentos no exterior.
Longe do risco – A troca de gestores por parte dos investidores institucionais, especialmente fundos de pensão, influenciou os fluxos de captação em 2025 mas perdeu força em 2026. Mesmo com a redução desses movimentos, a SulAmérica Investimentos registra captação líquida positiva entre R$ 2,5 bilhões e R$ 3 bilhões no ano e alcançou R$ 100 bilhões em ativos sob gestão ao final de setembro, informa Marcelo Mello, CEO da gestora e responsável também pelas áreas de Vida e Previdência do grupo.
“No caso dos fundos de pensão, o maior volume de mudanças aconteceu no ano passado, quando as fundações intensificaram sua busca por novos gestores, mas mesmo assim ficamos positivos em nossos fundos exclusivos para esse segmento, ainda que com um processo menor de busca em 2026”, diz Mello. Os fundos exclusivos da casa têm risco praticamente todo local.
A gestora obteve de oito a nove novos mandatos exclusivos de Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPC) até setembro e participa de outros processos de seleção. “Esses novos mandatos estão 100% direcionados para a renda fixa, sendo 70% de crédito privado high grade que aloca em ativos de alta qualidade (papéis de instituições financeiras e corporativos) e 30% compostos exclusivamente por produtos que operam risco de mercado, sem crédito”, explica Mello. A parcela sem risco de crédito busca retornos de CDI mais 1,5% a 2% ao ano, principalmente por meio de operações de arbitragem.
Esse perfil reflete a manutenção dos juros nominais e reais em níveis elevados e a aversão ao risco dos investidores. “Em 2026 projetamos Selic terminal de 13,5% e juro real entre 8% e 9%, mais do que suficiente para cumprir as metas das fundações, que ficam entre 4,5% e 5%, um patamar de taxa que não estimula o apetite desse investidor pelo risco”, afirma.
Para 2027, a SulAmérica estima que a Selic cairá para 11% no final do ano. “Seja qual for o governo eleito, o mercado entende que será necessário fazer um ajuste fiscal, o que dará mais espaço para redução do juro e para uma taxa real em torno de 6%, o que já ficará mais próximo das metas das EFPC e pode começar a estimular o interesse pelo risco”, avalia Mello.
O retorno ao risco deverá ocorrer gradualmente, acompanhando a queda dos juros e a esperada redução da volatilidade. “Em 2027 as carteiras deverão continuar na direção da renda fixa mas elas terão uma gestão ainda mais ativa do que hoje, e deveremos ver também um início de fluxo para fundos multimercados conservadores ou moderados e para os fundos de ações”, acredita.
Com uma alocação muito reduzida em renda variável, as fundações aguardam uma sinalização do novo governo sobre o ajuste fiscal antes de recompor as carteiras de ações. Nos multimercados, a falta de interesse também reflete a situação de uma indústria ainda fragilizada pelo mercado volátil e pelas expectativas em torno das eleições.
À medida que os juros caírem, Mello espera fluxos crescentes para fundos multimercados e de renda variável, com aumento gradual do risco. “Mas esse dinheiro não deverá sair dos fundos exclusivos e sim das carteiras administradas das próprias fundações, que hoje têm um percentual grande de recursos investidos em títulos públicos”, afirma.
A preparação da asset para esse retorno ao risco já começou. “Em meados de 2025 investimos na contratação de um time inteiro de renda variável especializado na estratégia de valor, que veio da Athena Capital”, diz Mello.
Renda fixa e ETFs – A XP Asset Management captou R$ 30 bilhões até agosto de 2026, resultado classificado como “um recorde histórico” pelo CEO da gestora, Leandro Bousquet. Desse volume, cerca de R$ 5 bilhões resultaram da união com a Augme Capital, concretizada no final de 2025. A captação veio principalmente dos produtos indexados, incluindo os ETFs, uma das apostas da casa. “Tínhamos seis ETF em 2025, chegamos a 30 e continuamos a lançar novos produtos, principalmente os de renda fixa”, diz.
Entre os destaques estão os fundos exclusivos de renda fixa e os fundos cash, que tiveram captação significativa entre os investidores institucionais, particularmente os fundos de pensão. “Foram captados R$ 1,3 bilhão este ano só para as fundações, além de R$ 5,8 bilhões no segmento corporate”, afirma Bousquet.
Os fundos offshore também cresceram, impulsionados pela internacionalização da base de clientes e pelo maior acesso das pessoas físicas a esse mercado. “Hoje temos apenas produtos líquidos – carteiras administradas, Fundos de Fundos (FoF) e fundos de renda fixa cash e queremos ampliar essa grade para oferecer também fundos alternativos de real estate e de crédito privado para 2027”, conta. Os investimentos no exterior são feitos por meio de carteiras customizadas, em sua maioria voltadas às pessoas físicas que aderem a carteiras administradas.
A capacidade de inovar e lançar produtos tem sido fundamental para os resultados, segundo Bousquet. A gestora captou quase R$ 5 bilhões em fundos de investimento imobiliário neste ano, boa parte destinada aos fundos de tijolo. “Inovamos inclusive em real estate, com fundos fechados de cinco anos, numa estrutura que combina yield interessante com ganho patrimonial em pouco tempo”, explica.
Os mandatos exclusivos permanecem muito concentrados em produtos de renda fixa e cash por causa da liquidez. “À medida que o juro retorne para um patamar mais normal, há espaço para crescer a parcela de maior risco nos investimentos, inclusive para o exterior”, afirma o gestor.
O avanço dos ETFs, que deverão competir cada vez mais com os fundos condominiais, é o grande tema do ano para a asset, devido às estruturas mais eficientes, baratas e transparentes. “A curto prazo talvez ainda não seja uma opção suficiente para os fundos de pensão devido às condições de liquidez, até porque são novos, mas essa é uma classe que tem um potencial gigantesco para crescer em alocação nas carteiras dos institucionais, assim como os fundos de crédito estruturado”, diz Bousquet.
Por Fundos Exclusivos (arquivo em pdf)