Edição 389
Tema em questão
O mercado brasileiro comporta o número atual de gestoras ou caminha para uma consolidação inevitável? A questão ganha força em um ciclo no qual os juros elevados e a concentração das carteiras em títulos públicos reduziram o espaço para estratégias de maior risco. O impacto é especialmente forte sobre assets independentes e especializadas, muitas delas dedicadas a uma única estratégia e sem produtos de renda fixa soberana para compensar a queda da captação em ações, multimercados e ativos alternativos. De um lado, a diversidade de casas amplia a concorrência, estimula a inovação e oferece mais opções aos investidores. De outro, a dispersão de recursos pode comprometer escala, rentabilidade e capacidade de investimento das próprias gestoras. O mercado tem espaço para tantas assets ou fusões, aquisições e fechamentos serão necessários para torná-lo mais sustentável?

Fabio Noronha, gestor de investimentos e Portfolio Manager na Asarock Asset
Fabio Noronha: Sim, o mercado brasileiro deve passar por uma consolidação, mas ela será seletiva. Ao discutir esse movimento, três forças se destacam: a profundidade do mercado de capitais, o custo de capital para empreender e a evolução competitiva da indústria.
A primeira é a composição da demanda. A ponta compradora hoje está concentrada em renda fixa e crédito estruturado. FIDCs e outros veículos de crédito absorvem parte relevante da liquidez que, em outros ciclos, migraria para ações, multimercados e fundos imobiliários. Quando o mercado converge para menos estratégias vencedoras, reduz-se o espaço econômico para casas monotemáticas. Hoje dois terços dos ativos sob gestão estão concentrados nas dez maiores instituições do país.
Há também uma pressão estrutural. A consolidação das plataformas aumenta o poder de barganha dos canais de distribuição e comprime fees. Ao mesmo tempo, a exigência regulatória eleva custos fixos de compliance, tecnologia e governança. Em paralelo, automação e inteligência artificial reduzem a necessidade de estruturas operacionais maiores.
Abrir e manter uma gestora continua sendo um empreendimento. Em um ambiente de juros elevados e liquidez global mais seletiva, é mais difícil sustentar anos de construção de histórico, baixa captação e investimento em pessoas, produtos e distribuição. Isso favorece plataformas diversificadas e pressiona casas com pouca escala.
Ainda assim, dizer que há gestoras demais no Brasil simplifica o problema. Existem bolsões relevantes de demanda ainda mal atendida. Regiões de forte expansão econômica recente seguem com baixa presença de gestores locais, mesmo diante do avanço de setores como o agronegócio e a infraestrutura e da demanda por crédito.
Por isso, a consolidação tende a ocorrer, mas de forma seletiva. Modelos pouco diferenciados, generalistas, e sem escala tendem a desaparecer ou se combinar. Ao mesmo tempo, haverá espaço para casas capazes de dominar nichos, atender mercados negligenciados e construir vantagens difíceis de replicar. Escala conta cada vez mais, mas diferenciação continua sendo decisiva.

Everaldo Guedes, sócio e CEO da PPS Portfólio e Performance
Everaldo Guedes: Mercados buscam equilíbrio entre oferta e demanda. Na indústria brasileira de gestão de fundos de investimento a competição é intensa e os clientes não têm muita paciência, por estarem num ambiente que privilegia o curto prazo. Herança da época da superinflação.
Até mesmo na gestão previdenciária, com objetivos de longo prazo, a visão de curto prazo se impõe, pela pressão dos participantes. Se superar as metas no Brasil é mais fácil que em outros países por causa dos juros absurdos, por outro lado a gestão do longo prazo é prejudicada justamente por essa característica. Com juro real tão elevado, muitos consideram desnecessário correr riscos adicionais com gestão ativa nos MM ou alocação em ações.
Além disso, nos negócios em geral, cerca de 50% das novas empresas no Brasil fecham as portas entre o terceiro e o quinto ano de atividade. A mortalidade de empresas é um aspecto inerente a qualquer setor.
Quanto aos fundos, os clientes são implacáveis e resgatam quando estão insatisfeitos com os resultados. Em que circunstâncias um bom gestor deixa de entregar resultados satisfatórios? Em três condições principais.
A primeira, quando está em um momento ruim, natural em qualquer gestor, se partirmos da premissa muito importante de que não existe no mundo gestor que só ganha. A superação constante do benchmark é apenas um sonho.
A segunda, quando o mercado muda e o que ele fazia já não funciona. Típica de muitos gestores de fundos Multimercado que, por uns cinco anos a partir do final de 2025, ficaram aplicados em NTN-Bs e se aproveitaram da tendência de queda dos juros. Quando acabou a onda muitos não conseguiram encontrar outras oportunidades.
A terceira é a perda de equipe. Não são poucos os exemplos, novos ou antigos, dessa situação, tanto na gestão de fundos de ações como na de Multimercados.
À falta de interesse na alocação em ações soma-se o histórico recente de insucesso dos fundos Carteira Livre, típicos dos gestores independentes. À má performance recente de muitos gestores de Multimercados soma-se a pouca necessidade de correr riscos adicionais. Não é de surpreender o movimento de consolidação, que não vai cessar no curto prazo.