SulAmérica bate R$ 100 bilhões

Com forte presença entre os fundos de pensão, asset prepara estratégias de ações, ETFs ativos, infraestrutura e crédito internacional para um futuro ciclo de queda dos juros

Edição 389

Mello,Marcelo(SulAmerica) 25mar 01(MauroFiga)

O cenário no qual os fundos de pensão investem fortemente em estratégias de imunização dos portfólios, aproveitando os juros reais elevados, não vai durar para sempre, analisa o CEO da SulAmérica Investimentos, Marcelo Mello

A SulAmérica Investimentos atingiu, em meados de setembro, os R$ 100 bilhões sob gestão com um olho no crescimento das aplicações e outro na capacidade de gerar retorno para os investidores e para a própria operação. A asset praticamente dobrou seus ativos em seis anos, partindo de pouco mais de R$ 50 bilhões, numa expansão acompanhada pela contratação de equipes, modernização dos sistemas de risco e compliance e criação de uma área de pesquisa quantitativa dedicada a aplicações de inteligência artificial.
Como a gestora faz parte de um grupo de capital aberto, a Rede D’Or, o CEO da SulAmérica Investimentos, Marcelo Mello, que também comanda a área de vida e previdência do grupo, prefere não fazer projeções sobre o crescimento daqui para a frente. Adianta, porém, que a meta é “crescer acima da média do mercado”.
Mesmo no cenário atual, de juros elevados e poucas chances de migração dos investidores da renda fixa para estratégias de maior risco, Mello acredita que a gestora precisa estar preparada para um ambiente mais favorável depois das eleições presidenciais. A pouco mais de um mês do pleito, a SulAmérica não trabalha com a hipótese de ruptura fiscal, seja com a permanência do atual governo, seja com a vitória de um candidato da oposição.
“A gente não trabalha com cenário de ruptura fiscal, independentemente de quem seja o próximo presidente. Achamos que o candidato incumbente ou um candidato da oposição terá que implementar alguma reforma fiscal”, afirma. Segundo ele, a intensidade e a velocidade das medidas poderão variar, mas em ambos os casos a asset espera alguma sinalização de mudança na trajetória da dívida pública. Isso abriria espaço para a redução dos juros nominais e reais e para uma valorização mais ampla dos ativos.
Para Mello, o cenário no qual os fundos de pensão investem fortemente em estratégias de imunização dos portfólios, aproveitando os juros reais elevados, não vai durar para sempre. “Vai chegar o momento em que teremos juros nominais e reais menores e os investidores estarão mais propensos às estratégias de risco”, avalia.

Crédito domina – Atualmente, dos R$ 100 bilhões sob gestão, aproximadamente 45% estão em fundos de crédito privado high grade, incluindo estratégias de crédito corporativo e financeiro, infraestrutura e ativos imobiliários. Outros 40% estão em renda fixa e 15% em fundos multimercados e outras estratégias, incluindo renda variável.
A distribuição reflete o comportamento dos investidores nos últimos anos, inclusive dos fundos de pensão, que reforçaram suas carteiras com títulos públicos capazes de cobrir com folga as metas atuariais. A gestora, contudo, acredita que a futura redução dos juros poderá favorecer a recuperação dos multimercados e a retomada das alocações em fundos de ações. A SulAmérica mantém investimentos nessas duas áreas mesmo em um período de baixa demanda, preparando-se para quando o fluxo mudar.
Embora reconheça que a indústria de multimercados encolheu e registra resgates recorrentes, Mello não concorda com as avaliações de que a estratégia possa desaparecer. “É muito forte dizer que essa indústria está morrendo, porque o mercado pode virar rapidamente. Quando tivermos um ambiente mais propenso ao risco, esses produtos poderão apresentar um desempenho mais destacado e voltar a chamar a atenção do investidor”, afirma.
Uma análise elaborada pela equipe quantitativa da SulAmérica mostrou que, mesmo entre os fundos multimercados que superaram o CDI em diferentes janelas de longo prazo, a maioria rendeu abaixo de CDI mais 2 pontos percentuais, percentual equivalente à taxa de administração cobrada por muitos gestores. “Isso significa que, mesmo entre os fundos que tiveram desempenho acima do CDI, em muitos casos o gestor ganhou mais que o investidor. Isso mostra a necessidade de entregar mais valor”, diz Mello.
Na renda variável, a preparação para um novo ciclo levou a SulAmérica a incorporar, em 2021, a equipe da Atena, gestora do Rio de Janeiro especializada em ações de valor. O time, que continua baseado no Rio, administra atualmente cerca de R$ 500 milhões em fundos de ações. Em São Paulo, a asset mantém outra equipe, responsável por fundos de ações indexadas e estratégias ativas. “Nosso investimento nessa equipe de ações foi pensado para o longo prazo, mesmo sabendo que, no curto e no médio prazos, não haveria muita demanda”, afirma Mello. “Estamos olhando para a frente.”
Outra estratégia em estudo são os ETFs ativos. A SulAmérica aguarda o avanço da regulamentação para definir seu ingresso no segmento, mas Mello considera difícil que a gestora fique fora desse mercado. Diferentemente dos ETFs passivos, que apenas replicam um índice, os ativos permitem ao gestor tomar decisões sobre a seleção e o peso dos papéis na carteira, ampliando a possibilidade de agregar valor ao produto. “O passivo tem baixo valor agregado, mas olhamos com bons olhos o mercado de ETFs ativos”, diz.
A SulAmérica também estuda utilizar sua experiência no crédito privado local para criar estratégias voltadas ao mercado latino-americano e a títulos emitidos no exterior por empresas brasileiras. Como já conhece os emissores locais, poderia aplicar aos papéis negociados nos mercados internacionais a metodologia utilizada em seus fundos brasileiros. “Quando falamos de empresas brasileiras que emitem no exterior, nosso conhecimento já está aqui. O time de crédito conhece essas companhias. No caso da América Latina, teremos que analisar empresas que não fazem parte do nosso universo atual, mas temos capacidade para isso”, explica.
A estratégia deverá partir de uma solução própria, sem parceria com uma gestora estrangeira. O objetivo é aproveitar o conhecimento da casa em crédito high grade e infraestrutura, segmento que soma cerca de R$ 5 bilhões sob gestão. “Sem ferir nosso DNA de cuidado fiduciário e de risco, há muita coisa no universo high grade e de infraestrutura que pode ser feita com empresas latino-americanas ou brasileiras que emitem no exterior”, afirma Mello.

Retorno – A busca por novas estratégias não significa que o crédito high grade tenha deixado de oferecer retorno. Esse mercado, que reúne empresas com acesso recorrente ao mercado de capitais, geração consistente de caixa, dívidas longas e histórico prolongado de pagamentos, é explorado de maneira ativa pela gestora. “Nosso time consegue reduzir a exposição ao crédito corporativo, aumentar a parcela financeira, diminuir a duração, fazer caixa ou voltar a alocar quando os prêmios estão interessantes”, afirma Mello.
Segundo ele, essa flexibilidade caminha lado a lado com a seleção criteriosa de emissores. Problemas em uma empresa específica podem provocar a abertura dos spreads e a queda dos preços de todo o mercado de crédito, inclusive entre companhias de melhor qualidade. A abordagem mais conservadora procura reduzir as perdas diretas provocadas por esses episódios.
A equipe de crédito, liderada por Daniela Gamboa, foi incorporada à gestora em 2021. No ano seguinte, a SulAmérica reforçou o departamento econômico com a contratação da economista-chefe Natalie Victal. A aquisição da SulAmérica pela Rede D’Or, concluída em 2022, deu sustentação aos investimentos que apoiaram o crescimento da asset. “A nova estrutura foi bastante condizente com todos os investimentos que fizemos. Trouxemos novas equipes de investimento, criamos um time quantitativo, reforçamos o departamento econômico e mudamos muita coisa nos últimos seis anos”, afirma Mello.
Entre as inovações está a criação, há quatro anos, de uma área quantitativa formada por quatro cientistas de dados. A proposta não é desenvolver fundos geridos exclusivamente por algoritmos nem substituir os gestores, mas criar ferramentas de inteligência artificial para apoiar as decisões dos profissionais. “Não temos fundos robôs. Nossa equipe de dados cria ferramentas que facilitam a vida dos gestores”, explica Mello.
Uma dessas ferramentas lê diariamente cerca de 30 mil notícias e produz um mapa de calor com os assuntos mais recorrentes. A premissa é que os temas repetidos com maior frequência pelos veículos de informação têm maior possibilidade de influenciar a formação dos preços. O material é apresentado no início da reunião diária do comitê de investimentos, cuja primeira meia hora é dedicada às análises trazidas pelos cientistas de dados. A equipe também desenvolve ferramentas de previsão de ativos, simulação de operações e liquidez e análise de crédito. “A área se tornou super-relevante e fica melhor a cada dia, porque as ferramentas estão mais poderosas e mais fáceis de utilizar”, diz Mello.
Outra mudança importante foi a incorporação dos critérios ambientais, sociais e de governança (ESG) ao processo de investimento. O ESG passou a funcionar como uma ferramenta para avaliar os riscos e o valor das empresas investidas. “É um mitigador de risco para o gestor e uma proteção para o investidor”, afirma.
A asset criou uma família de cinco fundos de crédito high grade com identificação de investimento sustentável. Para cada setor, utiliza uma matriz ESG com pesos diferentes. As companhias são comparadas à empresa considerada a melhor de sua classe, e aquelas com scores mais elevados recebem prioridade na alocação.
A metodologia procura traduzir questões ambientais e sociais em impactos financeiros. No caso de uma empresa envolvida em dano ambiental, por exemplo, a equipe verifica se as provisões são suficientes e, quando necessário, incorpora um valor maior ao fluxo de caixa para calcular o efeito potencial sobre a companhia. A SulAmérica é signatária dos Princípios para o Investimento Responsável (PRI) desde 2011.

Institucionais – Os investidores institucionais representam aproximadamente 60% da base da gestora. Desse total, cerca de 70% são fundos de pensão, 20% seguradoras e 10% clientes corporativos. Os 40% restantes correspondem ao varejo, atendido por meio de plataformas e instituições financeiras.
O principal desafio junto aos fundos de pensão continua sendo implementar estratégias de maior risco diante da concorrência dos títulos públicos, que superam as metas atuariais e dão aos dirigentes das entidades pouca margem para justificar novas exposições. A SulAmérica acredita que essa concentração começará a mudar com o recuo dos juros. É para esse momento que a asset vem se preparando, com o reforço das equipes e o desenvolvimento de estratégias de ações, multimercados, ETFs ativos e crédito internacional.