Edição 389

“Não é hora de ser mais corajoso do que os pares porque no momento não vemos vantagem relativa em ser mais agressivo”, diz Cláudio Pires, da Mongeral Aegon
Os juros elevados mantêm a atratividade da renda fixa, mas também pressionam a saúde financeira das empresas e exigem maior cuidado na seleção do crédito privado. Depois dos episódios de dificuldades corporativas que afetaram o mercado neste ano, a busca por retorno passa pela avaliação da capacidade de pagamento dos emissores, pelo controle da liquidez e pelo ajuste das carteiras às mudanças do cenário. A gestão ativa ganha importância tanto para aproveitar os prêmios disponíveis quanto para preservar capital.
Na Mongeral Aegon Investimentos, a expectativa de juros altos por um período prolongado sustenta uma postura conservadora. Cláudio Pires, sócio e diretor de investimentos, projeta apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic até o final de 2026 e pouco espaço para alívio nos anos seguintes. “Também não vemos alívio na virada do ano ou mesmo em 2028 e estamos conservadores na gestão de crédito frente aos sinais de desaceleração da atividade econômica como um todo”, afirma.
Na Caixa Asset, que mantém 30% dos ativos sob gestão em estratégias de crédito privado, a visão permanece positiva, mas acompanhada de maior seletividade. “Depois de um período importante de valorização e compressão de spreads em diversos segmentos, acreditamos que a geração de valor daqui para frente dependerá ainda mais da capacidade de análise do gestor para identificar se os riscos estão adequadamente remunerados”, diz Ricardo Rios Araújo, diretor-presidente da instituição.
Já Eduardo Arraes, gestor dos Fundos de Crédito Líquido da BTG Pactual Asset Management, vê sinais de maior capacidade de acomodação do mercado diante dos eventos de crédito. “Os spreads este ano abriram bem menos do que havia ocorrido em 2023 e o movimento foi mais controlado. Também a acomodação foi mais rápida este ano e depois de dois a três meses os spreads já haviam voltado ao nível de março”, explica. Para ele, carteiras mais defensivas ajudaram a indústria a atravessar esse movimento com menor impacto.
Seleção cautelosa – A Mongeral Aegon projeta uma passagem de 2026 para 2027 marcada por juros altos e atividade econômica em desaceleração, mas sem recessão. A estimativa é de crescimento de 1,5% do PIB no próximo ano. Nesse ambiente, Pires acredita que a renda fixa continuará concentrando o interesse dos investidores. “Ao longo de dois anos, a renda fixa ainda será a principal classe de investimento em termos de fluxos”, diz.
No crédito privado, a preferência recai sobre negócios mais resistentes à desaceleração, com atenção especial ao endividamento. “Nesse ambiente, gostamos de empresas dos setores de concessões públicas, que são bem regulados e mais resilientes. Também olhamos muito para a alavancagem de todas as empresas dos nossos portfólios antes de avançar com o investimento”, afirma. Para Pires, o trabalho de análise antes da aprovação inicial é fundamental. “Não é hora de ser mais corajoso do que os pares porque no momento não vemos vantagem relativa em ser mais agressivo.”
A preocupação decorre dos efeitos da Selic elevada sobre os balanços das companhias. “Muitas delas tendem a ter problemas de balanços e saúde financeira mais debilitada, procurando renegociar dívidas ou pedir recuperação judicial, como temos visto recentemente”, observa. Segundo ele, a seleção cautelosa manteve os portfólios da casa sem exposição às empresas que enfrentaram problemas neste ano.
Pires associa essa prudência também às dificuldades do quadro fiscal brasileiro. “O cenário é difícil e o País cresce a taxas baixas, com muito crédito ao consumo das pessoas físicas e incentivos fiscais para a economia, mas o custo fiscal disso leva o Banco Central a manter a Selic para cima e nem assim o governo tem conseguido bater a meta fiscal”, avalia.
Nas estratégias de renda fixa sem crédito privado, a prioridade é ajustar rapidamente os portfólios às mudanças nas expectativas de juros. Pires lembra que o mercado chegou a precificar uma Selic de 12% ao final de 2026, cenário que foi abandonado e trouxe consequências para as cotas dos fundos que mantiveram essa aposta. “Aqui nós pensamos os portfólios dentro de uma abordagem muito ativa para ajustá-los aos cenários”, diz.
A oscilação das projeções reforçou a importância dessa flexibilidade. “O mercado já projetou Selic caindo a 12%, mas também chegou a projetar que o BC retomaria o ciclo de alta este ano, por conta das pressões inflacionárias. Aqui acreditamos que ele fará um corte de 0,25% e encerrará o ciclo de baixa este ano, mas sem voltar a elevar a taxa”, detalha.
Desde março, as surpresas externas acrescentaram incerteza às decisões. “A começar pela guerra dos EUA contra o Irã e o governo Trump, que está com sua popularidade na mínima de todos os tempos. Há uma perspectiva de crise alimentar por conta da guerra e do El Niño, então o ambiente é de incertezas e as economias dos países desenvolvidos nunca tiveram taxas tão altas, uma vez que o antídoto para proteger as moedas é o juro alto”, afirma.
No Brasil, Pires também destaca a permanência prolongada dos juros acima de 10% ao ano, situação que considera sem precedentes. “A não ser que haja uma grande arrumação fiscal e outro arcabouço, o trabalho do BC fica muito dificultado”, avalia.
Com aproximadamente R$ 25 bilhões sob gestão, a Mongeral Aegon tem mais de 50% dos recursos provenientes principalmente de fundos de pensão, com uma participação menor de RPPS. A seguradora do grupo responde por R$ 4 bilhões. Entre os clientes terceiros, as EFPCs são o principal público, seguidas pelos investidores que chegam por plataformas.

“Em crédito, retorno é importante, mas preservar capital é fundamental”, explica Ricardo Rios Araújo, diretor-presidente da Caixa Asset
Preservação de capital – Na Caixa Asset, Araújo considera que o ambiente foi especialmente favorável à renda fixa ao longo de 2025 e no primeiro semestre de 2026. A classe permaneceu como principal vetor de captação, com destaque para estratégias pós-fixadas, títulos públicos e crédito privado. “O nível das taxas de juros tornou o carrego dessas estratégias bastante competitivo e aumentou a demanda dos investidores por produtos que combinassem previsibilidade, liquidez e retorno ajustado ao risco. No crédito privado, especificamente, observamos uma demanda importante tanto de investidores institucionais quanto de empresas e entes públicos”, afirma.
Para ele, a evolução do mercado de crédito ampliou as alternativas disponíveis. “É um mercado que se desenvolveu muito no Brasil e que hoje oferece ao investidor institucional possibilidades bastante amplas de diversificação por emissores, setores, prazos e estruturas”, diz. Na Caixa Asset, Araújo atribui o desempenho à combinação de escala, capacidade técnica e oferta de soluções para diferentes públicos, do varejo aos grandes institucionais.
Na renda fixa, dois fatores se destacaram na geração de resultados. O primeiro foi o aproveitamento do carrego das estratégias pós-fixadas, tanto em títulos soberanos quanto em crédito privado. O segundo foi a gestão ativa da curva de juros, sobretudo nos vencimentos mais curtos, mais diretamente relacionados à inflação, às expectativas e às decisões de política monetária.
“Nos fundos que permitem esse tipo de gestão, trabalhamos posições aplicadas em juros nominais principalmente no horizonte de até 24 meses, ajustando a exposição conforme nossa avaliação sobre o prêmio de risco incorporado à curva”, explica Araújo. A exposição varia conforme a atratividade identificada. “Quando entendemos que determinado prêmio oferece relação risco-retorno interessante, aumentamos a exposição; quando essa assimetria diminui, reduzimos.”
No crédito privado, a seleção é conduzida por uma estrutura especializada de análise, integrada à gestão e acompanhada por áreas independentes de risco. “Avaliamos capacidade de pagamento, estrutura das operações, garantias, setores, concentração, liquidez e comportamento dos spreads antes e depois da aquisição”, afirma.
Segundo Araújo, esse processo manteve as carteiras sem exposição aos eventos de inadimplência registrados no mercado no período. “Em crédito, retorno é importante, mas preservar capital é fundamental. A nossa visão é que performance consistente vem da combinação entre leitura de mercado, seleção de ativos, diversificação e uma governança de risco robusta”, diz.
A escala e a estrutura de acompanhamento são apontadas como vantagens nesse trabalho. “Temos escala, uma equipe especializada, acompanhamento permanente dos emissores e uma estrutura independente de risco. Isso nos permite analisar um universo amplo de oportunidades sem abrir mão dos critérios de crédito e liquidez compatíveis com cada fundo”, afirma.
Para os institucionais, o crédito privado pode acrescentar retorno em relação aos ativos soberanos, diversificar fontes de risco e, conforme a estratégia, contribuir para adequar a duração das carteiras às obrigações. “Nossa expectativa é de que essa classe continue ocupando um espaço relevante, mas com a seleção de ativos cada vez mais determinante para a performance”, avalia.
Embora os pós-fixados continuem capturando os juros correntes com baixa volatilidade relativa, a evolução do ciclo monetário pode alterar as oportunidades. “Um processo gradual de redução da Selic pode criar oportunidades adicionais em estratégias prefixadas e indexadas à inflação, especialmente quando o gestor consegue identificar pontos da curva em que a relação entre retorno esperado e risco se mostra mais interessante”, diz.
A preparação para diferentes fases dos juros também orienta a oferta de produtos. “Ao mesmo tempo em que fortalecemos a oferta na renda fixa, continuamos a desenvolver soluções em multimercados, renda variável, investimentos no exterior e produtos estruturados, com o objetivo de ampliar as possibilidades de diversificação”, explica.
Os RPPS, responsáveis por 11,61% dos ativos sob gestão em julho de 2026, são um dos principais públicos da gestora. “Os Regimes Próprios têm uma participação relevante na Caixa e é um segmento no qual temos interesse estratégico de continuar crescendo, não apenas em volume, mas sobretudo em relacionamento e qualidade das soluções oferecidas”, afirma Araújo.
Acomodação dos spreads – Na BTG Pactual Asset Management, Arraes observa que o desempenho positivo da indústria de renda fixa em 2025, tanto nos fundos isentos quanto nos demais, não impediu a desaceleração dos fluxos. “O quarto trimestre de 2025, porém, já havia começado a registrar queda na captação e o primeiro trimestre de 2026 assistiu a uma reestruturação das empresas que impactou o mercado e fez a captação cair”, afirma. Entre julho e agosto, a captação da indústria ficou próxima de zero.
A casa havia reduzido o risco e os prazos das carteiras de crédito ainda em 2025. “Aqui a nossa postura foi mais conservadora e em 2025 a gestão reduziu o risco e os prazos do crédito. Quando vieram os casos das empresas problemáticas, estávamos sem essas empresas nos portfólios graças ao conservadorismo que adotamos”, explica.
Essa preparação limitou o impacto da reprecificação que atingiu a indústria no primeiro trimestre de 2026. Segundo Arraes, os fundos da casa com maior caixa e liquidez mantiveram captação positiva. “Nos outros fundos, estamos bem perto de chegar no zero a zero em termos de captação”, conta.
Ao comparar os episódios de crédito deste ano com os de 2023, ele aponta a migração do mercado para operações com ativos isentos como um dos fatores que ajudaram os preços a encontrar equilíbrio mais rapidamente. A preparação das carteiras também contribuiu. “Além disso, os gestores agora estão mais preparados, com estratégias mais defensivas, então a indústria sofreu menos com a abertura do que em 2023”, avalia.
Depois da abertura inicial dos spreads, o mercado se acomodou. “Vimos um pouco de abertura nos spreads de crédito no primeiro trimestre, mas depois o mercado veio se acomodando e os gestores hoje estão com bastante caixa”, explica. Como as empresas conseguiram renegociar suas dívidas para o curto prazo, Arraes espera um segundo semestre mais tranquilo que o primeiro.
Entre os institucionais, o movimento é de espera após anos de alocações expressivas em crédito privado. “Não há captações relevantes junto a esse público hoje, mas também não vemos resgates. O momento é de espera até a eleição e esses investidores devem continuar ‘de lado’ até ficar mais claro se as principais situações de dificuldade de crédito já ocorreram”, afirma.
Arraes considera que a acomodação faz parte de um ciclo normal e observa que os spreads estão sem alterações expressivas há três meses. “Os fundos voltam a rodar bem com o carrego, há menos resgates agora do que no primeiro semestre e o mercado está estabilizado”, diz.
No mercado primário, as dificuldades das empresas inibem novas emissões e direcionam as alocações para o secundário, que hoje tem maior profundidade. A expectativa é de que a baixa oferta de novos ativos ajude a manter os spreads estáveis, sem abertura relevante. Por outro lado, as incertezas eleitorais também devem limitar um eventual fechamento.
A BTG Pactual Asset mantém uma abordagem ativa e conservadora, com diversificação e atenção à liquidez. “A nossa postura ainda é cautelosa em relação a prazos e posições de caixa. Os fundos de crédito privado estão rodando entre 20% e 30% de caixa desde o segundo semestre do ano passado, contra um percentual anterior que era de 10%”, informa Arraes.
O risco é distribuído entre os segmentos corporativo e bancário. Os fundos de liquidez têm maior presença de crédito bancário, enquanto os de crédito concentram mais ativos corporativos. “Quando estamos bem animados com o corporativo, a preferência é praticamente só por debêntures. Tentamos aumentar essa posição quando o spread abriu este ano, mas não conseguimos aumentar tanto quanto havíamos feito na abertura dos spreads de 2023”, explica.
Melhores gestores em Renda Fixa (arquivo em pdf)
