Edição 389

“O momento é de entrar para comprar porque os preços dos papéis estão exagerados”, afirma Marcos Peixoto, responsável pelas estratégias de renda variável da XP Asset Management
A combinação de juros elevados, incertezas eleitorais e mudanças no fluxo de investidores estrangeiros mantém o mercado brasileiro de ações sob pressão. Embora os preços mais baixos abram oportunidades de compra, a falta de clareza sobre o cenário doméstico e internacional limita a disposição para assumir riscos.
Na XP Asset Management, o responsável pelas estratégias de renda variável, Marcos Peixoto, vê oportunidades em ações que caíram de preço sem mudanças nos fundamentos das empresas. A avaliação sobre os rumos da bolsa, porém, depende de maior visibilidade sobre a política fiscal após as eleições. “Vamos entrar agora num período em que as notícias que afetam o investidor local serão as mais importantes para a bolsa. Será possível avaliar se os setores mais sensíveis aos juros poderão melhorar ou se acontecerá o contrário”, afirma.
Na BNP Paribas Asset Management Brasil, Marcos Kawakami, líder de renda variável, combina uma postura mais defensiva com a seleção de empresas que apresentem perspectivas favoráveis de lucro. A estratégia procura equilibrar proteção e oportunidades em um mercado afetado pela redistribuição dos investimentos globais. “Como no futebol, foi uma boa combinação de ataque e defesa que deu certo porque a gestão de portfólio não pode ser apenas defesa, é preciso combinar as duas coisas”, diz.
Já Gilberto Nagai, superintendente de renda variável da SulAmérica Investimentos, destaca o uso de modelos quantitativos para identificar o “estado do mercado” e orientar as decisões. As incertezas externas, as eleições e a perspectiva de juros longos elevados mantêm os investidores cautelosos. “O institucional não vai ter uma arrancada de seu investimento em bolsa, ele não vai ter pressa para voltar à renda variável”, acredita.
Oportunidades – A indústria de fundos de renda variável continua a sofrer com os resgates, apesar da melhora da bolsa no final de 2025 e em alguns meses de 2026, impulsionada pela entrada de estrangeiros. Para Peixoto, da XP, a recuperação ainda não foi suficiente para atrair os fundos de pensão brasileiros. “Aqui ficamos com a captação estável nos nossos fundos de ações, mas para a indústria como um todo está difícil. Os fundos de pensão, por exemplo, têm as metas de seus planos entre 5% e 6% além da inflação, então fica difícil competir com os investimentos de renda fixa”, diz.
Na base de investidores dos fundos de ações da XP, as Entidades Fechadas de Previdência Complementar (EFPCs) representam metade do passivo, enquanto o varejo responde por 30% e os demais públicos pelo restante. Segundo Peixoto, essas fundações, que investiam em média 20% de seus ativos na bolsa, reduziram a participação para cerca de 7%, com várias delas mantendo apenas 2% ou 3% em ações.
A mudança no comportamento do mercado também trouxe dificuldades para a gestão das carteiras. “O mercado mudou muito na virada do ano passado para este. 2025 foi bom para os fundos de renda variável de gestão ativa, mas 2026 tem sido uma montanha-russa, muito volátil e esquizofrênico mesmo, incluindo um fluxo avassalador de investidores estrangeiros que pegou todos de surpresa”, afirma.
A carteira da XP estava mais defensiva em 2025 e acabou capturando menos da valorização do que poderia, porque a intensidade da alta não era esperada. Depois, o movimento se inverteu. “Em meados de abril deste ano, o estrangeiro começou a sair e o volume de recursos externos na bolsa brasileira recuou de R$ 70 bilhões para os atuais R$ 20 bilhões. Nunca vi uma mudança tão abrupta de direção sem que houvesse um motivo aparente, porque não houve mudança na situação das companhias”, diz.
A diversificação internacional que trouxe recursos ao Brasil e a outros emergentes nos últimos meses de 2025 durou até abril. “Ela foi mantida inclusive no mês de março, apesar da guerra no Irã ter começado no final de fevereiro”, observa. Naquele momento, os questionamentos sobre o desempenho das empresas de inteligência artificial favoreciam a bolsa brasileira, vista como uma alternativa “anti-IA” pela presença de outros setores.
A partir de abril, porém, os bons resultados das empresas de IA passaram a direcionar recursos para Coreia do Sul e Taiwan. “Esse foi um dos motivos para a saída de recursos do Brasil, mas de abril em diante houve também o impacto da guerra do Irã. No início, apesar do fechamento do estreito de Ormuz, não houve muita inflação no mundo, mas agora volta essa preocupação”, afirma.
O fluxo de estrangeiros para a B3 voltou a acelerar em julho, seguido por uma saída intensa em agosto, sem um fator específico, diz Peixoto. “Aparentemente foi um fundo estrangeiro que fez um grande resgate, mas é difícil prever quando o movimento de investimento externo no Brasil vai terminar. O momento é de entrar para comprar”, avalia.
Foi nesse contexto que o Investor, um dos fundos de ações da XP, zerou o caixa em agosto para comprar ativos. “Mesmo os de setores mais defensivos foram afetados e estão caindo quase 20% em um mês”, conta.
As compras incluem até empresas do varejo de vestuário, segmento que sofre em ambientes como o atual. “Nas ações da Renner, por exemplo, que paga dividendos acima de 10% ao ano, o múltiplo Preço sobre Lucro (P/L) chegou a ser de aproximadamente sete vezes, um terço do que costumava, então o downside está exagerado”, acredita. No setor de educação, Peixoto destaca a Cogna, cujas ações caíram pela metade sem alteração nos fundamentos, segundo sua avaliação.
Para além das oportunidades pontuais, ele espera que o resultado das eleições, em outubro, ajude a esclarecer os rumos da renda variável. Novembro será um mês importante para conhecer a composição do Ministério da Fazenda e avaliar a orientação da política fiscal, fatores decisivos para as perspectivas dos setores mais sensíveis aos juros.

“Aqui estamos com uma postura mais defensiva porque o mercado está muito volátil”, diz Marcos Kawakami, líder de renda variável da BNP Paribas Asset Management Brasil
Equilíbrio – Kawakami, da BNP Paribas, lembra que 2025 começou com a bolsa brasileira muito pressionada pelos juros domésticos e globais, pelo câmbio e pela preocupação fiscal. Mas ai começou a predominar uma visão de que as bolsas americanas estariam excessivamente concentração nas “sete magníficas”, empresas de tecnologia reúnem hoje três quartos dos ativos globais, que beneficiou o Brasil. “Essa discussão produziu uma mudança no fluxo de investimentos globais, que passou a ir para fora da bolsa americana”, diz.
O movimento favoreceu o real e a bolsa brasileira, inclusive na comparação com outros mercados. Em 2026, entretanto, a situação mudou, e o fluxo externo perdeu força. “Este ano, embora não estejamos num cenário oposto ao de 2025, a situação mudou para o investimento em renda variável local”, afirma.
O recuo dos estrangeiros na B3 está ligado, em sua avaliação, tanto à recuperação dos resultados da IA quanto aos efeitos do conflito no Oriente Médio e à pressão de alta dos juros nos Estados Unidos, na Europa e em outras regiões. “Aqui já começou a estressar o juro também e isso mudou o patamar da Selic. Neste segundo semestre temos também o impacto da eleição”, diz.
Kawakami observa que a dinâmica inicial foi marcada pelo declínio do dólar e da IA, setor que havia recebido um fluxo expressivo de recursos antes de 2025 e registrado forte valorização. Ao discutir o retorno sobre o capital investido (ROIC) nesse setor, ele menciona valores de trilhões de dólares e questiona se os investimentos terão retorno no curto e médio prazo. “Até porque elas continuam a investir este ano e falam de seguir investindo também em 2027. Por enquanto, temos visto performances fortes de empresas de memória da Coreia do Sul e uma parte dos investimentos migrou para lá e para Taiwan”, afirma.
No Brasil, o peso de bancos e commodities, principalmente petróleo e mineração, faz com que a bolsa seja vista como um mercado de valor, e não de crescimento. “Aqui estamos com uma postura mais defensiva porque o mercado está muito volátil e a nossa posição em commodities está razoável. Gostamos de bancos também, assim como de empresas mais pagadoras de dividendos, mas não é uma posição concentrada. Os demais setores estão presentes, mas com peso menor no momento”, explica.
A estratégia de small caps é um exemplo de resultado positivo da casa em 12 meses, com um fundo reunindo empresas de menor capitalização, com menos commodities e maior exposição à economia doméstica, além de boas pagadoras de dividendos. “Small caps performou bem em 12 meses graças às nossas escolhas de papéis, que têm uma tendência positiva de lucro e estão baratos”, diz. “Surfamos muito bem também a performance dos ativos de construção civil, de bancos e de empresas de telecomunicação”, conta Kawakami.
“Como no futebol, foi uma boa combinação de ataque e defesa que deu certo porque a gestão de portfólio não pode ser apenas defesa, é preciso combinar as duas coisas”, diz. O resultado é uma exposição mais equilibrada de ativos, entre aqueles de longa duração, mais sensíveis à volatilidade, e os mais defensivos. “No momento estamos mais neutros e levemente overweight em commodities”, explica.
Na BNP Paribas Asset, dois terços do passivo sob gestão em renda variável vêm de investidores globais, com participação expressiva da Ásia. Entre os investidores locais, Kawakami observa que as EFPCs continuam atingindo suas metas com renda fixa, favorecidas pelos juros elevados e pela marcação na curva dos títulos públicos.
Modelos orientam a exposição – Com R$ 550 milhões sob gestão em fundos de ações, a SulAmérica Investimentos tem concentrado esforços no aprimoramento de modelos quantitativos para identificar as condições do mercado. Segundo Nagai, esse trabalho atende à busca dos investidores por menor volatilidade e retornos consistentes. “Isso tem sido fundamental para continuar entregando resultados”, afirma.
A inteligência artificial é utilizada para identificar momentos de aversão ou de apetite ao risco. “Desde que começamos a usar esse modelo, nos meses de queda de bolsa o fundo cai apenas 52% do movimento e nos meses de alta do Ibovespa, acompanha 83% da alta. É como ter um conselheiro do fundo que fala sempre sobre o mercado, sem se irritar”, diz. Esses indicadores também ajudaram a identificar empresas em dificuldades.
Na leitura de Nagai, a discussão sobre geração de caixa e desempenho das empresas de tecnologia no exterior afeta a renda variável desde 2025. O desconforto dos investidores provocou resgates que beneficiaram mercados emergentes. “Além disso, com o início da guerra no Irã, aumentou a volatilidade na parcela de ações dos portfólios, reduzindo seu tamanho”, lembra.
Os bons resultados das empresas de IA no segundo trimestre de 2026, porém, reduziram essas preocupações e a urgência de transferir recursos de ações de crescimento para papéis de valor, como petróleo e energia. “O investidor estrangeiro não tem urgência, no momento, de comprar ações na bolsa brasileira, embora os preços estejam baratos o suficiente para isso. Ele prefere esperar a eleição”, diz.
Ao mesmo tempo, a conjuntura internacional ampliou a necessidade de emissão de dívida pelos governos, que passaram a enfrentar maior competição das empresas de tecnologia pelos recursos. “Os juros de longo prazo nos EUA subiram, no resto do mundo também e estamos todos cautelosos, inclusive os empresários brasileiros que estão enfrentando muitas despesas financeiras”, afirma.
Nesse ambiente, Nagai explica que a gestão evita riscos direcionais no curto prazo. “Se compramos uma empresa de energia, por exemplo, vendemos outras do mesmo setor porque não vamos aumentar o beta do portfólio”. As carteiras procuram equilibrar posições e priorizar empresas com boa geração de caixa, baixa alavancagem e menor custo de financiamento.
Entre as preferências estão bancos, energia elétrica, saneamento e Embraer, esta última também como fonte de proteção cambial. “Queremos empresas de energia elétrica, saneamento, bancos e a Embraer, para dar maior proteção cambial e com negócios que estão indo bem. A Embraer é relevante hoje porque está bem na parte de jatos executivos e na parte de defesa e tem uma carteira de pedidos em dólar”, explica.
A disciplina para reconhecer erros e encerrar posições também foi importante no segundo semestre, segundo Nagai. “Tínhamos C&A, mas vendemos rapidamente e conseguimos defender a carteira de metade das perdas registradas pelo papel. Na Hapvida também percebemos que era um business difícil e sofremos 10% a 15% de perdas, mas escapamos dos 65% que foram perdidos por essas ações entre julho de 2025 e julho de 2026”, conta.
Entre os acertos, ele cita a compra de ações do BTG, que subiram 45%, e da Ultra, com valorização de 92% em um ano. Parte do desempenho da Ultra, observa, decorreu dos efeitos da guerra e do repasse dos preços dos combustíveis.
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