
A crise na Apex Partners ganhou nova dimensão na última sexta-feira (7/8), um dia após a plataforma de investimentos capixaba anunciar o afastamento do seu presidente, Fernando Cinelli, e do diretor financeiro, Eduardo Siqueira, por envolvimento em supostas “inconsistências financeiras”. A Justiça concedeu uma proteção cautelar que suspende execuções contra o patrimônio de 178 empresas relacionadas ao conglomerado.
A liminar foi concedida pelo juiz Marcos Pereira Sanches, titular da Vara de Recuperação Judicial e Falência de Vitória. A decisão estabelece prazo de 30 dias para que as empresas apresentem pedido de recuperação judicial, sob pena de perda da eficácia da proteção cautelar caso não o façam.
A medida não significa que a Apex já esteja em recuperação judicial. Segundo a companhia, seu objetivo é preservar o patrimônio e assegurar a continuidade das atividades enquanto uma auditoria externa apura a real situação financeira do grupo.
O juiz também determinou a nomeação de uma administradora judicial para realizar perícia técnica e verificar as condições operacionais do conglomerado. O trabalho deverá ser concluído em 20 dias.
Os documentos apresentados à Justiça apontam passivos próximos de R$ 1 bilhão. A Apex ressalta, porém, que os valores não correspondem a obrigações vencidas ou de pagamento imediato, sendo principalmente compromissos de longo prazo. A dimensão efetiva das inconsistências ainda será verificada por auditoria externa em fase de contratação.
Estopim – A investigação interna que levou ao afastamento dos executivos teria começado após questionamentos dos sócios da plataforma, uma partnership, sobre o investimento de um dos fundos da casa, o BRM Carbyne Voyage, em ações da CVC. O bloco de ações liderado pelo fundo alcançou participação de 15,5% na agência de viagens, cujas ações acumularam queda de 39,4% em seis meses.
Em função dessa participação Cinelli havia sido indicado, em abril, para o Conselho de Administração da CVC. Após o seu afastamento da presidência da Apex ele renunciou também ao cargo no colegiado. Com sua saída da Apex, a presidência da plataforma passou a ser exercida interinamente pelo sócio sênior Marcelo Murad.
Segundo informações do mercado, a apuração sobre a operação com a CVC teria levado os sócios a identificar problemas mais amplos nas finanças da companhia. Após afastar Cinelli a Apex anunciou a contratação de uma auditoria independente para dimensionar o passivo e avaliar seus impactos, mas o nome da mesma ainda não foi divulgado.
A plataforma informou também que pretende buscar a responsabilização civil e criminal pelos fatos apurados, podendo processar Cinelli por suposta “gestão temerária e má-fé”, além de pedir o bloqueio preventivo de seus bens. As acusações ainda dependem de investigação e eventual apreciação judicial.
Em nota, a defesa de Cinelli afirmou que o executivo está comprometido em colaborar para a preservação da companhia, de seus investidores e acionistas e disposto a esclarecer os questionamentos “com total transparência e idoneidade”.
Recursos de terceiros – A Apex informou que a decisão judicial não alcança os patrimônios segregados dos fundos de investimento, os patrimônios fiduciários vinculados às emissões de certificados de recebíveis nem os patrimônios de afetação das sociedades de propósito específico. Segundo a companhia, os recursos de terceiros permanecem preservados.
A instabilidade já provocou reações no mercado. O BTG Pactual rompeu o contrato de distribuição com a Apex e suspendeu os resgates de um fundo ligado à plataforma. O governo do Espírito Santo informou que nem o Tesouro estadual nem o Fundo Soberano do Estado possuem recursos investidos na empresa.
Seguem abaixo as íntegras dos dois comunicados divulgados pela Apex Partners:
Comunicado de 6/8/26
A Apex Partners informa que, após apurações preliminares feitas por lideranças do Partnership, foram identificadas inconsistências financeiras na Companhia. Como medida preventiva e para permitir a melhor apuração dos impactos, o Partnership afastou Fernando Antonio Kulnig Cinelli da presidência da Sociedade. Tomando conhecimento dos fatos, o conselho de administração da companhia afastou imediatamente Cinelli da presidência da Apex e Eduardo Siqueira da diretoria financeira.
A Apex Partners esclarece que todas as medidas estão sendo adotadas para garantir a segurança e a solidez das operações. Uma auditoria externa está sendo contratada para aprofundar a apuração. Estão sendo adotadas também medidas para garantir responsabilização cível e criminal diante dos fatos.
Comunicado de 7/8/26
Seguindo o compromisso de transparência com seus investidores, parceiros e colaboradores, a Apex Partners informa que, nesta sexta-feira (07), obteve o deferimento de uma liminar cautelar.
A medida tem caráter preventivo para garantir o patrimônio da empresa, a continuidade das suas atividades regulares, criando um ambiente de estabilidade, enquanto são concluídos os trabalhos da auditoria externa em fase de contratação.
Esclarecemos que a medida proposta não se trata de recuperação judicial. Trata-se de uma tutela cautelar para proteger as atividades da empresa até que a auditoria externa seja concluída. A companhia acredita fortemente nas atividades exercidas nas suas unidades de negócio. Nosso compromisso é dedicar todos os esforços para superar esse momento desafiador que a empresa vem enfrentando e garantir a continuidade e solidez dos trabalhos.
Essa decisão não alcança os patrimônios segregados dos fundos de investimento, os patrimônios fiduciários vinculados às emissões de certificados de recebíveis nem os patrimônios de afetação das sociedades de propósito específico (SPEs), preservando integralmente os recursos de terceiros e as competências regulatórias.
Importante esclarecer que os valores mencionados na referida ação não representam obrigações vencidas, nem obrigações imediatas – mas sim de longo prazo. O impacto da inconsistência financeira identificada em apuração interna ainda será validado em auditoria externa.