O crédito no momento atual

Artigo de: Arnaldo Braga Neto

Edição 388

Arnaldo Braga Neto, sócio e gestor de crédito da Neo Investimentos

A alta da inadimplência de empresas e famílias e a expectativa frustrada da queda dos juros levantaram dúvidas sobre o investimento em crédito no Brasil. O cenário macro combina inflação de serviços resistente, juros globais elevados, efeitos do choque do petróleo e riscos fiscais, cambiais, eleitorais, climáticos e relacionados à eventual redução da jornada 6×1. Somados a esses riscos, casos como Raízen, GPA, Braskem, Aegea, Oncoclínicas e CSN também afetaram os preços no mercado secundário. Ainda assim, entendemos que não é um momento ruim para crédito, mas que seguramente exige maior seletividade.
Apesar desses sinais de cautela, os indicadores agregados apresentam um quadro mais equilibrado. O crédito ampliado – incluindo operações bancárias, títulos, securitização e dívida externa – permaneceu praticamente estável: equivalia a 92,5% do PIB em dezembro de 2024 e a 91,8% em maio de 2026. Mais importante é sua composição. No período, a dívida ampliada das empresas caiu de 58,0% para 55,8% do PIB, enquanto a das famílias subiu de 34,6% para 36,1%. Portanto, o agregado não mostra expansão indiscriminada da alavancagem corporativa, mas desalavancagem das pessoas jurídicas compensada pelo aumento da exposição das famílias.
Essa leitura é reforçada pelos dados do Serasa de recuperações judiciais, que também não apontam, até agora, para uma deterioração sistêmica. Em janeiro e fevereiro de 2026 foram requeridas 112 recuperações, ante 143 no mesmo período de 2025, queda de aproximadamente 22%. A amostra ainda é curta e não elimina o risco de novos casos relevantes, mas contrasta com a percepção criada pelas renegociações de grande repercussão e contempla uma piora concentrada no agro, que não é percebida em outros setores.
Além disso, a remuneração do risco aumentou mais do que a inadimplência observada. O spread médio das novas operações para pessoas jurídicas passou de 8,56 pontos percentuais em dezembro de 2024 para 12,06 pontos em maio de 2026, alta de 3,50 pontos. No mesmo intervalo, a inadimplência PJ subiu de 2,21% para 3,24%, aumento de 1,03 ponto.
Cabe ressaltar que spread e inadimplência não são diretamente comparáveis: o primeiro também remunera capital, liquidez, custos e perdas esperadas. Ainda assim, a diferença entre suas variações indica que o prêmio adicional cresceu mais do que a deterioração efetivamente registrada. Assim, no agregado, a relação risco-retorno para o credor não piorou e, ao contrário, em alguns segmentos, se tornou mais atraente.
Também se observa uma transformação estrutural no financiamento empresarial. Títulos privados, securitização e dívida externa representavam 36,8% da dívida ampliada das empresas em 2013; em maio de 2026, já respondiam por cerca de 63%. O mercado de capitais deixou de ser apenas complementar ao crédito bancário para se tornar seu principal canal ampliado.
Esse movimento é confirmado pelo boletim da ANBIMA. As ofertas alcançaram R$ 283 bilhões entre janeiro e maio de 2026, crescimento de 14,1% sobre 2025. O principal destaque foram os FIDCs, que captaram R$ 41,7 bilhões, alta de 36,5%, tornando-se o segundo maior instrumento em volume, atrás apenas das debêntures. Em quantidade, os FIDCs já lideram, com 406 operações, ante 237 emissões de debêntures. Além de ampliarem o acesso de empresas menores ao mercado de capitais, oferecem funding estruturado e compatível com seus fluxos de recebíveis, evidenciando sua crescente relevância na diversificação do crédito.
Para as pessoas físicas, o quadro é diferente. O endividamento das famílias permanece relativamente estável desde janeiro de 2022, próximo de 50% da renda anual, mas o comprometimento mensal da renda o recorde de 25,9% em abril de 2026. O problema central parece estar menos no estoque total e mais na composição da dívida.
Linhas longas e menos custosas perderam espaço para modalidades mais curtas e caras, como cartão, crédito pessoal e cheque especial. Mesmo sem crescimento relevante do endividamento total, esse mix consome parcela maior da renda mensal, reduz a capacidade de absorver imprevistos e aumenta o risco de inadimplência.
A solução passa por renegociar e substituir passivos, e não apenas restringir o crédito. Nesse processo, o consignado privado é uma nova ferramenta (desde abril de 2025) para converter dívidas caras e curtas em obrigações mais longas, com juros menores e prestações compatíveis com a renda. Essa substituição tem o potencial de reduzir o comprometimento mensal sem elevar o estoque total de dívida.
Em conclusão, o crédito continua oferecendo retorno atrativo, mas a seleção tornou-se determinante. Nas empresas, a desalavancagem e a ampliação dos spreads criam oportunidades; nas famílias, elas estão na reorganização do perfil da dívida. O melhor resultado virá de segmentos capazes de capturar os prêmios atuais com estruturas, garantias e capacidade de pagamento adequadas.