Edição 388
Linha de frente
Depois de forte valorização das ações ligadas à inteligência artificial e tecnologia nas bolsas de Nova York, uma pergunta se impõe aos investidores: IA e tech ainda são boas apostas para a bolsa ou já embutem risco de bolha? O tema ganha força porque as chamadas “sete magníficas” – gigantes globais como Nvidia, Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet, Meta e Tesla – passaram a concentrar parte relevante do capital mundial, sustentadas pela expectativa de que a IA abrirá uma nova fronteira de produtividade e lucros. Para o investidor brasileiro, o acesso existe por meio de BDRs, ETFs e fundos internacionais. A dúvida é saber se ainda há espaço para valorização depois de uma alta tão expressiva. De um lado, defensores veem uma mudança estrutural, com empresas líderes, caixa robusto e capacidade de capturar ganhos reais da nova tecnologia. De outro, críticos alertam que preços muito esticados podem antecipar lucros que talvez demorem a aparecer. É uma revolução ou uma bolha?

Tiago Calçada, diretor da área de Investimentos da Mercer Brasil
Tiago Calçada: A valorização das ações ligadas à inteligência artificial (IA) elevou a concentração do mercado acionário americano a níveis historicamente elevados. As “Sete Magníficas” representam parcela relevante da capitalização do índice, o que levanta uma questão: ainda há espaço para valorização ou as expectativas já estão incorporadas nos preços?
Estamos diante de uma transformação estrutural, com potencial para alterar modelos de negócio em diversos setores, e não apenas no segmento de tecnologia. O desafio para os investidores é reconhecer esse potencial sem ignorar as incertezas sobre a velocidade de adoção, geração de lucros e empresas que capturarão esse valor.
Os múltiplos elevados refletem expectativas robustas, mas ainda há dúvidas sobre a magnitude e o prazo de materialização dos ganhos. É possível que os resultados demorem mais ou beneficiem empresas diferentes das atuais líderes.
A possibilidade de que parte das expectativas esteja incorporada nos preços não significa evitar a tese de investimento. Pode significar ampliar o olhar para além das ações mais conhecidas. Infraestrutura – data centers, redes, energia –, manufatura avançada, descoberta de moléculas em farmacêutica e otimização de recursos naturais podem participar desse ciclo, eventualmente a múltiplos mais atraentes.
Para investidores, pode ser mais adequado avaliar a exposição por classes de ativos. Crédito privado, private equity e venture capital podem complementar a estratégia, considerando liquidez, governança e horizonte de investimento.
A questão não é binária. A IA pode representar uma importante fonte de inovação e crescimento, enquanto algumas empresas líderes podem estar mais sensíveis a expectativas elevadas de valuation. As duas afirmações podem ser verdadeiras simultaneamente. Uma abordagem diversificada reduz a dependência de um grupo restrito de empresas e permite avaliar diferentes setores, geografias, ativos e estágios de maturidade ao longo dessa transformação.

Luciano França, sócio e gestor de renda variável da Paramis Avantgarde
Luciano França: Não acredito que o setor de inteligência artificial esteja em uma bolha no sentido clássico. O que existe hoje é uma combinação de fundamentos fortes, expectativas elevadas e posicionamento concentrado. Esses elementos precisam ser analisados separadamente.
A pesquisa de julho do Bank of America mostra que semicondutores se tornaram o trade mais consensual do mercado e que a percepção de “bolha de IA” passou a liderar os riscos de cauda. Isso aumenta a vulnerabilidade a correções. Mas posicionamento congestionado é uma variável de fluxo. Já uma bolha é uma desconexão entre preço, lucro e capacidade de geração de caixa. Não são a mesma coisa.
A demanda mais latente da IA continua concentrada na infraestrutura. A expansão de data centers exige semicondutores avançados, memória, redes, energia e refrigeração. A pressão recente sobre preços de memória e outros componentes indica demanda física efetiva e restrição de oferta. A primeira etapa de monetização está acontecendo justamente nos fornecedores dessa infraestrutura.
Também é um erro tratar as “sete magníficas” como uma tese única. Nvidia, Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta possuem exposições distintas e graus diferentes de captura econômica. Em algumas, a IA já afeta receita, margens ou produtividade. Em outras, a tese ainda depende mais de expectativa do que de resultado observado.
Por isso, a discussão não deveria ser entre “revolução” ou “bolha”. A questão correta é onde o mercado já antecipou demais e onde o crescimento de lucros ainda pode sustentar os múltiplos. O P/L projetado de várias líderes de semicondutores e serviços de IA continuam compatíveis com empresas lucrativas, de elevado crescimento e forte geração de caixa. Não são múltiplos baixos, mas também não representam, de forma generalizada, os excessos vistos no início dos anos 2000.
IA e tecnologia continuam sendo boas apostas, desde que com seletividade. O risco maior hoje não está na tese estrutural, mas em comprar exposição periférica como se todas as empresas fossem igualmente beneficiárias.