Edição 388

A renda fixa, com títulos contratados acima das metas e CDI elevado, deverá sustentar o crescimento dos superávits no segundo semestre, avalia Guilherme Benites, sócio e diretor da Aditus
O primeiro semestre de 2026 foi um jogo de compensações para as entidades fechadas de previdência complementar (EFPC). Janeiro e fevereiro entregaram fortes rentabilidades, mas a inflação elevada pressionou as metas atuariais e consumiu parte da vantagem construída pelas carteiras. No segundo trimestre, a alta dos preços perdeu força, porém o ambiente para os investimentos se tornou mais difícil. O saldo foi positivo, mas estreito: o consolidado encerrou junho acima dos objetivos, sem acumular uma margem confortável para atravessar um segundo semestre que promete maior volatilidade.
Levantamento realizado pela consultoria de investimentos Aditus com 142 EFPC clientes, que reúnem 534 planos de benefícios e cerca de R$ 482 bilhões em ativos, apontou rentabilidade consolidada de 6,11% no primeiro semestre, ante meta atuarial de 5,93%.
O resultado reúne dois períodos bastante distintos. No primeiro trimestre, o bom desempenho dos mercados foi parcialmente neutralizado pela inflação, que elevou as metas. No segundo, a pressão inflacionária diminuiu, mas abril, maio e junho foram mais fracos para os investimentos. “Quando você junta as duas coisas, grosso modo, as entidades bateram a meta mas não criaram uma gordura muito grande”, resume Guilherme Benites, sócio e diretor da Aditus.
Modalidades de planos – O desempenho também variou entre as modalidades de planos. Os de Contribuição Definida (CD) apresentaram o melhor resultado, com rentabilidade mediana de 6,29% no semestre, ante meta de 5,69%. Os planos de Benefício Definido (BD) renderam 5,97%, ligeiramente abaixo dos 5,98% de seus compromissos, enquanto os de Contribuição Variável (CV) avançaram 5,93%, para uma meta de 6,03%.
A elevada concentração em ativos de baixo risco ajudou a limitar os efeitos da piora dos mercados. “Nesses casos, por mais que mude o cenário, o resultado final não é tão impactado assim”, afirma Benites.
Ao final de junho, a renda fixa concentrava 92,10% dos recursos das entidades analisadas. A renda variável respondia por 3,53%; os investimentos estruturados, por 2,73%; os investimentos no exterior, por 1,34%; e os imobiliários, por 0,29%.
Com retorno de 6,29% no semestre, a renda fixa foi a principal responsável pela estabilidade das carteiras e deverá continuar sustentando os resultados na segunda metade do ano. As entidades carregam títulos adquiridos a taxas superiores às metas, além de posições pós-fixadas favorecidas por um CDI que tende a permanecer elevado por mais tempo.
O desempenho dos títulos indexados à inflação, porém, depende também da aderência entre o índice das carteiras e o utilizado nas metas atuariais. Segundo Benites, o avanço mais forte do INPC em relação ao IPCA prejudicou planos cujos compromissos estão vinculados ao primeiro índice, mas cujos ativos acompanham majoritariamente o segundo.
“Tem muita gente com meta em INPC e a carteira toda em IPCA. Esse descasamento não foi muito grande, mas também atrapalhou”, explica. Na avaliação do consultor, a combinação de um INPC mais moderado com juros ainda elevados deverá favorecer tanto os títulos públicos quanto a parcela de liquidez das carteiras no segundo semestre.
Nas classes de maior risco, os retornos ficaram abaixo dos registrados pela renda fixa. A renda variável avançou 3,91% no semestre, enquanto os investimentos estruturados renderam 3,14% no período. Os investimentos no exterior acumularam alta de 1,82% e os imobiliários ganharam 3,24%.
A expectativa é que a desaceleração da inflação reduza a pressão sobre as metas e permita às entidades ampliar a distância em relação aos seus objetivos. Benites considera uma projeção de inflação ao redor de 5,20% no ano, depois de uma alta estimada entre 3,30% e 3,40% no primeiro semestre. “A minha percepção é que devemos ter uma inflação mais baixa no segundo semestre”, diz.
Esse movimento deverá se refletir também no balanço atuarial das EFPC. Após um primeiro semestre próximo da estabilidade, a tendência é de crescimento dos superávits até dezembro, impulsionado principalmente pelos retornos da renda fixa. “Nesse primeiro semestre ficou meio zero a zero, mas acredito que, no segundo, teremos crescimento do superávit”, projeta.
Geopolítica – A ampliação da margem em relação às metas, contudo, deverá ocorrer em um ambiente mais instável para os ativos de risco. O avanço do processo eleitoral brasileiro se somará às incertezas geopolíticas, às eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e às decisões do Federal Reserve.
A possibilidade de os juros norte-americanos permanecerem elevados, ou até voltarem a subir diante de novas pressões inflacionárias, tende a afetar os fluxos globais e a precificação dos ativos. “A questão eleitoral e o cenário global vão trazer volatilidade. Não dá para dizer se ela será positiva ou negativa, mas certamente será maior”, afirma Benites.
Nesse contexto, a movimentação mais provável entre as EFPC deverá ocorrer dentro das próprias classes, sem elevação imediata da exposição total ao risco. Na renda variável, por exemplo, estratégias passivas poderão perder espaço para gestores mais ativos, capazes de proteger as carteiras em períodos adversos ou aproveitar melhor uma eventual recuperação do mercado.
“Pode haver uma migração sem dinheiro novo”, explica Benites. As entidades poderiam substituir gestores ou estratégias, preservando o volume destinado à classe, mas alterando a forma de exposição.
Uma entrada adicional de recursos em ativos de risco não está descartada, mas dependerá da evolução do cenário político e da reação dos mercados. O potencial para novas retiradas seria limitado, uma vez que as entidades já reduziram significativamente essas posições nos últimos anos.
Caso o ambiente se torne mais favorável, planos que oferecem perfis de investimento poderão voltar a registrar migração de participantes para opções mais agressivas, repetindo o movimento observado no início do ano. “Vejo muito pouco potencial de saída, porque já saiu muito dinheiro de risco. Mas, se o cenário se desenhar de maneira mais favorável, pode haver uma entrada importante”, conclui.