Edição 388

Planos BD superavitários e imunizados explicam o peso da renda fixa na carteira consolidada da fundação, explica Marcella
A mudança no comando da área de investimentos da Valia, fundo de pensão patrocinado principalmente pela Vale, não representa uma alteração de estratégia. A nova diretora de investimentos da fundação, Marcella Sleiman, explica que assume a posição com o propósito de dar continuidade ao trabalho desenvolvido por Maurício Wanderley, que deixou a entidade após 33 anos.
“Não teve nenhuma mudança de direcionamento ou de estratégia com a saída do Maurício. Nada mais é do que dar continuidade ao brilhante trabalho que ele fez esses anos todos na Valia”, afirma Marcella. Segundo ela, a sucessão foi natural e planejada, resultado de um processo construído ao longo dos últimos anos.
Marcella está na Valia desde 2001, quando ingressou como analista de investimentos imobiliários. Depois, passou por áreas como renda fixa, renda variável, estruturados, exterior e mesa de operações, até assumir a gerência de investimentos em 2007. Ela substitui Wanderley, que havia chegado à fundação em 1992 e estava à frente da diretoria de investimentos desde 2007.
A nova diretora assume uma carteira consolidada de R$ 33,69 bilhões, com forte concentração em renda fixa. Em maio, essa classe representava 86,5% dos investimentos da fundação. A concentração, segundo Marcella, reflete a própria estrutura dos planos administrados pela Valia: mais de 60% do patrimônio está em planos de Benefício Definido (BD), todos superavitários, imunizados e lastreados principalmente em títulos públicos indexados à inflação.
“Esses planos estão todos superavitários, carregados com títulos públicos indexados à inflação, imunizados. Então acaba pesando muito essa participação de renda fixa por esse contexto”, explica.
Perfis de investimento – A composição consolidada, porém, não mostra toda a diversidade de estratégias de investimentos da fundação. Nos planos de Contribuição Definida (CD), a Valia oferece duas estruturas de risco aos participantes: perfis de investimentos, nos quais cada um define o nível de risco que deseja assumir, e ciclos de vida, em que a alocação é ajustada conforme a idade esperada de aposentadoria.
Nos perfis de investimento, a opção mais agressiva carrega até 60% de alocação em bolsa. Por isso, embora a renda variável represente pouco mais de 5% da carteira consolidada, a exposição pode ser bastante elevada em determinados planos e perfis. “Tem participante que tem 60% de alocação em bolsa, assim como tem participante que não tem nada porque prefere o perfil de renda fixa”, diz Marcella.
Na renda variável, carteira que predominantemente acompanha o Ibovespa, cerca de 25% tem gestão ativa terceirizada. A Valia reduziu taticamente essa fatia nos últimos anos, diante da dificuldade dos gestores ativos em superar o índice em um mercado muito influenciado pelo desempenho de ações como Petrobras. Ainda assim, Marcella afirma que a fundação segue acreditando na gestão ativa de longo prazo.
A mesma lógica vale para o investimento no exterior. A participação da classe é baixa no consolidado, mas alguns perfis chegam a ficar próximos do limite de 10%. Para Marcella, o ponto central é manter uma política de longo prazo e evitar que ruídos conjunturais determinem a estratégia de investimento.
“Eu costumo falar que o maior benefício que a gente tem na gestão de um fundo de pensão é o tempo”, afirma. Segundo ela, momentos de estresse de mercado podem abrir oportunidades táticas, especialmente em ativos de longo prazo. Recentemente, a fundação alocou cerca de 20% da renda fixa dos planos CD em títulos indexados à inflação, em taxas próximas de IPCA mais 7,5% ao ano.
A gestão da renda fixa é feita internamente, o que, segundo Marcella, reflete a experiência acumulada da equipe, a necessidade de casamento de fluxos nos planos BD e o controle direto do risco de crédito. Já a gestão ativa de renda variável e a carteira internacional são terceirizadas, por meio de processos de seleção de gestores.
Fundos exclusivos – A Valia também utiliza fundos exclusivos, tanto para negociar taxas melhores quanto para adequar produtos às exigências específicas da legislação aplicável aos fundos de pensão.
Na carteira imobiliária, os ativos estão concentrados apenas nos dois planos BD mais antigos. A fundação mantém uma estratégia de desinvestimento gradual desses imóveis, sem urgência, mas com o objetivo de reduzir ativos menos líquidos em planos já maduros e em fase de pagamento de benefícios.
Segundo Marcella, todas as obrigações com característica de BD estão superavitárias. No plano BD, a a Valia já distribui superávit de forma ininterrupta desde 2007.