Os planos do Fundo de Investimento de Pensões do Governo do Japão (GPIF na sigla em inglês) de vender ativos no exterior para ampliar os investimentos no mercado financeiro doméstico podem provocar uma movimentação relevante nos fluxos globais de capital, com potencial para enfraquecer o dólar, elevar os juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos e pressionar os ativos de risco.
Com cerca de US$ 1,8 trilhão sob gestão, o GPIF divide sua carteira aproximadamente em partes iguais entre ativos japoneses e estrangeiros. As aplicações no exterior somam cerca de US$ 930 bilhões, o que significa que mesmo uma realocação relativamente pequena poderia gerar vendas expressivas de ações e títulos estrangeiros, acompanhadas pela compra de ienes e ativos japoneses.
A possibilidade ganhou força após a primeira-ministra Sanae Takaichi afirmar que o governo buscará medidas para incentivar o GPIF e outros fundos de pensão estatais a investir mais no Japão. Nenhuma mudança formal nas metas de alocação foi anunciada até agora, mas a iniciativa coincide com a forte desvalorização do iene, que levou a cotação do dólar a superar 163 ienes, maior nível desde 1986.
A repatriação ajudaria a sustentar a moeda japonesa e criaria uma fonte adicional de demanda pelos títulos públicos do país, cujos rendimentos se tornaram mais atrativos com a retomada da inflação e do crescimento econômico. Nos últimos anos, os investimentos do GPIF em títulos japoneses recuaram de cerca de US$ 770 bilhões para US$ 515 bilhões, enquanto a parcela aplicada em títulos estrangeiros avançou de US$ 128 bilhões para aproximadamente US$ 470 bilhões.
Para os mercados internacionais, entretanto, o movimento teria efeito inverso. A venda de títulos americanos poderia elevar seus rendimentos, enquanto a conversão de dólares em ienes tenderia a enfraquecer a moeda dos Estados Unidos. A valorização do iene também poderia levar ao desmonte de operações de carry trade, nas quais investidores captam recursos a juros baixos no Japão para comprar ativos de maior retorno em outros países.
Os mercados ainda não demonstram grande preocupação com uma eventual repatriação do capital japonês. Caso o governo avance, porém, a dimensão do GPIF transforma qualquer mudança de carteira em potencial fonte de pressão sobre os juros globais, o dólar e os ativos de risco.