Ata do Copom reforça cautela e não dá pistas dos próximos passos

A ata da última reunião do Copom, divulgada nesta terça-feira (23/6), reforçou a leitura de que o Banco Central continuará conduzindo a política monetária com cautela, mesmo após o corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 14,25% ao ano. O documento detalha a justificativa para a redução dos juros em um ambiente de inflação pressionada, expectativas desancoradas e incerteza elevada, mas evitou dar sinalização clara sobre os próximos passos.

Na ata, o Banco Central afirma que, diante de choques de oferta — como os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre petróleo e combustíveis e os riscos climáticos associados ao El Niño —, as melhores práticas de política monetária recomendam não reagir integralmente às variações de preços. Ao mesmo tempo, o comitê reconhece que o cenário inflacionário de curto prazo segue desafiador, com IPCA corrente mais alto, expectativas acima da meta e riscos assimétricos na direção altista.

O texto também mostra que o Copom discutiu trajetórias alternativas para a Selic e concluiu que movimentos menos discrepantes em relação ao que o mercado já precifica evitariam volatilidade excessiva nos ativos e nos agregados macroeconômicos. Nessas simulações, a convergência da inflação ao centro da meta ocorreria apenas no primeiro trimestre de 2028, horizonte que, na prática, passou a orientar a discussão da autoridade monetária.

Mercado – No mercado, a leitura predominante foi de que a ata esclareceu melhor os motivos do corte, mas manteve em aberto a decisão de agosto. Para Rafael Rondinelli, da MAG Investimentos, a comunicação pavimenta o caminho para uma interrupção do ciclo, ao mesmo tempo em que reconhece a piora do quadro inflacionário e eleva a barra para um novo corte. Peterson Rizzo, da Multiplike, afirmou que o documento sinaliza um processo de afrouxamento lento, gradual e sujeito a pausas, com a Selic permanecendo em nível contracionista por mais tempo.

Sidney Lima, da Ouro Preto Investimentos, avaliou que a ata não indicou uma pausa imediata, mas deixou claro que os próximos movimentos dependerão inteiramente da evolução da inflação, das expectativas e do cenário externo. Já Gustavo Sung, da Suno Research, considerou que o documento esclareceu ruídos do comunicado anterior, reforçou os riscos inflacionários e mostrou que o espaço para cortes está cada vez menor, embora a ausência de guidance preserve flexibilidade para a próxima reunião.

Na avaliação de Gabriel Mollo, da Daycoval Corretora, a ata foi o principal evento do dia e poderá definir se a abertura recente da curva de juros foi excessiva ou justificada. Para ele, a melhora do ambiente externo, com redução das tensões no Oriente Médio e recuo do petróleo, ajuda no curto prazo, mas a postura mais conservadora do Federal Reserve mantém o cenário global restritivo e segue influenciando os ativos domésticos.