Fiscal e choques globais pressionam juros

Edição 387

Megale,Caio(XP) 24ago 01

Caio Megale, economista-chefe da XP nvestimentos

No início deste ano, a maioria dos analistas de mercado acreditavam que, com a acomodação da guerra comercial gerada pela elevação das tarifas pelo Presidente Donald Trump, os temas domésticos dominariam a dinâmica de preços nas economias emergentes e do Brasil em 2026.
Mas o conflito entre EUA/Israel e Irã mudou esse quadro. O fechamento do Estreito de Ormuz e o aumento expressivo nos preços do petróleo – 50/60% no ano – trouxe volatilidade às bolsas e pressionou as taxas de juros futuras ao redor do mundo. Bancos centrais que vinham com os juros parados, como na Zona do Euro e no Reino Unido, passaram a indicar elevação. Os que vinham cortando os juros, pararam ou sinalizaram um ciclo mais cauteloso, como nos EUA e no Brasil.
O cenário de inflação global se deteriorou, não apenas devido à guerra no Oriente Médio – que já dura mais do que o esperado. A forte expansão dos investimentos em inteligência artificial (IA) pressiona os custos de componentes. Além disso, há maior probabilidade de um “El Niño” severo, evento climático que afeta a temperatura dos oceanos e prejudica a produção de alimentos em muitas partes do mundo. O risco inflacionário é particularmente elevado em países com política fiscal expansionista, como no G3 (EUA, Europa e Japão) e no Brasil.
No caso específico do Brasil, os efeitos do conflito global foram suavizados pelo fato do país ser exportador líquido de petróleo e de outras commodities relevantes, como grãos e minério de ferro. Desta forma, as receitas fiscais e com exportações se elevaram, e o governo vem fazendo uso desses recursos para turbinar medidas que atenuem o efeito da guerra e puxem a economia.
Estimamos que as medidas de estímulo fiscais e parafiscais, implementadas desde o quarto trimestre de 2025, somam cerca de R$ 200 bilhões, o que pode adicionar até 1,5 p.p. ao crescimento do PIB em 2026. Isso deve manter o crescimento econômico próximo (ou até acima) de seu potencial este ano, apesar da política monetária restritiva.
Neste contexto, projetamos a inflação do IPCA em 5,5% este ano – estava em 3,8% em fevereiro – e 4,2% em 2027. Face à maior pressão inflacionária, ajustamos também nossa expectativa de taxa Selic no final do ano para 14,25%. Se estivermos certos, o ciclo de ajuste de juros planejado para este ano vai acabar sendo de apenas 0,75pp, bem menor do que a média das expectativas de mercado no início do ano (ao redor de 3,0pp).
A fotografia dos números macroeconômicos do Brasil segue positiva, com crescimento do PIB acima da média histórica, taxa de desemprego nas mínimas históricas, balança comercial batendo recorde e receitas tributárias sólidas por conta da atividade doméstica robusta e do aumento nos preços do petróleo.
Mas sinais de esgotamento aparecem. Endividamento elevado, inadimplência em alta, além de custos de produção, taxas de juros e impostos pressionados reduzem o fôlego financeiro das empresas e famílias.

Eleições no radar – O processo eleitoral que dominará as atenções na política deste segundo semestre tende a seguir acirrado, a despeito das oscilações na parte final da primeira metade do ano, em uma disputa que deve manter como principais candidatos o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro.
Antecipa-se uma corrida apertada, mantendo elevada a volatilidade dos ativos financeiros. Entendemos que o tema mais relevante do ponto de vista econômico consiste em como lidar com esses sinais de esgotamento das atuais alavancas de crescimento, em particular o desequilíbrio das contas públicas. O país hoje bate recorde de arrecadação, mas não consegue “sair do vermelho” no saldo fiscal. Trata-se de um sinal de que o problema está do lado das despesas.
Governistas e oposição reconhecem a necessidade de discutir o ritmo de crescimento de despesas obrigatórias que pressiona o arcabouço fiscal em vigor. A vontade de enfrentar o tema e as ferramentas à disposição do Executivo para fazê-lo – em um cenário em que o Congresso vê seu peso relativo cada vez maior na balança entre os Poderes – estarão no centro das atenções.
Olhando mais adiante, acreditamos que as perspectivas estruturais do Brasil seguem positivas. Somos uma superpotência de commodities, em um momento que o mundo precisa destes produtos – especialmente energia renovável, minerais e alimentos. Fizemos reformas relevantes nos últimos anos, como a trabalhista, a previdenciária e a tributária. Melhoramos os marcos legais de investimento, o que tem atraído forte fluxo de capitais de longo prazo tanto locais como estrangeiros.
Desta forma, com ajustes fiscais e um freio de arrumação no crescimento do crédito e do consumo, e avanços nas reformas institucionais e na segurança pública, vemos amplo espaço para cortes de juros no ano que vem e potencial para o país ingressar em um logo período de crescimento próspero e sustentável.